Sem dúvida, o erotismo constitui-se como marca de leitura na literatura ocidental e latino-americana. E o homo-erotismo se revela como lugar de enunciação em seus gestos e práticas investidos na legião livre da existência. Como um olhar que registra as vias urbanas, este mesmo olhar flagra os contatos homossexuais entre e com homens demarcados no disparate, tendo como medida as experiências on the road. (GARCIA, Paulo César. 2008).

 Outubro de 2002. João Gilberto Noll, gaúcho de Porto Alegre, até então com 56 anos e um histórico profissional que incluía a Folha de São Paulo (1970) e a Pontifícia Universidade Católica (lecionou no curso de Comunicação em 1975), apresenta ao mundo o provocante romance Berkeley em Bellagio.

Narrativa pós-moderna ousada e cativante, Berkeley em Bellagio foi mais que um novo trabalho; foi uma releitura de toda obra nolliana. Mais uma vez, como em A fúria do corpo (1981), a velha personagem ao estilo outsider é inserida na trama: expatriado por opção, residente das rotas internacionais, o João (este, personagem), homem de certa idade, intelectual, escritor homossexual, gaúcho de Porto Alegre, em muito se confunde com aquele João, o autor, de certa idade, intelectual, escritor homossexual…

Capa de Berkeley em Bellagio
(2003, ed. Francis).

O João (personagem) de Berkeley em Bellagio anuncia-se como uma figura disposta a romper tabus. A linguagem poeticamente sensual, para não dizer obscena, empregada pelo autor, constrói junto ao leitor a visão de um Inocêncio VIII pós-moderno acerca da personagem. Esta, assim como aquele, sempre em busca de sangue novo para reavivar seus sentidos. Tal qual o papa, o intelectual gaúcho parecia crer no poder de transfusões como mecanismo mantenedor da vida. Porém, diferente do Santo Padre do século XV, o fluído desejado por João não era vermelho, e sim esbranquiçado. Não detinha o poder de sustentar a vida, e sim o de gerá-la. A sede (ou fome?) de juventude do João, sempre o levava a delírios ou aventuras inesperadas com boys em Berkeley ou com ragazzos em Bellagio.

No percurso entre cortinas empoeiradas e o cascalho dos campos de Bellagio, surge a questão: qual a razão primordial para o elemento homoerótico em Berkeley em Bellagio? A riqueza criativa da obra de Noll se manifesta de forma violenta: o que de início parece ser um romance no mais banal estilo sex pocket book, revela um fundo politizador ao inserir uma minoria marginalizada nas rodas intelectuais de renomadas instituições acadêmicas. O homossexual, vítima de toda sorte de ofensas morais e físicas, aqui se mostra dominador de um certo espaço, na Universidade da Califórnia, onde ensina aos jovens frequentadores do Mcdonald’s um pouco sobre cultura brasileira.

Fez três vezes em vinte dias Porto Alegre – São Paulo – Porto alegre de ônibus rumo ao consulado americano. Dinheiro emprestado, levando recortes de jornais comentando seu período como escritor residente em Berkeley, agora como futuro professor convidado, dando cursos sobre Clarice, Graciliano, Raduan, Caio, Mirisola e alguns outros, mais alguns cursos sobre MPB, quando ele cantava, ele que gostava de cantar desde pequeno, cantava sobretudo bossa nova e tropicália como um emissário de pérolas brasileiras que os alunos americanos pareciam receber com a efusão conveniente às melhores notas – para depois de formados poderem operar as mais produtivas relações internacionais para o país deles controlar melhor o cosmos. (NOLL, 2003. p. 14).

João (o autor) em muito se confunde ao João (a criação).

Noll consegue expandir a imagem e a voz da classe representada por sua personagem de modo a torná-las um grito. Um grito que ultrapassa barreiras literárias e geográficas dizendo: “Estamos aqui! Somos seres viventes, pensantes e absolutamente COMPETENTES!!!”. Em pouco mais de 100 páginas o elemento, outrora marginal, torna-se centro (e centralizador) de uma gama de questões político-morais que perpassam a sexualidade e avançam rumo ao senso comum de competência intelectual.

Segundo Foucault (2005), “A afetividade, o amor, o desejo e a relação sexual intersubjetiva assumem, na sua visão, importância positiva quando manifesta a si mesma as relações afetivas com o outro”. Noll envolve suas personagens em uma teia de desejo e sentimentalismo onde um, quase sempre, é decorrente do outro. A forma terna como João descreve, em detalhes, as mais explícitas cenas de envolvimento sexual, cenas estas que seriam sumariamente rejeitadas em outra narrativa, prende o leitor de modo a fazê-lo esquecer (ou ignorar) o fator homossexual ali contido. O execrável se torna contemplável. O sujo torna-se o poético. O tabu faz-se totem.

A atmosfera ingênua, gerada pelo vilarejo de Bellagio, assim como a tranquilidade aparente do campus da Universidade da Califórnia, podem ser tomadas como elementos contribuintes para a visão terna que circunda cada palavra de cunho mais sexualmente agressivo.

