Home Fagner Artigo Cuidadora da Figueira das Lágrimas teme pelo pior

Cuidadora da Figueira das Lágrimas teme pelo pior

Cuidadora da Figueira das Lágrimas teme pelo pior
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Figueira localizada na Estrada das Lágrimas, no Sacomã, é a árvore mais antiga registrada na cidade de São Paulo, mas a falta de cuidado pode destruí-la.

 

Por: Redação de O Berro

Dona Yara Rodrigues, a guardiã da Figueira da Estrada das Lágrimas

Fotos: Kayky Moizinho e Laura Luzia

A data exata do seu nascimento não é conhecida, mas documentos atestam que a Figueira das Lágrimas tem mais de 200 anos. Classificada como a árvore mais antiga que se tem registro na cidade de São Paulo, a figueira ganhou esse nome porque, segundo a lenda, aquele era o ponto em que mães e esposas iam prantear seus filhos e maridos que partiam para a Guerra do Paraguai, ocorrida entre 1864 e 1870. Dizem até que Dom Pedro I teria descansado à sua sombra. Recentemente ela foi clonada como parte de um projeto de revitalização, mas a planta original sofre com a falta de uma zeladoria especializada.

A prefeitura mandou fazer uma obra em seu entorno, mas acabou danificando suas raízes. A equipe de O Berro tem acompanhado o desenrolar dessa história há alguns meses. Conversamos com a Dona Yara Rodrigues. Ela é, há muito tempo, a guardiã da Figueira da Estrada das Lágrimas.

Segue um trecho da nossa entrevista.

Berro: A primeira coisa que a gente queria perguntar para a senhora é: como é que nasce a sua história aqui com a figueira? Há quanto tempo essa figueira enfeita a vida da senhora e da sua família?

Yara: 41 anos.

Berro: 41 anos aqui na sombra da Figueira. Tem filhos?

Yara: Sim, dois filhos.

Berro: Os filhos cresceram brincando embaixo da árvore?

Yara: Brincando aí. Hoje uma é psicóloga e o outro é piloto de avião.

Berro: D. Yara, conta para a gente como é que foi essa história? quando a senhora veio para cá, a senhora tinha ideia da importância desta árvore para a história da cidade?

Yara: Eu já tinha, porque eu morei lá em São João Clímaco, eu era cobradora naquela época, depois passei para motorista de ônibus. E a gente, quando passava por aqui, sempre sabia da história desta árvore. A gente já tinha visto, porque nos livros de história de antigamente tinha esta árvore. Eu já conhecia e deu de eu comprar esta casa.

Berro: A árvore foi um fator importante na escolha da casa ou foi só coincidência?

Yara: Não. Eu passei a cuidar dela, porque, na época, era cheia de mato. Daí eu lutei e eles vieram tirar o mato. Eles diziam que ninguém podia fazer nada. Aí depois calçaram tudo. Eu aumentei a altura do muro e fiquei tomando conta até hoje.

Berro: E nesses 41 anos que a senhora diz tomar conta da árvore, como foi o apoio da prefeitura para esse cuidado?

Yara: A prefeitura praticamente nunca fez nada. Mandavam o biólogo aqui para dar uma olhada, mas quem varria e deixava tudo limpinho para as visitas escolares era eu. Nem saco [plástico] eles estavam me dando mais. Dessas três gestões para cá, pararam de dar até os sacos de lixo. Eles aguavam as plantas, pararam de aguar. Inclusive, quem aguava era eu e eles nunca me ajudaram com minha conta de água. O que a gente requereu com a justiça era para eles refazer o muro que estava caindo. Porque eu não podia fazer, porque diz que é patrimônio histórico, não pode fazer. Se eu soubesse que eles vinham fazer isso que eles fizeram, eu mesma teria feito. Porque levaram os gradis, foi tudo para o lixo. foi não sei para onde. As pedras, que eram iguais às do Museu do Ipiranga, foram todas descartadas. Descaracterizou, não existe mais aquele aspecto que a identificava pelo mundo inteiro. Eu gravei com o Japão, saiu um livro na Itália. Tudo isso com essa árvore.

