Dia 7 de março de 2014: apagão afeta a região de Campinas, deixando hospitais, universidades, delegacias e semáforos em estado crítico, devido à oscilação da energia. Segundo Furnas, empresa responsável pela geração elétrica, houve um desligamento acidental na subestação de Campinas. Dia 26 de fevereiro de 2014: aeroporto de Guarulhos fica 20 minutos sem energia – o suficiente para provocar um atraso dos voos, mesmo que não tenha sido mais do que meia hora – causado por curto-circuito em um cabo ligado a uma das subestações que alimenta o Terminal de Passageiros 3, em fase de testes, segundo informou a concessionária GRU.

Em ambos, a causa foi uma falha técnica. Porém, repetindo 2002, o Brasil vive uma conjuntura que poderá implicar em blecautes de grandes proporções que deixarão hospitais, escolas e delegacias de todo o país sem luz, não em virtude de pequenas falhas técnicas, como as citadas acima, mas à queda na geração de energia.

É sabido que nos últimos meses o país vem sofrendo um intenso calor alimentado por uma seca incomum para o período – que vem, inclusive, castigando as lavouras. Essa grande estiagem é prejudicial tanto para a produção agrícola quanto para a produção energética, já que o abastecimento d’água nos reservatórios das hidrelétricas – que respondem por 80% da geração de energia – estão muito aquém da capacidade ideal. Ademais, tal diminuição pode acarretar o racionamento de água, especialmente na região Sudeste, como é o caso do Sistema Cantareira – conjunto de seis represas responsáveis pelo abastecimento de oito municípios paulistas e quatro mineiros – cujo nível de água chegou ao mais baixo da história: 15,7%, em 11 de março de 2014.

A falta de investimentos urgentes por parte do governo e de campanhas educativas sobre o uso consciente da água, agravada pelo calor histórico no Brasil – chegando a registrar sensação térmica de 50oC ou mais em alguns estados, levou o povo a abusar do tempo gasto no banho e ao grande uso do ar-condicionado e/ou ventilador, provocando um gasto de energia muito maior do que o habitual – poderá deixar milhões de brasileiros sem água e também no escuro, em razão da deficiência das hidrelétricas.

Como em 2002, buscando suprir essa demanda, o governo vem recorrendo ao uso de das usinas termelétricas – responsáveis pela geração de eletricidade por meio de qualquer produto que gere calor, como óleo, gás ou carvão. O problema é que, comparadas às hidrelétricas, as termelétricas exigem um custo muito maior e são altamente poluidoras do meio ambiente. No momento o Brasil importa gás a 20 dólares o milhão de BTUs (unidade de medida) para mover as usinas movidas a gás, o que acarretará num reajuste de preços na conta de luz, afetando o bolso do consumidor final.

Em meio a todo este cenário alarmante, os governos atribuem toda a culpa da situação exclusivamente à natureza: no começo de fevereiro o Ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, declarou haver “risco zero” de faltar luz. Dias depois, o governo federal alega que o Brasil poderia enfrentar dificuldades no abastecimento de energia devido ao nível de chuvas estar abaixo da média história.

Ou seja, se está chovendo pouco o ideal é apelar para que nossos amigos indígenas façam a dança da chuva e assim resolvamos o problema de abastecimento de água e energia do Brasil, correto? NEGATIVO. Parece que, para os governos, tanto federal quanto estadual, que nem mesmo gosta de citar a palavra “racionamento” (principalmente em ano de eleição), faltou abordar um importante componente que eliminaria qualquer apelo à dança da chuva: Investimento.

No caso da geração de energia, por exemplo, a falta de planejamento do governo federal para o investimento na construção de mais reservatórios é parte de uma série de fatores que não deixariam o país apenas à mercê da natureza. Falando em natureza, urge criar condições para a instalação de parques eólicos e placas de captação de energia solar em larga escala, barateando sua produção e aproveitando essa grande oferta desses recursos naturais e de baixo impacto ambiental. Investimentos em fontes alternativas de energia como a da Biomassa, produzida pela queima do bagaço da cana-de-açúcar, seria uma solução emergencial, já que, além de consumir recursos do solo, poderia implicar em alta de produtos derivados da cana.

No que se refere à transmissão, o blecaute de 2002 não serviu de lição: amarrado aos contratos de concessão do governo FHC, que previam investimentos por parte das concessionárias na ampliação do sistema em troca da alta tarifa admitida nas privatizações do sistema, faltou ao governo fiscalizar e cobrar a execução. Investimentos na manutenção das linhas de transmissão, em treinamento de funcionários e na ampliação do sistema elétrico se fazem urgentes. Em fevereiro deste ano um apagão, que deixou a população da Grande Vitória e do norte do Espírito Santo sem luz, aconteceu em decorrência de uma falha na subestação que poderá se repetir mais e mais com a ausência de manutenção nas usinas.

O atraso nas obras é outro problema: apenas em 2012, por exemplo, vinte e duas das 27 hidrelétricas em construção estavam atrasadas, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A principal razão era a falta de licenças ambientais. Por isso, atender às exigências legais e acelerar as obras torna-se essencial ou, caso contrário, ficaremos à apenas a mercê da chuva.

Concluindo, se diversas medidas já tivessem sido adotadas, incluindo antes de tudo um planejamento rigoroso e eficaz, não estaríamos correndo riscos de apagões e racionamento de água. Agora, o mais importante a fazer é o incentivo populacional à economia de água e energia, afinal não vamos querer ter um espetáculo de abertura da Copa do Mundo realizado à luz de velas não é mesmo?  E, pior ainda: hospitais, escolas e outros estabelecimentos no escuro.


Por Mariana da Cruz Mascarenhas