Dentro da infinidade de opções existentes na blogosfera alguns têm um maior apelo comercial, outros nem tanto, mas a verdade é que existe espaço para todos.

Uma recente pesquisa realizada por uma empresa de publicidade digital mostrou que no Brasil 69% dos internautas que leem blogs buscam entretenimento. A pesquisa foi realizada com 80 milhões de pessoas.

Entre os que responderam à pesquisa 43% possuem nível superior. Os resultados também mostraram que apenas 1% dos leitores de blogs estão interessadas em cultura e 2% estão voltadas ao conteúdo… er… digamos… adultos (se controlem, por favor!).

Isso significa que blogs voltados para a educação estão fadados ao fracasso? Não. absolutamente, não. É possível criar conteúdo voltado à educação, à divulgação cultural, ao esporte ou a qualquer assunto que você queira.

A prova disso é que apenas 2% dos que leem blogs se dizem interessados em pornografia. E acho que não é preciso dizer que pornografia gera grana, mesmo que, teoricamente, apenas 2% dos internautas consumam esse tipo de informação.

Mas, caso você não esteja interessado em trabalhar no campo da pornografia e o seu blog não seja apenas de entretenimento, o que fazer para conquistar seu espaço na imensa blogosfera? Para responder a isso teremos que entender que, aquilo que muitos blogueiros fazem hoje, é o que chamamos, em jornalismo, de cozinhar textos.

Calma, eu explico: dentro do jornalismo existe a função de repórter. O repórter é aquele que vai à rua, que conversa com as pessoas, que entrevista, que checa os fatos. Para resumir, vamos dizer que o repórter faça também a redação do texto.

Então, ele traduz para seus escritos aquilo que viu, que ouviu, que leu. Esse texto é escrito em linguagem simples e direta para que qualquer um possa compreender na primeira leitura.

Muitos blogueiros fazem todo esse trabalho de reportagem – reportar, aqui, pode ser entendido como relatar aquilo que viu, ouviu, etc. – mas, muitos apenas pegam os textos desenvolvidos em sua maioria pelos grandes veículos e reescrevem em suas palavras.

Esse ato de reescrever o texto com suas palavras é o que chamamos – em jornalismo – de cozinhar. Alguns blogueiros cozinham o texto das reportagens de grandes veículos, outros cozinham apenas o texto de release (termo que vem do inglês, utilizado para designar notas distribuídas ao jornal impresso, ao rádio, à televisão etc., para divulgação gratuita).

Aí, você pergunta: entre os blogueiros só existem os articulistas (que escrevem artigos), os repórteres e os que cozinham textos? Não, gafanhoto! Existem também os cronistas. Aqueles que fazem uma análise crítica sobre os fatos. Os cronistas podem ter um foco específico – como os cronistas esportivos – ou podem cobrir um leque maior de opções, sendo cronista daquilo que Nelson Rodrigues chamaria de “a vida como ela é”.

O que dizem os profissionais

Para simplificar ficaremos apenas com os exemplos citados acima.

Os blogueiros que trabalham no nicho dos artigos e das crônicas estão, de certa forma, dentro da categoria de educação e cultura. Mas como se manter num nicho que retém a atenção de apenas 1% dos internautas leitores de blogs?

Luciano Pires é blogueiro, podcaster, palestrante, um comunicador por definição. Sua produção de conteúdo, apesar de ser informativa/reflexiva, busca sempre se apresentar numa embalagem de produto de entretenimento. A exemplo dos podcasts, videocasts e as crônicas que produz numa linguagem mais leve, abordando temas sérios. A maior parte dessas temáticas é mais bem trabalhada em suas palestras. “A abordagem foi proposital, ela nasceu dessa maneira, pois esse é meu jeito de ser. Sou antes de tudo um cartunista e foi a partir dessa atividade que desenvolvi todo o resto. Passar a lógica com emoção tem sido meu desafio e o entretenimento, assim como o sorriso, é o atalho mais rápido para a alma das pessoas”, explica Luciano.

Para Raquel Gompy, a produtora do Blog Monalisa de Pijamas (conhecida na blogosfera e podosfera como Mafalda), o caminho escolhido foi semelhante: “A ideia [do Blog e Podcast] era ser entretenimento, com conteúdos leves. Mesmo que façamos um tema voltado para um assunto mais sério, tratamos da maneira mais leve possível, deixando sempre um espaço para o bom humor”, esclarece.

