Foto de Ronaldo Gutierrez

Publicado em 28 de fevereiro de 2016 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

Já imaginou se você tivesse que pagar uma determinada quantia em dinheiro cada vez que fosse urinar? Isso certamente lhe soa totalmente surreal e absurdo não é mesmo? Mas é exatamente o que acontece numa sociedade onde a água se tornou praticamente escassa, após uma seca de vinte anos, fazendo com que banheiros particulares simplesmente deixassem de existir.

Mas calma, esse lugar não existe na vida real – ao menos por enquanto – e sim no mundo cênico, especificamente em Urinal, o Musical: comédia musical da Broadway, escrita pelos americanos Greg Kotis e Mark Hollman. Após ganhar versão brasileira que estreou em São Paulo no ano passado (2015), com direção de Zé Henrique de Paula, repetindo o sucesso da montagem original e com 21 indicações a prêmios – entre eles os prêmios Shell e APCA –, o espetáculo volta em cartaz para uma curta temporada no Teatro Porto Seguro, até o dia 21 de abril.

Na peça, 16 atores e 5 músicos apresentam ao público uma verdadeira distopia sobre até que ponto a humanidade pode chegar, cegada pelo poder e pela ganância exploradora dos mais fracos e submissos. Quando os banheiros privados deixam de existir, obrigando a população a utilizar os sanitários públicos, estes passam a ser controlados pela megacorporação Companhia da Boa Urina (CBU), a qual impõe uma taxa financeira a todos que desejarem utilizar os banheiros, como forma de controlar o consumo da pouquíssima quantidade de água ainda existente.

Quem se recusa a pagar as taxas ou ainda faz xixi em locais públicos, que não sejam os banheiros, é enviado para a misteriosa colônia penal chamada Urinal, muito falada por todos já que quem vai para lá não retorna mais. A situação só tende a piorar principalmente para a população mais pobre quando o dono da CBU, conhecido como Patrãozinho (Roney Facchini), decide aumentar as taxas e, para isso, conta com uma certa “ajuda” do senador (Gerson Steves) para que o aumento seja aprovado, subornando o político com o dinheiro do lucro das taxas.

Tudo isto acaba revoltando a população que decide causar uma verdadeira revolução, motivada pelo jovem Bonitão (Caio Salay), após ouvir da garota Luz (Bruna Guerin), filha do patrãozinho e por quem ele se apaixona, a seguir sempre seu coração. O cenário e o figurino por si só já descrevem detalhadamente para os espectadores um ambiente horrendo, em razão da seca de 20 anos que se abateu sobre a região, sugando as cores e o brilho das casas, das ruas e das pessoas, cujas aparências sujas e descuidadas também é muito bem retratada nos atores.

Mas o grande trunfo deste musical está em seu rico contexto crítico aos diversos problemas existentes hoje na sociedade como a corrupção, desigualdade social, ganância e falta de consciência tanto da população quanto das autoridades sobre a utilização dos recursos naturais. É uma peça em que a história é totalmente adequável às diversas crises que vivemos atualmente no Brasil, por exemplo, e nos faz refletir sobre até que ponto a trama cênica é realmente surreal e se não estamos caminhando para uma verdadeira escassez hídrica, cujos motivos vão muito além da falta de chuvas.

Urinal, o Musical é realizado pelo grupo de artistas Núcleo Experimental, que faz um excelente trabalho de atuação, canto e coreografia durante todo os 135 minutos de espetáculo.