Desapego! Quantas vezes nós já ouvimos essa palavra em nossas vidas e sobre o bem que a sua prática pode nos fazer? Desapego às coisas materiais, ao egoísmo, aos atos violentos, enfim, a tudo aquilo que pode nos envolver em um grande e perigoso círculo vicioso, o qual nos faz enxergar apenas a nós mesmos, como seres dispostos a fazer de tudo para chegar ao topo – seja do sucesso, da riqueza, etc – sem se importar com os demais.
 
É preciso se desapegar de tudo que nos faz mal! Dizer essa frase é fácil, mas difícil mesmo é cumpri-la em sua totalidade. Afinal, infelizmente, o mundo está repleto de seres humanos que se afundam em vícios dos mais prejudiciais possíveis e se recusam a sair deles. Estas e muitas outras questões reflexivas que mexem com nosso emocional são levantadas no monólogo dramático Gandhi, Um Líder Servidor, em cartaz no Teatro Ruth Escobar.
 
Com direção de Paulo Moretti, texto de Miguel Filiage e Bene Catanante, a peça se passa num pequeno teatro de arena, onde o ator João Signorelli interpreta Mohandas Karamchand Ghandi (1869 – 1948), líder espiritual e pacifista indiano que influenciou e continua influenciando gerações do mundo todo com seus ideais em prol de um mundo mais pacífico e fraterno. 

Nascido na cidade indiana de Bombaim, Gandhi – que recebeu o título de “Mahatma”, que significa “grande alma” em sânscrito – passou a infância e a adolescência na Índia, onde foi educado, e, ao tornar-se adulto, foi estudar Direito em Londres. Em 1914, após ter atuado como advogado em defesa da minoria hindu, na África do Sul, ele retorna à Índia iniciando uma campanha de paz entre hindus e muçulmanos, que sempre estavam em conflito. Ele também se posicionou contra a dominação britânica sobre a Índia, jamais apelando para a violência, mas por meio de ideias brilhantes que são contadas no monólogo.

Este grande líder espiritual se destacou muito por pregar sempre formas pacíficas de manifestação por meio de greves, passeatas, jejuns e retiros espirituais – ele mesmo costumava jejuar com frequência para se purificar. Gandhi persuadiu povos e políticos a aceitarem seus ideais de não violência, sendo uma das principais figuras na independência da Índia. Ele conseguiu perpetrar a paz entre muçulmanos e hindus, mas acabou sendo assassinado, em 1948, justo por um extremista hindu.

Durante os 50 minutos de duração de Gandhi, Um Líder Servidor, o público faz uma verdadeira terapia espiritual com as belas palavras que eram pregadas pelo líder indiano, proclamadas pelo ator Signorelli. A peça transcende a época em que Gandhi viveu, narrando algumas de suas passagens, e alcança a época atual na qual o ser humano sofre com a falta de água, os conflitos no Oriente Médio e muitas outras questões que mostram que, mesmo com o passar dos anos, as pessoas ainda têm muito o que aprender sobre o verdadeiro significado da vida.

 
Não há palavras que descrevam o brilhantismo de Signorelli em sua atuação, resgatando com profundidade este grande influenciador indiano tanto na aparência física como na entonação das palavras. O ator incorpora o personagem, demonstra sentir dentro de si cada mensagem dita por ele, de modo que ela não é apenas proclamada da boca para fora, mas sim de seu coração para tocar o coração de quem o assiste. E ele consegue muito bem fazer isso.
 
Há momentos inclusive nos quais é difícil segurar as lágrimas, dada a emoção verdadeira contida em muitos de seus diálogos, que também lembram a vida deste homem indiano, que alcançou a plenitude por ter encontrado a sua paz interior sem precisar de qualquer riqueza material para viver e assim encontrar a verdadeira felicidade, que se mostra duradoura e nunca se acaba. Felicidade esta que se reflete em seu rosto sorridente e sereno, o qual, ao ser interpretado por Signorelli, também consegue transmitir uma calmaria e um bem-estar a todos que acompanham o monólogo. O tempo passa sem percebermos.

Trata-se um espetáculo com cenário simples cujo foco está no poder das palavras que ganham vida na boca do ator e que nos fazem refletir como o ser humano muitas vezes busca a verdadeira felicidade pelo mundo todo e não a encontra, pois esquece de procurá-la num lugar essencial: dentro de si mesmo.
“Só o amor cura, nutre, une, entusiasma, faz nascer, alivia, materializa, motiva… possibilita a vida!” Mahatma Gandhi
 
Por Mariana da Cruz Mascarenhas