Home Fagner Resenha Júlia – Aventuras de Uma Criminóloga, a trilogia inicial (Volumes 1, 2 e 3)

Júlia – Aventuras de Uma Criminóloga, a trilogia inicial (Volumes 1, 2 e 3)

Júlia – Aventuras de Uma Criminóloga, a trilogia inicial (Volumes 1, 2 e 3)
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“Vocês querem saber Quem. Eu quero saber O Porquê!”

Essa é uma publicação regular da editora Mythos que, desde 2019, traz aos leitores brasileiros as histórias da personagem italiana, agora em formato Italiano. A editora também publica Júlia em formatinho e papel jornal desde 2004.

A história começa apresentando a personagem Júlia como uma professora universitária de criminologia. Dedicada, competente e atenciosa com os alunos. Mostra também que ela é uma mulher um tanto quanto angustiada, mas não deixa claro com o que, entregando uma personagem com aura de mistério.

Logo após a apresentação da protagonista, ocorrem três crimes com aparente ligação entre si. Três mulheres são assassinadas com o mesmo instrumento: uma espécie de estilete. Então, o departamento de polícia convoca Júlia para ajudá-los na investigação e, após algumas formalidades, ela aceita. De imediato a criminóloga começa a traçar o perfil psicológico baseado em todas as informações e pistas recolhidas pela polícia. Num clima de Sherlock Holmes italiana e fundamentada pela ciência, Júlia chega à seguinte conclusão:

“Pela estatística, com margem de erro de 23%, podemos presumir que é branco, que matou pela primeira vez lá pelos 27 anos, inteligente, primogênito e de classe média…

Teve irmãos, quando criança foi maltratado por familiares, e desenvolveu o binômio sexo-violência, que deu vida a seus fantasmas.

É organizado, cuidadoso na higiene pessoal, e no trabalho, que é difícil de manter pelo preciosismo e relacionamento difícil com as pessoas.

Muito calmo para ter problemas de droga ou álcool, vive só ou com um parente que mal suporta! Seu sadismo sexual é uma substituição que revela uma agressão controlada e forte misoginia!”

A mulher é boa! Muito boa! Entretanto, apesar dos seus esforços, o criminoso consegue fugir nos momentos finais do primeiro volume.

A continuação da história vem no volume dois e, apesar de toda a polícia estar à sua procura, o criminoso volta a matar. Com a ajuda das deduções lógicas da Júlia, o departamento de polícia descobre que o assassino planeja matar uma pessoa específica de seu passado, e parte para tentar salvá-la. Apesar de todos os esforços conjuntos para prendê-lo, o criminoso consegue fugir mais uma vez.

O volume três começa com o criminoso disfarçado, com nova identidade e tentando se restabelecer enquanto não surge o melhor momento para se vingar de Júlia, que está sendo constantemente vigiada pela polícia. A protagonista, apesar de todas os últimos acontecimentos, vive um bom momento na sua vida particular. Ela começa a se reconciliar com sua irmã, e a reconstruir a sua base familiar. A história se desenvolve com a criminosa perseguindo nossa heroína, e termina com uma corrida contra o tempo.

A história fecha muito bem a trilogia que teve início na edição de estreia. O roteiro do Giancarlo Bernardi evolui muito nas três edições. É possível perceber com alguma facilidade o caráter experimental do primeiro volume, que funciona como apresentação da Júlia e de todos os personagens secundários. A partir do volume seguinte, com mais espaço e tranqüilidade para trabalhar, o roteiro se desenvolve muito bem, com a narrativa fluída e ágil.

Um dos pontos positivos dessas três histórias, é o quanto que o autor explora da personagem. Ele consegue mostrar diversas facetas da Júlia: A professora atenciosa, a investigadora séria e com personalidade forte, a irmã mais velha preocupada com a caçula, a neta amorosa que quer a avó sempre do seu lado, a mulher que gosta de se divertir cantando. Enfim, mostra que a Julia é uma pessoa normal.

Da mesma forma que explora a personagem principal, o autor utiliza métodos da psicologia e penetra na mente do criminoso para dar uma explicação do porquê ele comete crimes. Cada traço da personalidade deles são investigados e explorados para explicar suas motivações e visão de mundo. Não me recordo de ver tamanho cuidado nos quadrinhos ao retratar um criminoso não com um olhar estigmatizado, mas como uma pessoa que passou por várias situações complexas, e que seus atos são frutos de traumas passados.

Os desenhos variam muito, visto que em cada edição um novo desenhista assume o lápis e o nanquim. Entretanto, a arte segue o padrão Bonelli, mas sempre com clima noir, o que deixa a história com a clima típico dos bons filmes de detetive.

Gostei muito do que li nos três primeiros volumes. Eu já tinha lido alguns volumes de Júlia havia muito tempo ainda em formatinho, e lembrava apenas que tinha achado muito bom. Quando vi que a Mythos iria republicar tudo do zero e no formato original italiano, não pensei duas vezes em começar a ler, e não me arrependi.

O roteiro é muito bem feito, sendo o ponto alto desta obra. Ele é trabalhado de forma muito inteligente, sendo que Giancarlo Berardi demonstra ter estudado e pesquisado a fundo métodos de investigação policial e teóricos da psicologia que tratam de mentes criminosas. Toda a metodologia que a personagem utiliza para montar o perfil psicológico do criminoso, e entender a motivação dos crimes, é baseada puramente na ciência. E isso é muito bom em tempos de negação à metodologia científica e ao conhecimento científico.

Para quem gosta de histórias inteligentes, ou de investigação policial com clima de detetive, é um prato cheio. Recomendo fortemente.

Os volumes contam com capa cartonada, papel off-set e 132 páginas, com preço de capa de R$ 28,90, mas dá para achar sempre com bons descontos. Vale muito a pena

Por Maxson Vieira

Maxson Vieira Formado em Física, Mestre e Doutor em Engenharia Espacial / Ciência dos Materiais. Fã de J. R. R. Tolkien, José Saramago, Sebastião Salgado e Ansel Adams. Passou a infância e adolescência dividido entre Astronomia, quadrinhos, livros e D&D. Atualmente é professor do IFBA.

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