Esta é a experiência causada pela leitura de “O Cristo Pantocrator: da origem às igrejas no Brasil, na obra de Cláudio Pastro” de Wilma Tommaso

Muitas vezes, somos tão condicionados a observar certas imagens de determinada forma, ao longo de nossa vida, que minimizamos nosso potencial crítico e não questionamos mais se o que observamos é realmente a melhor maneira de expor  o que se deseja mostrar. No âmbito religioso, especificamente no cristianismo, por exemplo, há uma infinidade de esculturas e pinturas dos mais variados estilos, retratadas nas igrejas que paralisam os olhos de muitos cristãos ao contemplá-las. Mas será que toda imagem está realmente fundamentada na essência cristocêntrica? E o que faz algumas imagens atraírem mais ou menos o olhar cristão?

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Numa verdadeira viagem rica em conhecimentos históricos e ilustrações, a escritora especialista em Arte Sacra, Wilma Steagall De Tommaso – Doutora em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC – SP) – nos apresenta a história da arte cristã em sua obra O Cristo Pantocrator: da origem às igrejas no Brasil, na obra de Cláudio Pastro. Com uma linguagem simples e voltada tanto para o público iniciante quanto estudioso do assunto, o livro está dividido em cinco capítulos.

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O primeiro, intitulado A gênese da arte cristã, aborda o lento processo de reconhecimento da arte cristã, passando pela arte das catacumbas com seus símbolos, esboços e significações. As primeiras imagens religiosas sofreram grande rejeição já que não faziam parte do culto, pois os primeiros templos cristãos reuniam uma comunidade em torno de um banquete, ao invés de limitarem-se para alguma estátua. Além disso, a imagem era considerada uma expressão pagã, bem como uma contrariedade à Lei Mosaica. Não se podia tornar visível o Deus que se revelara único e invisível fisicamente.

“Apesar de todos esses pressupostos contra a imagem religiosa, o incredível aconteceu quando a Igreja, após as resistências, aceitou a imagem no espaço cultual, não na forma de estátuas, mas de pinturas. Isso se deu em seguida às discussões teológicas sobre a natureza do Cristo, quando aparece uma doutrina das imagens justificando retrospectivamente seu uso cultural” (p. 27).

Já o segundo capítulo, A arte românica, é voltado para a arte que surgiu do encontro das civilizações greco-romana e os bárbaros. Neste capítulo são abordados os levantes contra a veneração de imagens e sua defesa em favor da “alfabetização” dos cristãos que não sabiam ler, como fora destacado pelo Papa Gregório; a aprovação da veneração das imagens no segundo Concílio de Niceia (787); a evolução da situação icônica de Deus no Ocidente, do período carolíngio ao fim do século XII, e daí adiante, entre outros aspectos…

O terceiro capítulo traz o título de um dos tipos mais significativos da iconografia oriental e que intitula a obra de Wilma: O Pantocrator. “Deus, em outras Palavras, é Pantocrator porque domina sobre toda a criação, conserva tudo no Ser, abrangendo e contendo tudo em si e, por conseguinte, penetrando e enchendo tudo de si, através da sua onipotência” (p. 117). O termo vem da origem grega: pan = todo e kratos = poder, mestre de tudo.  Deus = criador do Universo. Trata-se da imagem de Cristo com a mão direita em posição de bênção – o polegar voltado para si, os dedos médio e apontador em posição quase vertical, e os demais dedos dobrados em direção à palma da mão – indicando a dupla natureza: divina e humana. Já na mão esquerda, as Sagradas Escrituras.

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Neste capítulo o leitor conhecerá a história da imagem do Pantocrator, aprofundando-se na representação de Deus como o Senhor do Universo, além de compreender melhor a passagem da arte imperial para a arte cristã, entre outros temas.

Já o quarto capítulo faz um percurso da Contrarreforma Católica ao Concílio Vaticano II e como este resgatou a arte sacra. “A ‘volta às fontes’ estava entre as intenções subjacentes que caracterizaram o concílio, com o intento de redescobrir as riquezas espirituais, doutrinárias e litúrgicas dos primeiros tempos da igreja […] A arte havia se tornado cada vez mais acadêmica, mais secular, arte com temas religiosos, mas não arte sacra”. Esta que se diferencia da religiosa por ter a “tarefa de servir à beleza da sagrada liturgia” (p. 188).

E, por fim, o quinto e último capítulo explora a vida e a obra do maior artista sacro brasileiro, Cláudio Pastro (1948 – 2016). Intitulado Um Pantocrator brasileiro: a obra de Cláudio Pastro, este capítulo traz a trajetória de um artista que deixou marcas nas igrejas e capelas não só do Brasil, como do exterior, com destaque para o Santuário Nacional de Aparecida, onde está sua maior obra: a Cúpula Central, que contém as obras da cúpula e do baldaquino, que traz em suas colunas a representação dos biomas brasileiros. Sem contar que toda a concepção artística do Santuário como os vitrais e painéis foi conduzida por ele desde 1999 até o ano de sua morte.

Enfim, trata-se de um convite a uma maravilhosa imersão no mundo da iconografia cristã e toda a riqueza de conhecimento que ela nos proporciona. Uma obra voltada a todos os públicos, especialmente aos amantes da arte e da historiografia cristã.