Foto Gal Oppido

Tráfego intenso, pessoas andando apressadamente pelas ruas, olhares direcionados para as telas dos celulares…, em meio a essas e a outras correrias rotineiras, será que ainda há espaço para a imaginação? E para deixar aflorar a criança interna de cada um? Em meio à multidão que olha, mas não contempla, e que corre, mas não caminha, são incontáveis aqueles que aprisionaram seus sonhos, memórias de infância e tantas outras coisas que nos trazem a felicidade e que nada têm a ver com carreira, títulos ou poder.

É justamente sobre esta felicidade cultivada na simplicidade da vida que o grande poeta Manoel de Barros (1916 – 2014) nos leva a refletir em sua obra Memórias inventadas: a segunda infância. O livro traz pequenas lembranças, em ordem não linear, de um tempo que parece já não existir mais. Escrita em formato de prosa poética, as palavras do autor agora se concretizam no palco do Teatro do Sesi, no monólogo Meu Quintal é Maior do que o Mundo.

Dirigido por Ulysses Cruz e encenado por Cássia Kis, o espetáculo é uma adaptação do livro feita pelo diretor e pela atriz, que se considera uma grande conhecedora e leitora do poeta e escritor nascido em Cuiabá (MT). Ao longo do monólogo, Cássia interpreta alguns trechos da obra, acompanhada de um fundo musical ao vivo, produzido por Gilberto Rodrigues, que ilustra a leveza e docilidade com que Manoel de Barros enxergava a vida.

A simplicidade da infância vivida pelo poeta, ao lado de seus familiares, é muito bem delineada no palco graças à seleção dos trechos mais marcantes da obra, à atuação de Cássia Kis, que dá vida, em cena, às palavras do poeta e aos objetos de cena e figurinos, que também facilitam a identificação de qual fase da sua vida Manoel de Barros se referia.

Um dos trechos memoráveis do espetáculo e que ajuda a traçar o perfil do poeta, principalmente para aqueles que não o conhecem, é como ele mesmo se descreve: um escovador de palavras. Fazendo alusão ao arqueólogo que escova o osso por amor à profissão, com o objetivo de encontrar nele vestígios das antigas civilizações – algo que ele descobrira depois, pois considerava tal atividade totalmente sem sentido – ele resolveu “escovar” palavras em busca dos clamores antigos guardados dentro delas, já que suas significâncias e oralidades são transformadas.

E, conforme o monólogo se desenrola, vamos adentrando neste rico universo literal de Manoel de Barros graças também ao talento de Cássia Kis, que o deixa transparecer no palco e se concretizar diante da plateia. Uma verdadeira brincadeira com as palavras que nos leva a apreciar as coisas simples da vida, como a natureza, e a refletir como a relevância de cada coisa e de cada palavra só é mensurada com base no grau de importância para cada pessoa. Além disso, palavras podem encantar muito mais pela sua capacidade de serem livres e de se combinarem num jogo imaginário do que pelo seu significado. E Manoel de Barros é a prova disso, não é à toa que seu quintal é maior do que o mundo.

Serviço:

Meu Quintal é Maior do que o Mundo

Quando: sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 19h

Onde: Teatro do Sesi: Av. Paulista, 1313, próximo à estação Trianon-Masp do Metrô

Quanto: Grátis

Reservas antecipadas pelo site www.centroculturalfiesp.com.br. Ingressos remanescentes são distribuídos no dia da apresentação, 30 minutos antes do início da sessão. Reservas abertas nas segundas que antecedem o espetáculo.

Até dia 24 de fevereiro de 2019

 

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