É possível transitar entre a realidade e a ficção simultaneamente? E quanto a considerar dois conceitos completamente contraditórios como complementares, percebendo que nem toda contradição é o que parece ser? Ficou confuso(a)? Estranho seria se não ficasse. É justamente essa inquietação mental que o romancista e jornalista inglês George Orwell (1903 – 1950) nos trouxe em 1949, a partir de sua obra chamada 1984. Quem ainda não a conhece ou deseja rememorá-la, terá a oportunidade de fazê-lo ao assistir à peça no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, em cartaz apenas até o dia 8 de julho de 2018.

Adaptação da obra de Orwell para o palco brasileiro, a partir da montagem dos diretores britânicos Duncan MacMillan e Robert Icke, 1984 aborda a vigilância constante e controladora imposta pelo Estado a uma sociedade influenciável e vulnerável, onde quem se rebela é eliminado de alguma forma. A adaptação brasileira é do Núcleo Experimental, com direção de Zé Henrique de Paula.

O espetáculo acontece num ambiente marcado pela distopia, onde o poder opressor e totalitário do Estado, comandado pelo chamado Grande Irmão, impede qualquer pensamento rebelde e contraditório ao seu partido. Num lugar fictício em que as telas minimizam a capacidade pensante, fazendo reinar a alienação e a predominância da Nova Fala – quanto menor o vocabulário melhor –, aqueles que lutam por liberdade de expressão são “calados” pela Policia das Ideias e transformados em “monstros” perante os demais.

Dentre os rebelados, está Winston Smith (Rodrigo Caetano), um funcionário do Ministério da Verdade extremamente inconformado com a arbitrariedade, manipulação e imposição estatal aos demais. Com tantas indignações, ele desafia o Grande Irmão – que observa a todos durante todo o tempo – ao apaixonar-se pela Camarada Julia (Gabriela Fontana), do Departamento de Ficção, encontrando-se com ela às escondidas; além de escrever num diário suas ideias contestadoras sobre o partido.

Uma conjuntura de elementos cenográficos contribui intensamente para nos levar ao mundo do protagonista e vivenciar suas sensações de inquietação, ruptura, medo e angústia. Durante todo o espetáculo, uma série de projeções, luzes e sons surgem inesperadamente para acompanhar as surpresas da trama e nos inquietar ainda mais. O rico diálogo cênico – que a princípio pode parecer confuso para alguns, mas logo se torna familiar ao nos revelar o ambiente de opressão e alienação ao qual os personagens estão submetidos – e a fenomenal interpretação de Rodrigo Caetano são fundamentais para a vivacidade do espetáculo.

Ao longo da peça, Smith vai sofrendo uma profunda transformação marcada pelo aumento da indignação com o partido, a paixão por Julia, a tortura que lhe é imposta por O’Brien (muito bem interpretado por Carmo Della Vechia, cujo personagem joga friamente com Smith), um dos líderes do partido, até atingir o ápice final. A intensidade de emoções vividas pelo personagem à medida que a peça se desenrola para o desfecho contribui para gerar ainda mais apreensão na plateia. Embora a obra de Orwell tenha sido escrita apenas em 1949, é impressionante a atemporalidade da crítica que ela nos propõe.

Em tempos de fake news, pós-verdade, manipulações e controle do que fazemos, especialmente via internet, não há como deixar de associar os elementos da peça com a contemporaneidade, mesmo que tal associação não seja explícita:

“A essência do duplipensamento é a capacidade de aceitar dois conceitos completamente contraditórios e acreditar que ambos são integralmente verdadeiros. Pois bem, atração e repulsa é o que eu sinto quando leio 1984, a magistral obra de George Orwell a respeito do controle do Estado (totalitário) sobre a vida do cidadão comum, sobre a (des)politização que forma massas de manobra com a população, sobre a (auto)vigilância contínua que produz paranoia ininterrupta, sobre a onipresença das (tele)telas na vida das pessoas, entre tantos outros temas que parecem saltar de 1949 diretamente para os dias de hoje”, destaca Zé Henrique de Paula.

Uma obra que certamente mexe com o imaginário ao trazer diversos questionamentos, sem que haja uma única e verdadeira resposta para eles, ressaltando o tempo todo o perigo ao qual estamos submetidos, como as letras que surgem no palco: “O Grande Irmão está te observando” / “Guerra é Paz” / “Liberdade é Escravidão” / “Ignorância é Poder”.

Serviço:

Peça 1984

Onde: Teatro Anchieta (Sesc Consolação): Rua Dr. Vila Nova, 245, São Paulo – SP

Quando: Sexta e sábado, às 21h e domingo às 18h

Quanto: R$40,00 (inteira), R$ 20,00 (Meia: estudante, servidor da escola pública, +60 anos, aposentados e pessoas com deficiência) e R$12,00 (Credencial Plena: trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo

Até 8/07/18