“A imprensa deve servir aos governados e não aos governantes” – a frase extraída da Primeira Emenda da Constituição norte-americana chama a atenção para o verdadeiro dever dos meios midiáticos, em informar os cidadãos com credibilidade e de forma totalmente isenta de interesses atrelados ao Estado. Mas sabemos o grande abismo existente entre teoria e prática no que tange a essa sentença, seja no passado, ou nos dias atuais.

Esse abismo configura-se ainda mais forte em décadas passadas, como nos anos 70, quando autoridades governamentais exerciam total influência sobre os veículos da mídia. Exemplo concreto está no acontecimento do dia 13 de junho de 1971, quando o conceituado jornal The New York Times publicou um estudo secreto com milhares de páginas chamado Papéis do Pentágono ou Papéis do Vietnã, que comprometeria para sempre a imagem do governo estadunidense.

O documento havia sido encomendado quatro anos antes pelo então secretário de Defesa Robert McNamara, que acobertou o insucesso da Guerra do Vietnã ao continuar enviando soldados para a luta – mesmo diante do número expressivo de mortos – simplesmente para não admitir o fracasso norte-americano, revelando a ocultação de informações pela Casa Branca. Imediatamente após a publicação, o jornal foi processado e abriu uma possibilidade ao concorrente The Washington Post – que também detinha diversas outras informações sigilosas – de dar continuidade às publicações.

Esse é o cerne de The Post: A Guerra Secreta, longa dirigido por Steven Spielberg e baseado em fatos reais. Na trama, a atriz Meryl Streep interpreta Katharine Graham, dona e diretora do jornal The Washington Post. Totalmente insegura de sua atuação profissional como empreendedora e mulher de negócios, Katharine possuía contatos estreitos com autoridades governamentais e bancários, dos quais dependia para investirem ações em seu jornal. Ela se vê num dilema quando o diretor de redação Ben Bradlee (Tom Hanks) possui em mãos milhares de outras páginas para publicar no The Post, após o processo do The New York Times.

Dois problemas: enquanto o The New York Times havia passado meses estudando os documentos para divulgá-los, Bradlee queria fazer o mesmo em questão de dias – enxergando a única chance de alavancar o jornal. O outro problema é que os arquivos haviam sido fornecidos pela mesma fonte do concorrente: o funcionário do Departamento de Defesa, Daniel Ellsberg, que defendia o fim da guerra, o que também acarretaria num processo contra o The Washington Post.

A cena em que Katherine necessita tomar uma decisão é um dos ápices do longa e levanta uma questão reflexiva: ela não titubeava em publicar simplesmente por medo de desagradar seus contatos políticos, mas pela forma como se sentia presa a eles e tinha suas capacidades subestimadas. Por outro lado, autorizar a publicação dos documentos representaria uma quebra na desconstrução imagética de sua personalidade, tida como fraca e despreparada. Então o que fazer? O espectador conferirá no filme.

Não há nem o que falar da atuação de Meryl Streep para o papel, atriz que lidera indicações ao Oscar, totalizando 20. Do começo ao fim da trama, ela está totalmente entregue ao personagem, nos convencendo de todas os dramas vividos pela dona do jornal, com uma forte presença cênica. Por meio somente da expressão facial, ela transmite os dilemas da personagem entre romper barreiras até então inquebráveis para o papel, o que determinará a culminância do filme.  A interação brilhante com o ator Tom Hanks, também incrível em seu papel, se configura numa sincronia tão perfeita, que ambos parecem já se conhecer há tempos. Hanks também convence com seu personagem extremamente determinado a se sujeitar ao que for preciso para publicar os documentos sigilosos.

Integrando a equipe de peso, não há como deixar de destacar o trabalho de direção de Spielberg, incluindo as variações intencionais e diferenciadas de planos de câmera para ressaltar o jogo de influências entre os personagens. Destacam-se as diferentes filmagens, envolvendo principalmente Katherine em planos mais fechados, conforme a situação se complicava, causando um incômodo proposital na plateia para imergi-la na cena; e posições de câmera alta e baixa, que se traduzem nas diversas posições em que a dona do The Post se encontrava – ora a mercê de uma situação, ora dona.

Portanto, roteiro, fotografia, cenários e elenco são aspectos de peso que permitem a excelência do longa, que concorre ao Oscar de Melhor Filme e Atriz (Meryl Streep).