Publicado em 24 de maio de 2015 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

“Terezinhaaaa!”, “Vocês querem bacalhau?”, “Quem não se comunica, se trumbica”: mesmo que você tenha nascido após o ano de 1990, é praticamente impossível ler as frases acima mencionadas e não se lembrar dele, o famoso José Abelardo Barbosa de Medeiros (1917 – 1988), mais conhecido como Chacrinha, considerado um dos maiores comunicadores da rádio e da TV brasileira.

Apesar de ter falecido em 1988, o legado que ele deixou para os meios de comunicação brasileira continua vivo e repercutindo entre as diversas gerações atuais. Nascido em 1917 na cidade de Surubim, em Pernambuco, Abelardo começou a cursar faculdade de Medicina em 1936, no Recife. Mas foi algum tempo depois que ele descobriu a sua verdadeira vocação para o mundo artístico.

Tudo começou num simples estúdio de rádio localizado numa pequena chácara em Niterói – uma “chacrinha, assim chamada por Abelardo, daí veio o seu apelido –, a Rádio Clube de Niterói. Lá ele já demonstrava seu estilo irreverente e único de se comunicar, participando do programa de cuecas e com um lenço na cabeça.

Mas logo o seu trabalho alcançaria grande repercussão e não demorou muito para que ele despontasse na televisão, onde ficou amplamente conhecido pelos seus programas de calouros – A Discoteca do Chacrinha, a Buzina do Chacrinha e o Cassino do Chacrinha – e a divulgação de grandes sucessos musicais brasileiros. Abelardo passou pela TVs Tupi, Rio, Bandeirantes e Globo.

Apesar de não ter feito teatro, ele se tornou único, graças ao seu estilo totalmente estereotipado, teatral e escrachado de ser, o que daria um excelente personagem para o mundo das artes cênicas. Por isso mesmo o teatro não poderia deixar de homenageá-lo, trazendo agora para o palco do Teatro Alfa, após já ter passado pelo Rio de Janeiro, o espetáculo Chacrinha, O Musical.

Dirigido por Andrucha Waddington e escrito por Pedro Bial e Rodrigo Nogueira, o musical conta a trajetória biográfica de Chacrinha desde sua infância, passando pelo começo da carreira artística na rádio (papel interpretado pelo ator Leo Bahia), até chegar ao seu auge na TV (papel representado pelo ator Stepan Nercessian). No palco, fantasia e realidade se misturam, trazendo cenas biográficas sobre a vida do comunicador e, ao mesmo tempo, uma viagem pela sua mente, que parecia viver uma crise de identidade na qual ele não sabia mais se era o Abelardo ou o Chacrinha, que ele mesmo criou.

É de arrepiar a incorporação do personagem Chacrinha pelo ator Nercessian, seja pelo figurino, seja pela voz e, principalmente, pelos trejeitos cômicos e inigualáveis, típicos de Abelardo, que são representados com maestria e perfeição pelo ator. A impressão causada é que o Chacrinha “ressuscitou” e foi para os palcos apresentar seu programa, pois se chega até a esquecer que é o ator Stepan Nercessian que está conduzindo o personagem.

Mas a atuação de Leo Bahia – que faz o Abelardo jovem – não fica nem um pouco atrás e também se mostra excepcional em cena graças ao seu ótimo trabalho corporal, vocal e interpretativo – em alguns momentos os dois dividem o palco e chega a ser difícil dividir também a atenção a eles, já que ambos estão impecáveis.

Completam o elenco 22 atores-cantores-bailarinos que incorporam durante vários momentos do espetáculo os grandes nomes da música nacional brasileira que marcaram presença nos programas do Chacrinha, como Sidney Magal, Ney Matogrosso, Titãs, Wando, Raul Seixas, Rosana, Fábio Júnior e o rei Roberto Carlos. A trilha sonora da peça reúne mais de 60 sucessos de toda esta “nata” da música brasileira e de muitos outros artistas, tornando difícil para a plateia permanecer-se quieta na cadeira, quando embalada por tantos sucessos que marcaram época.

A riqueza de detalhes dos cenários conduz literalmente o público para os programas do Chacrinha, tornando os espectadores parte do seu auditório – inclusive alguns deles são convidados, durante o intervalo da peça, a integrar a plateia interativa dos programas de Abelardo, assistindo ao restante do espetáculo numa plateia que faz parte do cenário da peça.

There are currently no comments.