Berro: Então, quer dizer que eles pegaram pedras que têm a mesma história do museu e simplesmente descartaram como se fosse lixo?

Yara:1826

Berro: As pedras são de 1826?

Yara: Inclusive, eu peguei muitos tijolos com essa data. Foram todos para o lixo, era para ter feito como era antigamente. E os gradis, que eram tão importantes? Aqui eu já impedi gente que estava fazendo barracos aí dentro. Uma vez eu impedi dois rapazes que estavam fazendo barraco aí dentro. Eles falaram que era da prefeitura e que podia ser feito. Tive que chamar a polícia para impedir. E agora? O que é que vai virar isso aqui?

Berro: Como é a história dos seus filhos com a árvore. Brincaram muito sob a figueira?

Yara: Brincaram muito. Quando eu mudei para cá, um tinha quatro e o outro tinha seis.

Berro: Alguma história marcante que a senhora lembre?

Yara: O que me deu um impacto muito grande é que, dias atrás veio um senhor aqui que o pai dele foi para a guerra. Ele ajoelhou aí e chorou quando viu esse lugar ficar desse jeito. Quando eu mudei para cá, muitas mães vinham chorar, traziam flores e deixavam aí e acendiam velas. Mas acho que essas pessoas todas já se foram. Eram mães e pais de quem tinha ido para a guerra.

Berro: A senhora pode contar a história do botânico que a acompanha e que levou 20 anos para fazer brotar a árvore? A sensação que temos é como se a árvore estivesse resistindo ao brotar. Como se dissesse aqui não, esse espaço é meu.

Yara: Nós pensamos igual. Você vê, eu com 63 anos e você com a idade que tem, pensamos igual. O Ricardo Cadim clonou a árvore. Eu plantei uma muda dela no Ibirapuera, na Praça da Paz. Depois de tudo isso, ela soltou dois brotos aqui. A gente estava fazendo de tudo para aconchegar direitinho. Você vai ver quando isso abrir, não vai durar um mês. Foram vinte anos para conseguir essas duas mudas, não vai durar um mês

Berro: Qual o sentimento que fica?

Yara: Agora eu já lutei tanto, com tanta gente na internet, fizeram um auê e não sei no que vai dar ainda. Tem um advogado que tentou embargar a obra, pedindo a obra do jeito que era. Eu não sei o que vai dar. Mas, se todo mundo se juntar, quem sabe a gente não vai ganhar disso daqui ser preservado com muros e gradis? Porque, aberto do jeito que está, não vai sobrar nada. Daqui a três meses, não vai ter nada.

Yara: Está dando desgosto por causa disso. Vocês estão convidados para virem aqui. Quando inaugurar eu dou quinze dias, esses dois pés que estão nascendo não vão para a frente. As pessoas vão arrancar. Já quiseram arrancar.

Berro: Cortaram as raízes?

Yara: cortaram tudo.

Berro: E veio um botânico para acompanhar esse corte?

Yara: Veio um engenheiro e ele olhou para minha cara e disse: isso aqui é conto da carochinha, porque isso aqui não existe. Isso não tem tantos anos aqui. Foi inventado por vocês.

Berro: Ah, o engenheiro falou que a história da árvore é mentira?

Yara: Aí eu disse, você fugiu da escola? Você não leu os livros de história? Porque eu, que sou analfabeta, já vi isso em livros de história. Conhecia isso aqui desde que estava em Pernambuco.

Berro: Aí ele falou que era um conto da carochinha e que por isso poderia ser tratado com desprezo?

Yara: Então foram cortadas as raízes que o senhor Ubiratan, um biólogo que trabalhou para a prefeitura mais de 50 anos, lutou para preservar. Foi ele que conseguiu fazer com que as duas raízes nascessem.

Berro: Conte um pouquinho sobre a árvore vizinha da figueira. Houve uma poda em 1985 muito grande e a prefeitura de Jânio Quadros veio e s plantou. A senhora sabe qual é a espécie?

Yara: Sei que aquela é a Benjamina e que é super rara. Tem essa, uma no Ibirapuera e outra no [restaurante] Figueira Rubaiyat. Não existem outras no mundo.