Existem pessoas, no entanto, que buscam um caminho diferenciado. “Por incrível ou estranho que possa parecer eu optei por um publico seleto, um publico alvo, que no meu caso seria uma minoria. O meu conteúdo é para as pessoas que têm interesse em criar, principalmente usando dispositivos móveis. A linguagem do meu conteúdo pode também despertar o interesse de alguns em acompanhar ou começar a criar [o seu próprio material], mas estou bem ciente que não é para todos”, desabafa Eddie Silva, editor chefe do Conteúdo Sem Fio, considerado por muitos como o padrinho do podcast nacional e criador do primeiro servidor gratuito de podcast no Brasil.

René de Paula Júnior, produtor do Roda e Avisa, compartilha da opinião de Silva, “você quer ser um Paulo Coelho ou um Paulo Leminski? São duas opções honestas”, brinca. René de Paula Jr já trabalhou na produção de programas como o extinto Aqui e Agora do SBT, já passou pelo Yahoo, pela Locaweb, pela Microsoft. E isso é apenas uma parte do seu currículo.

E o pequeno blogueiro, como fica?

Com toda essa vivência ele tem uma percepção mais crítica da comunicação digital. “Quando teu modelo de receita depende de audiência, você acaba tendo que se render a tudo o que isso implica: tipo de conteúdo, freqüência de publicação, geração de tráfego, divulgação… e isso acaba empurrando todo mundo na mesma direção. Adeus diferenciação, adeus originalidade, adeus independência”, analisa.

Mas, será que são apenas os pequenos blogueiros que penam quando o assunto é criação de conteúdo? Para Luciano Pires não é bem assim. “Geração de conteúdo dói e custa. É mais rápido distribuir… e me parece que esse binômio geração versus distribuição é a questão que deve ser levantada. Os grandes portais fizeram seus nomes especialmente como distribuidores.

Chamam vários colunistas conhecidos, adquirem conteúdo externo e distribuem, atraindo audiência. Os pequenos blogs geram conteúdo, mas atraem pouca audiência.

Quando crescem, para manter a questão do conteúdo, ou devem se aliar a um grande portal (visibilidade), o que tem suas inconveniências, ou tem que partir para replicar conteúdos.


Não vejo problema na replicação, desde que isso seja feito de forma coerente e transparente. Cabe ao dono do blog julgar se isso é positivo para seu negócio ou se apenas vai transformá-lo em mais do mesmo. Eu replico conteúdos no Portal Café Brasil, mas é coisa muito selecionada e que cumpre um propósito. Não replico releases, apenas matérias na maioria das vezes opinativas. Acho que tudo tem a ver com o que você quer ser”, esclarece.

Raquel tenta ser cautelosa ao falar do assunto: “Acho que o fato de só replicar release e não uma noticia completa se deve mais à preocupação do blogueiro em manter o seu blog nas buscas com as noticias do momento, [em detrimento ao ato] de informar. Também pelo fato da quantidade de informação disponível e das pessoas não pararem para ler uma noticia completa, uma matéria grande. Então há os dois lados da moeda”, pondera a apresentadora do MonaCast.

Na visão dela a síndrome do conhecimento fragmentado pode ser o estopim desses problemas.

“Faz parte do jogo, de se manter acessível e visível na internet. A coisa é complexa… Já tem estudos que falam que as redes sociais, a quantidade infinita de informações e links jogados, estão criando problemas de ansiedade e vícios nas pessoas”, conclui.

Seu Silva – como é chamado na podosfera – teme que o problema possa ser a fachada de algo mais grave. “Tem uma diferença muito grande entre replicar um release e absorver as informações do release e dar a sua opinião ou notícia. Mas, para mim, existe um problema maior do que aqueles que replicam conteúdo. Sinceramente, não sei se ser blogueiro no Brasil tem algum retorno financeiro, mas é a coisa mais fácil na vida. Envolve 4 passos: Assine centenas de feeds, copy e paste para o tradutor do Google e copy paste para o blog, e [depois é só] twitar a “notícia” inédita. Estes tipos de blog eu não leio. Eu acho que em qualquer profissão a pessoa precisa ser ambiciosa. Crescer, criar. Um bom exemplo que sempre cito é [o de] um estudante de jornalismo. O que ele pretende fazer de sua profissão? Trabalhar com reportagem, ganhar conhecimento até chegar a editor de jornal… Ou numa TV, ou ser aquele “jornalista” que não levanta o traseiro da cadeira e fica acompanhando o Twitter de celebridades e jogadores de futebol para criar a sua pauta do dia? Falta mesmo ambição e a coragem de sentir o frio na barriga por estar se arriscando em algo novo, algo inédito”. E continua: “Basta ver os grandes blogs de tecnologia aqui nos EUA que servem de fontes de notícias para os blogs do Brasil”, arremata.

