“O Caiçara e o Ambiental”, repente de Cleiton do Prado e Márcio Ribeiro

“O Caiçara e o Ambiental”, repente de Cleiton do Prado e Márcio Ribeiro

06/01/2021 0 Por Márcio Ribeiro

O Editoria livre apresenta um “bate-papo” em versos, feito no dia 21/05/2021, pelo whatsapp, entre às 21:30 e às 23 horas, e proposto pelo Cleiton do Prado como tema livre. Todo o conteúdo, palavras e linguajar foi mantido.

Veja como ficou:

 (caiçara)

Prazer, sou caiçara do mato
Não sou de tirar retrato
Sou um pouco envergonhado

Porque, de tão maltratado
Pelo “tar” meio ambiente
que não entende a gente
E nos chama de bandidos

Esse meu jeito sofrido
Já desconfia de tudo
Mas apesar de pouco estudo,
Eu conheço a natureza
E não é só sua beleza
Que serve prá humanidade

Falo com serenidade
Pois tiro da natureza
A cura, o alimento, o transporte e o sustento e madeira prá moradia,

Dela bebo a água fria , que desce da cachoeira,
Não tô falando besteira.
Daqui não destruo nada

A natureza é sagrada
E devemos respeitar
E também saber usar …

(ambiental)

Não tem nada de prazer
Pois prá mim você é um impostor
Não te dou mesmo o valor
Por que eu preciso da sua terra
Para eu dizer que cuido dela
Com o meu diploma de doutor
Só no dinheiro eu vejo amor
Quero amparar o meu projeto
Mesmo que ele não esteja certo
Tenho que te chamar de invasor
Que eu preciso justificar
O dinheiro que eu ganhar
Para eu comprar o meu pão
Pois se eu disser que você é bom
Não vou ter mais o meu trabalho
Meu diploma vai pro ralo
E não vou ter o que fazer
Por isso passo por cima de tudo
Até a sua casa eu derrubo
E ainda me acho o tal
E mais nada eu escuto
Se por a rédea, fico um burro
Prazer, sou da ambiental

(caiçara)

Eu sempre soube de tudo,
Porque quer nos deixar mudo…
É para nos oprimir
Seu dom é se omitir
E dizer que nos ajuda

Mas se essa história muda
E a justiça descobre
Que sua causa não é nobre
E você é mercenário

Você perde seu salário
E sua dignidade
Pois um dia a verdade
ainda vai vir a tona,

E a gente então retoma
a nossa terra de direito
Cai o mal que tem nos feito
E enfim teremos respeito
E nossa dignidade

Caiçara de verdade tem que ter seu território…

(ambiental)

Não é nada disso não
Eu falo é da preservação
E você precisa ver
A bela casa que tem prá você
Bem la periferia
E o seu modo de vida
Você vai ter que esquecer, pois estão em minoria
E o seu filho e a sua filha na cidade vão crescer
Esquecendo a tradição
A cultura escorrendo pelas mãos
Eu não quero nem saber
Na verdade, todo mundo sabe
Que na realidade
Você quer mesmo ter
Uma bela casa na cidade

(caiçara)

Agora é que vou lutar
Prá conquistar meu direito

Porque não é desse jeito
Que se trata um morador
Que tem devido valor
E preserva a cultura

É sabedoria pura o que corre em minhas veias
E sua proposta não custeia
Nem um pingo do meu suor,

E será muito pior se continuar o suborno
Porque nunca que abandono
Esse chão meu de direito,

E não é qualquer sujeito
Com um crachá pendurado
Que me deixa acabrunhado
Com suas falsas promessas

Não me venha com conversa
Você nunca que me engana
você logo vai em cana,
Porque vão te descobrir
E a justiça vai cumprir
Com sua obrigação

Veremos quem tem razão
Se é o tal sabichão
Ou o caiçara aqui …

(ambiental)

Eu sou uma autoridade
Olha aqui o meu crachá!
Trate agora de me respeitar
Pois eu sou um funcionário
Mal pago pelo estado
Pelo estado brasileiro
Que não cuida da riqueza
Muito menos da natureza
Mas o importante prá nação
É o dinheiro na mão
Lá do povo estrangeiro
Que está de olho em nossas matas
Nossos remédios nossas águas
E o que tem prá oferecer
E  a verdade vai saber
Que na verdade eu lhe aviso
No meio deste conflito. Não tem lugar para mim e para você
Então agora eu te digo
Tiro a arma do meu cinto
E te ponho prá correr

(caiçara)

Minha arma é minha fala,
O meu peito é meu escudo
Não fujo pois vivo luta
Mesmo com pouco estudo
Sua arma fere um
Minha voz muitos escutam
E companheiros de luta
Vão fazer valer meu nome
E o ódio que te consome é alimento prá nós
Porque não estamos sós…
Somos muitos e unidos
E se não quiser ser vencido, venha e junte-se conosco, tire o crachá do pescoço
E essa arma da cintura…
Se é guerra que procura,
não suje as suas mãos
Lute com dignidade
Território é tradição !!!

(ambiental)

Agora que o povo já ouviu os dois lados
Vamos ser civilizados
Peço prá você me responder
Te peço por favor
Minha filha está com dor
Nem consegue se mexer
Consulte a sua ancestralidade
Me faça uma caridade
Ou peça prá benzer
Minha filha nesta idade
Está sem vitalidade
Sem vontade de correr
Peço a sua coragem
E também a sua vontade
Não me deixe ela morrer
Não perca esta oportunidade
Para no seu povo eu crer
Quem sabe luto junto com você?

(o caiçara)

Meu caro, aqui no mato não temos alternativa
A não ser buscar a cura nessa natureza viva
Com benzimentos e plantas sempre tivemos socorro
Na erva que vem do campo
Na água que cai do morro…

Vou tratar a sua filha,
E ela será curada
Não precisa me pagar,
Pois a natureza me paga

Lute junto com a gente , mas não por obrigação
Lute porque sua família também veio desse chão,
Se a terra é nossa mãe
Você também é irmão.

(ambiental)

Seus versos são tão bonitos
Eu só tenho que agradecer
E também me desculpar
Tenho vontade de chorar
Pelo bem que vai me fazer
Há pouco, depois do almoço
Estava o maior sufoco
Apontei uma arma prá você
E agora quer me ajudar
Minha filha vai curar
Sem olhar, o bem fazer
O seu povo tem o meu respeito
E merece o bem viver
Te peço perdão
Pois com a arma na mão
Só cumpria a obrigação
O que há de se fazer?
Seria mais bonito e pertinente
Se todo o guarda existente
Soubesse dialogar
E olhar por sua gente
Como se fosse um parente
Sem se preocupar com a patente…

(Cleiton do Prado / Márcio Ribeiro)

Criação e Autoria: Cleiton do Prado e Márcio Ribeiro

Foto Garoçá no Rio Verde: Márcio Ribeiro

Contato: [email protected]

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