“Quem não se comunica se trumbica” — disse o “Velho Guerreiro”, num momento em que o País precisava se dar conta de que a comunicação não era apenas o ato de falar, mas uma necessidade. Julgo ser a frase que melhor resume a importância que a comunicação possui na vida das pessoas.

“Se trumbica” quem não consegue comunicar corretamente e não permite o desenvolvimento da mensagem limpa e clara.

Uma falha na comunicação pode resultar em diversos problemas: a quem emite a mensagem, ao receptor e o desenrolar que acarretará, seja no trabalho, colégio, organizações ou qualquer meio social.

Leve em consideração que, quando mencionamos comunicação, ela é verbal ou não verbal. Uma troca constante de entendimento, pressupõem-se.

"A comunicação ocorre quando, ao emitirmos uma mensagem, nos fazemos compreender por uma pessoa e alteramos seu comportamento."
— Cereja e Magalhães 2002

Mas o que tudo isso tem a ver com Design? Ora, Design também é uma forma de comunicar algo, um meio de passar mensagem, causar reações, comoções, fazer compreender.

Mas será que estamos projetando mensagens da forma correta?

Desde que comecei a trabalhar como Designer em uma empresa voltada para E-learning — modalidade de ensino à distância (online) — a comunicação internacionalizada passou a fazer muito sentido. Esse sempre foi um tema abstruso a ser discutido, mas, comunicar para diferentes culturas e países, tornou isso ainda mais profundo em minha mente.

Preciso abrir um parêntese aqui para explicar o que faço. Recebo traduções em diversas línguas para aplicar em cursos. Eles podem ser feitos em flash ou em formatos parecidos com websites. Podem ser desenvolvidos com HTML5, CSS3 e adaptados (ou não) para diversos dispositivos. Independente da forma em que são desenvolvidos, todos utilizam SCORM — padrões e especificações para e-learning baseado na web. A diferença, é que os formatos de tela são muito particulares. Assim como interações são feitas para imergir o usuário no conteúdo proposto. Pego o pacote original desses cursos e aplico traduções.

Pois bem, em determinadas línguas, o design, interações, navegação e estrutura se tornam ainda mais complexas. Explico. Em línguas, como por exemplo, a árabe, hebraico e aramaico, a escrita é da direita para a esquerda. Nesse caso, vamos falar do árabe.

Em um curso específico, senti certa dificuldade na tradução. A família tipográfica não possuía suporte para a língua. É preciso pensar que, quando vamos internacionalizar algo, tudo precisa ser projetado pensando na língua e cultura dos países (ou regiões) que vão receber a interface, website ou quaisquer projetos em que é preciso informar. Nesse caso, trocamos a família tipográfica, verificando é claro, o suporte ao árabe.

A navegação também foi alterada. Textos, listas e botões tiveram a navegação orientada para partir da direita. Se estamos falando em imersão, nada mais justo que aproximar a experiência do aluno. Todo o peso cultural é levado em consideração. Porque para comunicar, é preciso certa sensibilidade.

Não estamos mais falando no ato de copiar e colar, mas, de pensar empaticamente. Nossa vivência pessoal, as informações que recebemos do meio social em que vivemos, cultura e língua falada fazem parte da experiência de navegação, leitura e compreensão. Projetar um botão não é mais um amontoado de códigos mas uma forma de fazer com que a comunicação tenha sentido.

Se existe essa preocupação regional em projetos impressos, porque seria diferente para web? Toda essa história é para ajudar você e eu a compreendermos que é preciso projetar com proximidade. Não é mais tempo de design vazio, de copiar padrões de cinquenta anos atrás, mas de pensar que usabilidade está para comunicação assim como a internet está para web. Esse conceito precisa ser maximizado. Pode parecer muito simples pensar que basta algumas linhas de código para mudar o formato de leitura de uma página da web, mas, será que é tão simples assim? Será que os falantes da língua semita central estão compreendo as coisas da forma que estamos projetando?

Existe uma eterna discussão sobre melhores formas de tornar a experiência clara, simples e objetiva, mas, estamos esquecendo de olhar ao nosso redor. Estamos presos demais aos computadores e distantes demais da rotina da matéria prima — o ser humano. É preciso desligar-se e observar que o conteúdo do curso de recuperação é o cérebro e ele se comunica o tempo todo. Estamos realmente prezando a excelência na comunicação e linguagem?

Referências e Créditos
Imagem: O ‘Cassino do Chacrinha’, em foto de 1988 (VEJA)
Revisão: Jota Fagner


CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Literatura Brasileira – Reformulado. 2 ed. São Paulo: Atual, 2002.
PAIXÃO, Denise Monte Mór. Núcleo Integrador da Universidade Castelo Branco. Leitura e Estratégia de Interpretação de Textos.

  • Eu demorei muito para aprender a importância do design para a comunicação. Acho que só me dei conta de verdade durante as aulas de jornalismo gráfico visual, ministradas pelo saudoso professor Cláudio Lemos. De lá para cá tenho tentado volta mais a minha atenção para isso. Nem sempre é possível cuidar de um bom texto, boas imagens e bons gráficos ao mesmo tempo, mas, ao menos é bom ter noção do que funciona e do que não funciona. Parabéns pelo artigo. Muito bom.

    • É isso mesmo, meu amigo. Parabéns por essa sensibilidade de perceber o quanto o Design é importante na vida das pessoas. Beijos. 😉

  • Ótimo texto, senhorita Isabella.
    Acredito ser importante inserir a comunicação como ferramenta essencial para o bem da profissão, não só do indivíduo. Quando um designer entrega ou apresenta um trabalho e, ao ser questionado, responde como um mero “achar melhor”, dá a brecha pro chefe achar também. Entre o achar do chefe ou do presidente e o do designer, claro que o designer perde. Aí não adianta ficar de mimimi que o cliente não aceita as coisas que são propostas ou que o chefe não confia nem nada do gênero. Aí esse cara um dia vira chefe, cria os discípulos nessa toada de achar. Pronto, lascou. Quem se trumbica, olhando o geral, é a profissão como um todo.
    Prossiga com os textos, para não! 😉
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