Quando saiu a conhecer o vilarejo de Bellagio, não conseguiu ver o que esperava encontrar numa aldeia italiana típica de filmes como ‘Cinema Paradiso’, ‘O carteiro e o poeta’; não via como dali poderiam sair histórias autenticamente pessoais, dramas, humor, malícia, tédio (NOLL, 2003. p. 21).

Cinema Paradiso

Notável é a perfeição sugerida pela escolha dos cenários. Notável também a citação de dois clássicos do cinema italiano dotados, assim como o livro em análise, de uma falsa inocência, um falso desinteresse em tudo além do que fica claro à primeira vista: o “Cinema Paradiso” (Nuovo Cinema Paradiso,1988), escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore, mostra uma Itália pós-guerra sedenta   de algo que lhe afaste o cheiro de pólvora e sangue, onde a amizade entre menino e velho ilustram o poder transformador da arte sobre o destino do Jovem Toto. 

Il Postino(1994)

Já “O carteiro e oPoeta” (Il Postino/The Postman, 1994), dirigido por Michael Radford, narra uma fictícia história de amizade entre o poeta chileno Pablo Neruda, exilado na Itália nos anos 50, e um camponês analfabeto, o qual Neruda alfabetizará, teoricamente para que este conquiste o amor da bela Beatrice. Na verdade, ao “educar” o jovem camponês, Neruda insere no indivíduo o conhecimento de sua condição enquanto membro de uma comunidade, tornando-o um ativista entre os conterrâneos. Berkeley em Bellagio se enquadra nesse mesmo status de falsa displicência. Enquanto que, à primeira vista, é um romance sem maiores pretensões, na medida em que o leitor se aprofunda no enredo e no universo do João (o autor e a personagem), descobre artifícios utilizados para gerar um sem fim de possibilidades argumentativas.

Até mesmo a paranoia americana, vivida em sua máxima intensidade no período imediato à destruição de um certo ícone do capital, tem sua vez durante as caminhadas noturnas entre os campos de Bellagio ao som do cascalho sob os pés:

Continuei ouvindo o cascalho, alguém se aproximava e devia ser por trás. Custei um pouco a me virar. Estar entre americanos é jamais abordar quem quer que seja com um olhar inoportuno, como se todos estivessem vivendo às margens da paranoia e a todos se exigisse que não a provocassem o suficiente a ponto de se ultrapassar um limite além do qual já não se pode responsabilizar ninguém pelos seus atos. Tudo era medido quando não se estava bêbado, que todos se segurassem em seus casulos, não se aproximassem de ninguém além do que a Democracia Americana, a única, soberana, pudesse conter em seu código relativo aos “Direitos e deveres Dialógicos” Esse o patamar para além do qual a História se encolhia tanto a ponto de se cristalizar platônica, sem nada mais pra redimir, elaborar, viver. Era a torre do Novo Capital se erguendo, basta… (NOLL, 2003. p.40).

Enquanto se camufla nas vestes de um romance despretensioso que provoca apenas por provocar, Berkeley em Bellagio vai abrindo portas no subconsciente do leitor e lançando sobre si mesmo uma atmosfera que vai se tornando gradativamente mais densa. Sua narrativa acelerada, dada em períodos contínuos, sem divisão por capítulos tópicos ou tomos, contribui para uma absorção frenética da trama. Essa estrutura de escrita acelerada é uma das marcas pós-modernas escancaradas no estilo incisivo (para alguns, até um tanto agressivo) de João Gilberto Noll.

Reafirmando a capacidade de Noll de toteimificar o profano, o sujo, ele faz uso de uma normalização do incomum; o que para outros seria absurdo é exposto, é tratado, é humanizado e torna-se o centro de uma esfera narrativa incansavelmente provocante.

Ao ser pego abraçado a um colega no banheiro, abocanhando a carne de seus lábios, alisando seus cabelos ondulados, ele era o culpado – já o colega não, nem tanto; ele sim, apontado como o que desviara o desejo de outros jovens das “metas proliferantes da espécie”. Por que era ele o emissário de um mundo que os discursos dos padres condenavam ao silêncio sepulcral? Quem era ele afinal, por que se roía a ponto de o levarem para o Sanatório para ali se resolver impregnando-se de choques insulínicos, como se só na convulsão pudesse remediar um erro que ainda não tivera tempo de notar dentro de si? . (NOLL, 2003. p.22-23).

Se o homem é produto do meio, as personagens de Noll são produtos arquetipificados de sua visão de como deveria ser o meio. Elementos complexos e essencialmente humanos. Quase tangíveis em seus momentos de introspecção, suas reflexões sobre o mundo e sobre si mesmos. É em meio a essa complexidade que o autor concebe a suas personagens as ferramentas necessárias para fugirem ao senso comum, tornarem-se ícones enquanto representantes de uma minoria.

Poucos autores conseguem levar a patamares tão dignos assuntos tão polêmicos. No caso de Noll, a polêmica é também sua realidade, seu mundo, seu estilo de vida. Fato esse que o aproxima ainda mais de sua obra, que lhe concede ainda maior poder de desmitificar o tabu, fazendo da sua narrativa mais que um elemento de inserção cultural e sim, um mecanismo de obliteração da irracionalidade.

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