Foto Priscila Prade

Publicado em 23 de julho de 2016

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

No que poderia resultar um encontro inusitado entre ninguém mais ninguém menos do que o pai da Psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), e o mestre da Arte Surrealista, Salvador Dalí (1904-1989)? Pois é possível acompanhar esse momento único, ou melhor, a reprodução do que teria sido esse encontro na peça Histeria, em cartaz no Teatro TUCA, no bairro de Perdizes, em São Paulo.

Escrita pelo dramaturgo inglês Terry Johnson, em 1993, o espetáculo obteve sucesso imediato após sua estreia, o que o levou a ser montado em diferentes locais do mundo, chegando também ao Brasil. A versão brasileira se deu por conta do apresentador de TV Jô Soares quem, ao ver a peça pela primeira vez em 2004 – com direção de John Malkovich – em Paris, providenciou a compra dos direitos, traduziu o texto e agora coloca a peça em palco brasileiro, sob sua direção.

Em formato de comédia, Histeria faz uma abordagem fictícia de um encontro que realmente pode ter acontecido entre Dalí (Cassio Scapin) e Freud (Pedro Paulo Rangel) na cidade de Londres de 1938, em cima de um fato real: enfrentando um câncer em fase terminal, o psicanalista austríaco, de família judaica, se muda para a capital inglesa por medo da perseguição nazista aos judeus.

A comédia se inicia com o encontro de Freud com uma moça desequilibrada, que aparece em seu consultório em plena madrugada implorando para ser atendida por ele. O que indica ser uma mera sessão entre o psicanalista e a mulher, que de normal parece não ter nada, acaba se desdobrando em uma série de outras revelações, incluindo o verdadeiro propósito daquela moça estar ali e o que ela realmente busca.

A situação torna-se ainda mais complexa com a chegada do pintor espanhol, Salvador Dalí, ao consultório de Freud. Porém, o que deveria tratar-se de um encontro entre ambos acaba virando uma sessão tripla entre o pintor, o psicanalista e a moça desequilibrada (Erica Montaneiro), que deseja desvendar a qualquer custo segredos ligados a ela e sua família.

A partir de então diálogos mais reflexivos e densos enriquecem a conversa dos três personagens, induzindo os espectadores a viajarem para além da cena e estabelecer interpretações e analogias que os levam a transitar pelo mundo do inconsciente – principal objeto de estudo de Freud – e do surrealismo de Dalí. Duas áreas, inclusive, que podem ter muito mais aspectos em comum do que imaginamos.

Todas as confusões são acompanhadas pelo médico de Freud (Milton Levy) que tenta entender o motivo de tamanha agitação de seu paciente – este parece enlouquecer com Dalí e a mulher – preocupando-se com ele.

A inteligência e, ao mesmo tempo, o humor bem construído nos diálogos são dois elementos fortemente atraentes para os espectadores, sem contar as atuações de cada ator. Todos estão bem à vontade em seus papéis. Destaca-se Scapin, cujo trabalho corporal é suficiente para que a plateia não consiga conter o riso em razão dos trejeitos engraçadíssimos do seu personagem Dalí.

A atuação de Rangel, totalmente centrado em seu personagem, nos leva a esquecermos que estamos diante de um ator, focando no psicanalista que parece se materializar em pleno palco. A atriz Erica também desenvolve um excelente trabalho de corpo, acentuando claramente os transtornos que acometem sua personagem e vão se revelando aos poucos.

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