SEGUNDA-FEIRA, OU A CELEBRAÇÃO DA INFÂMIA MODERNA

De quando em quando — mais frequentemente do que seria desejável num país ainda minimamente civilizado — a crônica degenera em sintoma. E como todo sintoma, sua irrupção diz menos sobre o evento em si do que sobre o estado de alma de uma civilização em decomposição. É segunda-feira. Dia da infâmia. Dia consagrado à aberração cultural, à esbórnia semântica e à irreverência bovina dos que, tendo perdido o senso da realidade, entregam-se ao gozo pueril de rasgar a lógica como quem rasga o véu do templo.
Pois é exatamente hoje, neste palco de miséria moral, que o cronista decide abolir o critério, estourar os caracteres como quem detona uma bomba em catedral gótica, e — pior ainda — errar na concordância de caso pensado, como quem comete sacrilégio por tédio ou rebeldia de ginásio. É o triunfo da vontade — não no sentido nietzschiano, mas no seu oposto caricatural: a vontade de dizer qualquer coisa, de preferência errada, com ares de virtude revolucionária.
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Começa-se com mesóclise. Por quê? Porque sim, porque é forma morta, zumbi verbal, e porque ressuscitá-la tem o mesmo charme sádico de citar Santo Tomás em congresso do PSOL. Logo após, enfileiram-se os vícios: o “sequer” sem negativa, a crase com refluxo gástrico, o abuso do ponto e vírgula como se fosse vírgula vestida para o baile da elite paulistana. Tudo isso regado ao dicionário de sinônimos — não por necessidade expressiva, mas por puro exibicionismo lexicográfico.
Fala-se da infância — claro. Sempre a infância. Esse álibi de alma torturada, onde se deposita toda a responsabilidade pela mediocridade adulta. E se não houver infância memorável, inventa-se uma. Se não for sua, que seja do Sting, ou de algum personagem obscuro lido na adolescência sob efeito de café ruim e pretensão literária. O importante é parecer autêntico — mesmo que à custa da verdade.
A crônica — essa entidade que já foi refinada, densa, impregnada de espírito e forma — vira desfile de vaidade grotesca. Escreve-se economia no caderno de cultura, como se a confusão semântica fosse ato de resistência. Serve-se a interesses inconfessáveis, a ideologias mal digeridas, com o mesmo zelo com que se compartilha meme em rede social. E se o leitor protesta, se a revisora aponta a sandice, resta ao cronista a reação típica do ignorante armado de diploma: mandar indireta com ares de gênio incompreendido.
A página vira zona. É Rubem Braga adulterado por paródia de TikTok, é Baudelaire traduzido por aplicativo de celular, é Aristóteles citado com erro de crase. A crônica, em seu estado terminal, torna-se não um gênero literário, mas uma necropsia em tempo real da alma nacional.
E quando tudo está perdido — quando já se figura simultaneamente na Errata, no Fórum dos Leitores e no Obituário — resta apenas alegar álibi. Acionar a OAB, citar Habeas Corpus com voz embargada, e aguardar o Suplicy chegar com um tapinha nas costas e um discurso sobre amor.
Hoje é segunda-feira. E, neste país, segunda-feira já não é o dia do trabalho: é o dia da maldade. Daquela maldade molenga, intelectualizada, performática — maldade de gente que nunca matou um frango, mas se acha subversiva porque desafia a gramática.
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Sobre o autor
José Fagner Alves Santos é jornalista (MTB 0074945/SP), formado em Letras. Mestre em Educação, Doutor em Literatura. Fã de Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese, Hunter Thompson, John Hersey e Eliane Brum. Faz um arremedo de jornalismo literário. Publica sempre às segundas aqui no Editoria Livre e apresenta o podcast que é publicado às quartas. Colabora com o Portal Café Brasil.
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