“Puta que los parió”

Temos na Guerra das Malvinas (Falklands para os europeus), ocorrida em 1982, um exemplo histórico de incoerência política sobre estrutura geográfica. Reivindicadas em 1833 pelo Reino Unido, essas ilhas, até então compreendidas como território argentino, se tornaram palco de um extenso roteiro de conflitos, tanto bélicos quanto ideológicos.

Certo, certo… mas o que isso tem a ver com um chinês? Vamos aos fatos!

Jun (Ignacio Huang) é um jovem artista chinês que tem seu mundo devastado após a trágica morte de sua noiva, em circunstâncias bem pouco ortodoxas, no exato momento em que a pedia em casamento. Sem família, sem norte e sem muitas razões para continuar sua vida, resolve buscar apoio em seu único parente vivo, um tio que há muito tempo se mudara para a Argentina.

Pausemos aqui a biografia de Jun. Este não é exatamente o protagonista de nossa história.

Roberto (Ricardo Darín) é um homem de meia idade, solitário, amargurado. Um ser humano moldado pela acidez de uma vida trágica. Acorda cedo, trabalha em sua loja de ferragens, dorme às 11h em ponto, coleciona recortes de jornais que contam histórias absurdas. Uma vida monótona, repetitiva e sem grandes perspectivas. Mas tudo muda em uma tarde. Roberto vê o jovem chinês ser jogado para fora de um taxi após ser roubado pelo motorista. Tem início uma inusitada parceria.

Enquanto acompanhamos a odisseia de Roberto no intuito de ajudar seu novo amigo/inquilino a encontrar seu tio, notamos uma violenta porém grata evolução da narrativa, iniciando-se cômica, ao nível de alguns novelões e típicos filmes ao estilo “feel good”, e desembaraçando-se em um drama convincente, apesar de fantástico, enquanto os destinos de Roberto e Jun vão se mostrando cruzados nos recortes de jornal. O homem triste foi marcado pela guerra (aquela, das Malvinas) e pela perda do pai; o jovem asiático, por um acidente absurdo que lhe tomou a mulher que amava. Ambos, frente a frente, metaforizam um espelho das incoerências proporcionados pela vida e o quão intensas e definitivas podem ser as reações a tais eventos.

Jun, Mari e Roberto ao fundo.

O peso efetivo do elenco, ao contrário do que se possa pensar, não se sustenta apenas na atuação de Darín. Huang, apesar de começar como um alívio cômico, interpretando um clássico estereótipo oriental, surpreende com um equilíbrio dramático no tom exato, no momento exato. Há um silêncio metafórico em sua fala – não tem legenda. Então, a não ser que você fale mandarim, não se entende uma palavra – carregada por um olhar perdido, quase assustado. Fechando o núcleo principal, temos Muriel Santa Ana interpretando Mari, irmã de um amigo de Roberto. Uma bela mulher apaixonada por homem prefere se abster a relações afetivas.

Dirigido por Sebastián Borensztein, “Um Conto Chinês” (Um Cuento Chino), se aproveita de um elenco coeso e um roteiro divertido e envolvente. Não é apenas o drama no terceiro ato do filme que envolve; toda a rispidez de Roberto com seus constantes palavrões e chateações cotidianas, sua relação mal resolvida com Mari e até mesmo os transtornos causados pela chega de Jun, criam uma atmosfera plausível e, em certos pontos, reconhecível e familiar ao espectador. Claro que a vaca é dispensável.

 

 

 

 

 

 

There are currently no comments.