Berro: A senhora conheceu A Figueira Rubaiyat?

Yara: Sim, eles fizeram uma homenagem e vieram me buscar.

Berro: Mas, essa que está ao lado, a senhora não sabe o nome?

Yara: Não, essa é a praga que cai dentro de São Paulo com a chuva. Aí o Jânio Quadros falou que o [André Franco] Montoro [27° governador de São Paulo, senador, deputado federal e ministro do Trabalho] e os bombeiros haviam quebrado, e mandou plantar essa para substituir, mas é ela que está matando a Figueira.

Berro: Qual a mensagem que a senhora gostaria de deixar para população sobre essa obra que está sendo feita?

Yara: Isso não é uma obra, é uma destruição. Para que fazer uma praça em 60 metros quadrados? Isso não existe.

Berro: Isso sim é um conto da carochinha?

Yara: Isso é um conto da carochinha. Ainda mais gastar 72 mil reais nisso aí, para fazer três muros e fazer o que eles estão fazendo. Isso é um tapa na cara da sociedade. Todo mundo tem que entrar, fazer abaixo assinado para ver onde está indo o dinheiro da gente. Isso é um desvio de dinheiro.

Berro: A senhora disse que as mães dos soldados vinham aqui. Seriam da Segunda Guerra?

Yara: É, a de 1944

Berro: A senhora sabe o motivo de as mães chorarem aqui?

Yara: Porque eles iam para Santos e aqui era o ponto da despedida.

Berro: Então, podemos dizer que as raízes que foram cortadas e descartadas também foram regadas com as lágrimas dessas mulheres.

Yara: Os gradis vieram da Itália.

Berro: a senhora tem alguns tijolos para tirarmos fotos?

Yara: Eu guardei, eu fui vendo o pessoal jogando tudo fora e guardei tudo. Tenho um pedaço da pedra, é igual à que foi usada no Museu. Levaram para colocar no Museu da Imigrante. Quebraram tudo e jogaram. Tem um historiador que veio aqui, que disse que tudo deveria ser retirado inteiro e refeito como era o original. Mas, na verdade, quebraram tudo e jogaram foram. Eles falaram que os gradis foram levados para subprefeitura, mas eu não sei.

Nesse momento Dona Yara mostra à nossa reportagem uma série de documentos e fotografias.

Yara: Essa aqui é minha escritura. Lê aqui esse pedacinho:

Berro: “que do terreno vendido à prefeitura municipal desta Capital ocupou uma pequena faixa com a construção do muro e gradil que circunda a Árvore das Lágrimas, ficando, portanto, a compradora com o direito de reaver da prefeitura a referida faixa de terreno que por direito pertence a eles outorgantes e faz parte do terreno ora vendido.”

Yara: Porque eles queriam comprar, mas na época a dona passou para mim o direito de eu reaver. Essa aqui é essa casa em 1910. Essa outra é de 1810.

Berro: E as senhora já deu entrevista para quantos veículos?

Yara: Já falei com tanta gente. Mas daí eles vêm e esquece. Eles esquecem de tanta coisa, quem dirá disso daí.

Berro: Eu queria ver por quanto o terreno foi vendido. Tem um momento em que ele foi vendido por dois contos de réis. E quando dona Iara comprou, em 1973, pagou 150 mil cruzeiros.

Yara: Tem um advogado, Júlio Cesar Sanches, entrou com o processo no Foro Central para a manutenção do muro e foi isso aí que virou.

Produção: Kayky Moizinho de Souza e Laura Luzia.

Supervisão e acompanhamento: Andreia Drska e Luana Werneck.

Edição: J. Fagner Alves.

 

jotafagner José Fagner Alves Santos é jornalista (MTB 0074945/SP) e Mestre em Educação. Fã de Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese, Hunter Thompson, John Hersey e Eliane Brum. Faz um arremedo de jornalismo literário. Colabora no Jornal Bem te Vi e no Diário de Promissão apresentou durante dois anos o Podcast Mídias e Modos. Já escreveu para o extinto Internet Geral e, recentemente, começou a colaborar como MixPoint.

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