Casa da Cultura de Ipiaú celebra 36 anos e revisita trajetória de resistência artística

Por Fagner Alves — Ipiaú (BA)

A Casa da Cultura de Ipiaú completou no último sábado (25) mais um aniversário de fundação. Criada em 25 de outubro de 1989, a instituição — que hoje funciona em um imóvel alugado na Praça Antônio Linhares, no centro da cidade — comemorou 36 anos de atividades com mais uma edição da FLICEN (Feira Literária e Cultural Euclides Neto), em conjunto com o tradicional Sarau do Coletivo.

Das origens teatrais à criação da Casa

O médico Manoel Candido sendo preparado para uma apresentação

Segundo a artista Mel Jaqueira, uma das fundadoras, a Casa da Cultura nasceu no final dos anos 1980 a partir de um movimento teatral formado por nomes como Jorge e Joelson Hohlenwerger, Paulo Barbosa e Mel, que havia retornado a Ipiaú após estudar dança na UFBA. O grupo contou com o incentivo da Dra. Socorro Chamel e de seu marido, ambos neurologistas vindos de São Luís (MA).

Dra. Chamel sugeriu que usássemos a documentação de uma casa de cultura de São Luís como modelo”, lembra Mel. Com apoio do médico Manoel Cândido, o grupo começou a montar peças teatrais e, após a regularização legal, conquistou o título de entidade de utilidade pública.

A Casa recebeu apoio técnico de profissionais da Fundação Cultural da Bahia. Entre eles, o ator Nilson Mendes e a dançarina Tereza Oliveira, professora da UFBA, que trouxe à cidade o conceito do Teatro Invisível.

Fizemos uma performance na feira pública com um dragão chinês de pano, simbolizando o nascimento da Casa da Cultura”, conta Mel. “A mulher que paria no meio da cena representava o nascimento da Casa.”

Resistência e perdas

Atores (Paulo ao centro, Silvan ao fundo) numa de suas muitas apresentações

Desde a fundação, o grupo enfrentou dificuldades para manter uma sede própria, utilizando por décadas espaços emprestados. Entre as figuras que passaram pela instituição estão Dra. Socorro, Lurdinha Bezerra, Ayam Ubrais Barco, professora Marília, Silvan, Roberta, Marconi, Dr. Manoel Cândido, Ivan e Sílvia Clícia, atual presidente.

Durante o governo de José Motta, a Casa assumiu a gestão do Museu do Lavrador, então localizado na Câmara de Vereadores. Segundo Mel, o museu contava com um funcionário cedido e um salário mínimo para manutenção. No entanto, com a transição para o governo de José Mendonça, o espaço foi desmontado e parte do acervo se perdeu.

Até um piano que recebemos de doação desapareceu”, relata Mel. Houve tentativas de reorganização com o apoio da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e da Faculdade Santo Agostinho, mas os esforços esbarraram em burocracias e falta de apoio.

Reativação e novos tempos

Após um período de inatividade, a Casa da Cultura foi reativada em 2017 pelo Coletivo Cultural de Ipiaú, que reúne agentes culturais locais. O movimento consolidou-se como organização da sociedade civil sem fins lucrativos, atuando em defesa da produção artística e da valorização da identidade cultural da cidade.

“Enquanto o Coletivo tratava de questões mais amplas, a Casa se voltou para temas específicos da comunidade”, explica Ivan, um dos articuladores do movimento.

Durante a pandemia de Covid-19, a empresa Doce Mel destinou doações à Casa da Cultura, que, em parceria com o Sindicato dos Músicos, distribuiu recursos para artistas afetados pela crise sanitária.

Símbolo de resistência cultural

Três décadas e meia depois de sua fundação, a Casa da Cultura de Ipiaú segue como símbolo de resistência artística e memória comunitária. Mesmo sem sede própria, o espaço mantém vivas as tradições de teatro, literatura e música que deram origem ao projeto — agora fortalecidas por uma nova geração de artistas e produtores culturais.

“A Casa da Cultura é uma semente que nunca deixou de germinar”, diz Mel Jaqueira. “Ela sempre encontrou um solo fértil no povo de Ipiaú.”

Sobre o autor

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José Fagner Alves Santos é jornalista (MTB 0074945/SP), formado em Letras. Mestre em Educação, Doutor em Literatura. Fã de Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese, Hunter Thompson, John Hersey e Eliane Brum. Faz um arremedo de jornalismo literário. Publica sempre às segundas aqui no Editoria Livre e apresenta o podcast que é publicado às quartas. Colabora com o Portal Café Brasil.


One Reply to “Casa da Cultura de Ipiaú celebra 36 anos e revisita trajetória de resistência artística”

  1. Tereza Oliveira

    Que legal Mel. Foi tão bom o tempo que passei aí. A reciquadrilha já se tornou um projeto meu dos mais bem fundamentados e que realizei depois daí em outros espaços. Está até registrado na minha pós graduação. Deu frutos !!! Além dele lembro do da feira do infantil da carta indígena do carnaval dos bichos . Tantas ações. Saudoso Nilson Mendes. Bjs e parabéns pela Casa. Resistência é a palavra chave. Muita paz.

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