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Tropicália

 

Filme-documentário do diretor Marcelo Machado nos seus 90 minutos de duração aborda um dos mais importantes movimentos artísticos do país, surgido nos estertores da década de 1960, traçando um paralelo aos acontecimentos políticos da época, com foco nos seus precursores Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Com base numa profunda e trabalhosa pesquisa histórica em arquivos de jornais, revistas, shows e filmes, montado sobre uma sequência destes documentos com a produção executiva do consagrado diretor Fernando Meirelles, Tropicália se transforma numa romântica máquina do tempo, dando a oportunidade daqueles que testemunharam esse período histórico de reviverem as emoções, o desprendimento e o romantismo da música e da cultura popular brasileira, ao mesmo tempo que recordam as agruras do regime militar – ou despertando a consciência daqueles que, como eu, à época apenas uma criança, passavam à margem dos acontecimentos sem se aperceberem da gravidade e das consequências do momento histórico.

A meu ver, embora desprovido de grandes efeitos e do brilho comum aos filmes das grandes bilheterias, em virtude do material existente à época dos registros, a produção segue o pensamento exposto brilhantemente por Caetano na sua primeira aparição no filme, quando entrevistado pelos apresentadores portugueses: no exílio, perguntado sobre o sentimento anti-norte-americano demonstrado nas manifestações contra a ditadura militar, que ele não via a Tropicália como algo contra o americano, mas que em seu entender  devemos imitar aquilo que o povo dos Estados Unidos tem de mais positivo, ou seja, de valorizar sua própria história e cultura, num recado ao povo brasileiro.

A meu ver, embora desprovido de grandes efeitos e do brilho comum aos filmes das grandes bilheterias, em virtude do material existente à época dos registros, a produção segue o pensamento exposto brilhantemente por Caetano na sua primeira aparição no filme, quando entrevistado pelos apresentadores portugueses, no exílio, perguntado sobre o sentimento anti-norte-americano demonstrado nas manifestações contra a ditadura militar, que ele não via a Tropicália como algo contra o americano, mas que em seu entender que devemos imitar aquilo que o povo dos Estados Unidos tem de mais positivo, ou seja, de valorizar sua própria história e cultura, num recado ao povo brasileiro.

Embalados pelas canções de enorme movimento e musicalidade que se revezam com depoimentos de figuras proeminentes da cultura brasileira e fundamentais para seu crescimento, como Tom Zé, o artista Hélio Oiticica (1937-1980) e o cineasta Glauber Rocha (1939-1981), tive a oportunidade de assistir ao resgate de vídeos dos festivais da Record, a shows e entrevistas ligados ao histórico do movimento tropicalista e registros únicos como o do show happening de Caetano e Mutantes na boate Sucata, no Rio, e apresentação da Jovem Guarda, com Roberto Carlos. Além dos principais protagonistas Caetano e Gil, apresentações de Gal Costa, o filme foca com grande intensidade, como um marco para o movimento, a participação de Os Mutantes, com Rita Lee e os irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Batista, com as imagens divididas entre os anos de1967, 68 e 69.

Destaque para uma filmagem jamais divulgada, rara e sem igual do Festival da Ilha de Wight, no interior da Inglaterra, no mesmo ano em que tocaram artistas como Miles Davis, The Doors e Jimi Hendrix.

Na sessão a qual assisti, que contou com uma parte da grande equipe de produção, tive o privilégio de presenciar a abertura feita pelo diretor e duas produtoras do filme. Eles ressaltaram a importância do movimento para a construção da identidade da cultura nacional na música, cinema e artes plásticas.

E é isso que, a despeito de qualquer produção com o requinte dos grandes patrocinadores e da indústria cinematográfica, Marcelo Machado e sua equipe nos transmitem neste brilhante trabalho: mostrar o que a história e a cultura brasileira têm de mais rico. Vale a pena conferir e recordar – ou fazer uma viagem ao passado.
 
Por Sérgio Eduardo Nadur

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