O pesquisador em imagens, Prof. Dr. Jack Brandão, ressalta como o retorno do cigarro em filmes e seriados pode reacender a atração pelo produto

Ele foi considerado um verdadeiro astro de Hollywood, ocupando os telões do cinema e cativando, principalmente, as gerações mais jovens: o cigarro. Nos anos 20, ele já era considerado sinônimo de glamour, poder, sedução e rebeldia e assim permaneceu por décadas, fomentando também a indústria da publicidade. Todavia, a situação foi mudando conforme surgiam pesquisas científicas comprovando os malefícios do cigarro; e, na década de 90, a situação já era bem diferente com a presença de uma forte legislação, em todo o mundo, contra o tabaco.

Com isso, atenuou-se, consideravelmente, sua presença nas produções televisivas e cinematográficas, levando a uma considerável diminuição do número de fumantes pelo mundo, incluindo o Brasil. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, com base na pesquisa Vigitel, em 2019, o país teve uma queda de 40% de fumantes nos últimos 12 anos. No entanto, apesar disso, a mesma pesquisa revelou um dado curioso: um aumento do total de adeptos do cigarro em algumas faixas etárias, como entre os jovens de 18 a 24 anos, cujo percentual de fumantes cresceu de 7,4% em 2016 para 8,5% em 2018. “Pode parecer um crescimento pequeno, mas que já é considerável e pode se elevar ainda mais”, afirma o Prof. Dr. Jack Brandão, pesquisador e especialista em imagens há mais de 30 anos.

Para o professor, uma série de motivos podem estar relacionados a tal crescimento, no entanto ele chama a atenção para o retorno da presença do cigarro na indústria do entretenimento. Alguns exemplos são séries da Netflix como Sex Education, House of Cards, The Walking Dead, Mad Men, Stranger Things entre outras. Esta última chegou a causar preocupação numa organização estadunidense antitabagista, Truth Iniciative, por ser o programa com o maior número de cigarros em cena.

Mad Men, por exemplo, faz um resgate da Nova York da década de 60, momento em que o cigarro ainda estava no auge, e os grandes astros da sétima arte apareciam fumando nas telas, influenciando seus fãs, pois quanto maior o grau de popularidade das celebridades, maior o seu impacto imagético no público”, ressalta Brandão.

Assim, segundo o pesquisador, as pessoas tendem a adquirir hábitos daqueles que admiram, endeusam, idolatram. “Isso é ainda mais comum entre os adolescentes e jovens que estão em processo de amadurecimento e aceitação, sendo que o desejo de muitos é ter e manter a popularidade, algo primordial para muitos deles. Logo, eles passam a imitar aqueles que se tornam seus modelos referenciais e, ao fazê-los, não estão apenas copiando, mas construindo uma máscara baseada na imagem de quem é copiado, para que possam se desprender do seu verdadeiro ‘eu’ e se sentir como aqueles que são desejados por um grande público”, diz o pesquisador.

Ele também afirma que tais comportamentos nunca mudam e que, atualmente, com o bombardeamento imagético circulando em ritmo frenético nas mídias digitais, o poder de influência é ainda maior, devido à amplitude do seu alcance. “Se o boom do cigarro ocorrido no auge da sétima arte ocorresse hoje, é provável que o aumento do número de fumantes fosse muito maior do que naquela época, pois o público da indústria cinematográfica e televisiva era bem mais restrito em comparação ao das mídias digitais, hoje”, diz o professor.

De acordo com Brandão, tal cenário não se concretizou, pois, justamente na década de 90, período de popularização da internet, toda a concepção imagética de glamour e prazer associada ao cigarro havia sido descontruída pelas pesquisas científicas, inclusive com o banimento das propagandas nos mass media. Desde então, várias ações ocorreram num sentido contrário, como a inserção de imagens de advertência em embalagens de cigarro que entrou em vigor no Brasil em 2002. A partir de então, as embalagens passaram a ser ilustradas com fotografias reais e impactantes sobre os efeitos do cigarro no corpo humano.

Dez anos após tal medida, pesquisas indicaram uma redução de 25% para 15% no número de fumantes. “Todo o contexto favoreceu essa redução, já que se passou a focalizar os problemas do tabagismo e, quanto maior o impacto causado pela divulgação de tais problemas, mais pessoas passam a resistir ao cigarro”, afirma o professor.

Em julho de 2019, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado (CCJ) aprovou no dia 3 um projeto que proíbe qualquer propaganda de cigarros, incluindo a exposição do produto nos locais de venda. O projeto também veta a promoção do cigarro nos meios comunicacionais e o patrocínio de eventos pelas fabricantes. Hoje, a propaganda de cigarro é permitida desde que não incentive o consumo do produto.

Para o Dr. Brandão, tais medidas são importantes devido à atração imagética que seu status e prazer ainda podem, mesmo que só na aparência, proporcionar, independente dos diversos malefícios que pode causar. “Por mais que as imagens estampadas nas embalagens dos cigarros nos impactem, nós acabamos nos habituando a elas devido a sua exposição constante. Dessa forma, o retorno do cigarro em seriados, por exemplo, pode reacender a atração pelo tabaco, afinal, imagens que dão prazer são muito mais cativantes”, conclui.

Sobre o Prof. Dr. Jack Brandão

Doutor em Literatura pela Universidade de São Paulo (USP). Diretor do Centro de Estudos Imagéticos CONDES-FOTÓS Imago Lab, editor da Lumen et Virtus, Revista interdisciplinar de Cultura e Imagem, pesquisador sobre a questão imagética em diversos níveis, como nas artes pictográficas, escultóricas e fotográficas.

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