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Indicar ou não indicar a leitura de um clássico?

É muito comum indicarmos determinado livro que nos empolgou para alguém conhecido, mas o que acontece quando a pessoa não gosta da indicação?

Entre as várias coisas erradas que eu fazia até recentemente, estava o ato de recomendar a leitura dos clássicos para toda e qualquer pessoa. Depois de alguns anos de experiência (melhor seria dizer algumas décadas), continuo achando a leitura dos clássicos essencial, mas compreendi que algumas pessoas não estão preparadas para uma leitura um pouco menos descompromissada.

Ler é e sempre foi uma atividade não natural. Não é fisiológico, seu corpo não precisa disso, sua mente não precisa disso, seu psicológico não precisa disso. É preciso escolher ser leitor. Somos alfabetizados de forma compulsória, mas tornar-se fluente na língua escrita vai depender de cada um. Pessoas que não gostam de ler enfrentam dificuldades para compreender o que leem. A leitura exige esforço, cansa e desmotiva quem não enxerga nenhum tipo de recompensa nesse processo.

Existe, no entanto, aqueles que são capazes de ler textos mais simples, narrativas sem muitas camadas (algumas até pueris), mas ainda não conseguem perceber as diferentes possibilidades interpretativas que existem em livros como O Pequeno Príncipe, Dom Casmurro, Graça Infinita e tutti quanti. Eu, bocó que sou, vivia recomendando a leitura dos clássicos para esse tipo de leitor. Indivíduos muito acostumados a histórias em quadrinhos e livros de Paulo Coelho, mas sem muita articulação para exercícios mais complexos.

Não há nada de errado com Paulo Coelho ou HQs

Antes que comecem a jogar pedras, não vejo nada de errado com a leitura de quadrinhos ou Paulo Coelho. Li e leio muito gibi. Também já consumi alguns livros do mago. No entanto, gosto de acreditar que estou sempre buscando novos desafios, novas experiências. Sempre que estou confortável num estilo, procuro mudar o que estou lendo.

Mas, como eu já disse lá em cima, esse é um exercício que deve ser feito de forma consciente, ou seja, é preciso escolher e perseverar. A recompensa não é muito evidente, tampouco imediata. Depois de cinco ou seis anos o indivíduo começa a notar que sua percepção de mundo, sua capacidade de ler nas entrelinhas está muito mais aguçada. Pedir para alguém se esforçar durante todo esse tempo, para atingir uma recompensa aparentemente tão insignificante, dificilmente empolgará a maioria dos indivíduos.

Tal qual um cristão recém convertido, eu vivia pregando a boa nova para todo o mundo. As pessoas, de modo geral, mostravam-se desapontadas com a indicação. Algumas mostravam-se revoltadas. Como eu poderia explicar a importância de determinado livro se ele não cumpria sua função, se as diferentes experiências de vida e os diferentes níveis de leitura transformam tudo numa questão subjetiva?

Seria preciso certo esforço

O leitor que recebeu a indicação precisaria compreender que algo de positivo foi encontrado naquele livro. A partir daí, seria necessário um esforço desse leitor em busca de enxergar o mesmo que eu enxerguei. O risco de que nada fosse encontrado seria muito grande. Afinal, as diferentes experiências de vida permitem diferentes leituras de mundo.

Já ouvi, de pessoas as quais indiquei livros, os maiores disparates. Alguém me disse que não gostava dos livros do Machado de Assis porque eles eram muito descritivos. Outra pessoa argumentou que não enxergava feminismo em Elena Ferrante. Uma terceira argumentou que não havia honestidade nos livros do Karl Ove Knausgard.

O que fazer?

Talvez a única coisa a ser feita é cuidar melhor da formação inicial dos nossos leitores. Enquanto isso, estou restringindo minhas indicações literárias.

José Fagner Alves Santos

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