E quem não trabalha com entretenimento?

Dentro deste cenário caótico será que a blogosfera brasileira pode ser levada a sério? Afinal, o que falta para que os blogueiros trabalhem numa linha mais “profissional”? O que falta para que desenvolvam maior credibilidade frente aos anunciantes? Será que o público consumidor não acaba enviesando o produtor de conteúdo?

Na opinião de Luciano Pires essa é uma triste realidade. “Me incomoda muito o fato da blogosfera ainda mimetizar e depender das mídias e processos tradicionais. Por exemplo, dos 10 maiores tuiteiros, acho que 80% são personalidades da TV, com conteúdo discutível e banal, que só estão ali pela visibilidade garantida pela mídia tradicional. O mesmo vale para jornalistas com colunas em veículos de grande visibilidade. Isso não é necessariamente ruim, mas quando o conteúdo desses sugadores de audiência é apenas a banalidade, roubam visibilidade de quem tem algo mais pra dar”, observa.

Seu Silva brinca, dizendo que, o que falta à blogosfera nacional é criatividade e “sangue no zoio” (sic). Ele diz que no inicio o blog no Brasil tinha a mesma proposta de muitos blogs americanos. Criar conteúdo dando a sua opinião sobre determinado assunto. Confessa sentir falta justamente disso, blogs com opiniões próprias. Mas, para ele, não basta dar opinião, precisa ter conhecimento de causa. “As vezes vejo um “suplicante” falar: O iPhone é um lixo. O bom é o Android. – Baseado em que ele afirma isto? O problema é o sistema operacional ou o hardware? Simplesmente joga goela a baixo de seus leitores. O pior é que os leitores acreditam e ainda retuitam”, lastima.

Raquel diz observar os principais blogs nacionais, cujos nomes e seus autores sempre estão presentes nos principais eventos de internet do país. Ela comenta que esses autores são, em sua grande maioria, jovens e muitas vezes imaturos. Ou seja, ela recomenda que tenhamos cuidado com o fato de boa parte da blogosfera ser “feita por jovens, para jovens. Jovens guiando, influenciando, com ideias nem sempre boas ou maduras, a outros jovens. O culto ao egocentrismo é grande, e não vejo isso de maneira positiva”, aponta Raquel.

Com relação aos fatores psicológicos das mídias digitais no comportamento dos jovens, Luciano Pires comenta que fez “um teste (na verdade uma aposta): publiquei um post absurdamente trivial no Facebook (“de que lado você come a coxinha?”) e acho que foi o campeão dos comentários. Isso é a tal fuga, e isso me incomoda… Aí reside a questão da responsabilidade dos blogueiros de elevar o nível de sua audiência. Puxar pra cima, de forma que a audiência cresça em qualidade e acabe exigindo mais do blogueiro, que assim também cresce, formando um ciclo virtuoso. Mas não dá pra aplicar esse conceito para números astronômicos. Grandes audiências implicam no trivial. Qualquer coisa mais elaborada reduz drasticamente a audiência e esse não é um problema só da internet, mas me incomoda. Por isso desenvolvi o conceito das Iscas Intelectuais, que nunca vão fundo demais, apenas levantam a poeira e – às vezes – pescam um ou outro…”, ensina Pires.

René de Paula Jr pode ser visto por muitos como um outsider no mundo digital. “Eu pago minha hospedagem, eu pago pelos meus domínios, eu pago o Vimeo, eu pago até licença de Winzip. Nada do que eu publico tem interesse comercial algum, nem vídeos, nem palestras, nem artigos, nada. Eu tenho mantido essa independência e autonomia e consistência mesmo tendo trabalhado pra N empresas diferentes e concorrentes entre si”, desabafa.

Dentro de visões tão diferentes podemos perceber que não existe uma fórmula. Tudo depende daquilo que você quer atingir, de onde você quer chegar. Existe um caminho para quem quer produzir conteúdo para os 69% que buscam entretenimento e um caminho completamente diferente para aqueles que buscam elevar a si mesmo e aos seus leitores e ouvintes. Os dois caminhos são válidos. Escolha o seu.

Escrevi esta reportagem originalmente na Revista Blogosfera.

As imagens das personalidades usadas nesta reportagem são fotos de divulgação de seus respectivos retratados.

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