No quarto exercício de narração eu escolhi o conto: Um lar para o Magrelo, escrito pelo Jefferson Santos para a primeira edição da revista Editoria Livre.

Acompanhe o texto e o áudio: 

O jovem Júnior saiu da aula um pouco mais tarde que o normal, havia ficado de castigo fazendo uma atividade extra depois que o sinal bateu. No céu uma chuva se formava. Ele apressou o passo. Torcia para que ela não caísse até que chegasse em casa. Não adiantou muito. Os primeiros pingos tocaram sua pele no momento em que ele passava pela praça do cinquentenário.

Correu na esperança de que se molharia menos. Contudo, a chuva engrossou quando chegou à Praça dos Cometas. Abrigou-se, junto com mais algumas pessoas, embaixo da marquise da padaria Aurora.

Observou, do outro lado da rua, um filhote de gato ao lado de um saco de lixo. O pequeno animal miava fortemente, desamparado entre os pingos que caíam. As pessoas pareciam ignorar o pobre felino, mas Júnior ficou demasiadamente incomodado. Atravessou a rua, em direção ao bichano. Ao se aproximar percebeu o quanto aquele filhote era magrelo. Seus pelos brancos estavam encardidos.

As pessoas observaram-no se agachar, pegar o gato, e trazê-lo para baixo da marquise. Júnior enxugou os pelos do animal com o tecido branco de seu fardamento escolar. Os espectadores estranharam, mas ele parecia não se importar. “Deve estar com fome”, pensou o garoto.

A chuva logo passou e ele colou o gato magrelo na porta da padaria. Feito isso caminhou de volta para casa, mas antes que desse o terceiro passo, ouviu os miados do gato que o seguia. Olhou para trás sensibilizado.

“Se eu pudesse eu te levava para casa.”

Continuou a caminhar, mas o gato ainda o seguia com fortes miados. Ele, então, se virou e disse:

“Se ele me seguir mais uma vez, eu o levarei para casa.”

E foi exatamente o que aconteceu. Pegou o animal como se segurasse um bebé recém-nascido e seguiu viagem. Enquanto caminhava observou que os vizinhos o olhavam com certo desdém, mas Júnior era o tipo de garoto que não ligava muito para o que as pessoas diziam. Havia se acostumado às provocações sofridas na escola.

Passou pela porta de casa, mas não entrou, arrodeou pela lateral e pulou o muro para ir ao quintal. Não guardava boas lembranças da primeira vez em que entrou pela porta da frente carregando um animal da rua.

Já no quintal, colocou o filhote dentro de uma caixa de papelão, mas o animal começou a miar muito alto.

“Fica quieto.” – sussurrou o garoto. “Se você miar desse jeito meus tios vão descobrir”. Por alguma razão o gato parou de miar.

O garoto deixou-o no quintal e adentrou a casa pela porta dos fundos. Caminhou sorrateiramente pela cozinha, pegou um pouco de leite em cima do fogão, despejou um pouco numa embalagem vazia de margarina e voltou para o quintal. Deu o leite ao gato que parecia faminto. Ficou feliz em ver o felino se acalmar, mas a voz de sua tia assustou tanto ele quanto o gato:

“Você trouxe outro animal para dentro de casa, Júnior?”, perguntou ela retoricamente.
Júnior abaixou a cabeça e, antes que pudesse dizer algo, sua tia completou:

“Já temos três gatos dentro de casa. Pode colocar de volta onde você achou, antes que o seu tio descubra.”

O tio de júnior caminhou até o quintal com um prato de comida na mão.

“Você disse gato?”, – interrogou enquanto observava Júnior segurar o animal, como se o protegesse.

“Esse menino é um abestado mesmo. Sempre trazendo essas porcarias pra dentro de casa.”
“Não precisa falar assim com o menino.” – disse a tia de Júnior.

“Não se intromete, mulher!” – replicou ele, voltando seus olhos para Júnior.
“Vou pro trabalho agora, se esse gato ainda estiver aqui quando eu voltar, vou jogar fora, como eu fiz com o ultimo que você trouxe.”

“Você ouviu seu tio, Júnior, leve ele embora e volte pra almoçar.”
Júnior chorou enquanto pegava o gato e o levava para fora de casa.

“Porque as pessoas são assim?” – Ele se questionava enquanto carregava o gato para fora.
“Será que é tão errado trazer um animal perdido pra dentro casa?”

Teve a repentina ideia de dá-lo a algum amigo. Pelo menos assim ele não ficaria nas ruas. Levou na casa de sua amiga Su, que recusou dizendo que não poderia ficar com o gato; levou-o na casa de seu amigo Luiz, que recusou antes mesmo que Júnior dissesse alguma coisa. Foi à casa de mais sete pessoas, que também não puderam ficar com o bichano.
O sol já estava se pondo quando Junior sentou-se à porta de uma casa e começou a chorar com o gato em seu colo. Estava com fome e cansado. Havia andado por diversas ruas da cidade sem encontrar alguém que ficasse com o animal.

Uma mulher saiu à porta e o viu chorando. Júnior ofereceu o filhote a ela sem esperanças de que aceitasse. No entanto, ela sorriu e disse que há tempos estava procurando um gato para criar.

Júnior chorou ao ouvir isso. Mas desta vez, suas lágrimas eram de alegria. Pediu à bondosa mulher que o deixasse visitar o gato de vez em quando e ela cordialmente aceitou.

O felino foi apelidado de Magrelo. Mas Magrelo agora estava bem cuidado, seus pelos amarelados estavam brancos e felpudos como algodão. Também havia engordado bastante, mas para júnior, aquele sempre seria o seu Magrelo.

Jefferson Santos é estudante de Direito e escritor nas horas vagas.

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