ENTRE O DINHEIRO E A CULTURA: O DESAFIO DE ERLANDIA SOUZA PARA MANTER O TAMANHO DO SÃO PEDRO DE IPIAÚ

Por: Thomas Leuri Souza
Existe uma diferença entre organizar uma festa e construir uma marca cultural.
A primeira depende de estrutura, planejamento e recursos.
A segunda depende de algo mais complexo: identidade, visão, sensibilidade e capacidade de transformar um evento em memória coletiva.
É exatamente nesse ponto que começa o maior desafio de Erlandia Souza à frente da Secretaria de Cultura de Ipiaú.
Ela assume uma das áreas mais observadas da administração municipal em um momento em que a cultura da cidade enfrenta uma discussão antiga: a concentração das expectativas culturais em torno de um único evento, o São Pedro.
Durante anos, o São Pedro deixou de ser apenas uma festa tradicional.
Ele passou a representar uma espécie de termômetro da política cultural do município.
Quando o evento funciona, a percepção é de uma cultura fortalecida.
Quando existem críticas, elas acabam ultrapassando os limites da festa e atingem a própria condução da área cultural.
Esse é o peso de uma marca construída ao longo do tempo.
O São Pedro de Ipiaú não começou agora.
Ele foi sendo construído, aprimorado e reconhecido ao longo de diferentes gestões.
Durante a administração da ex-prefeita Maria das Graças, o evento ganhou projeção, organização e identidade.
Parte dessa construção também esteve ligada ao trabalho do então secretário de Cultura Caio Braga, que participou da consolidação do São Pedro como um dos eventos de destaque do interior da Bahia.
A festa alcançou reconhecimento, recebeu premiações e passou a ocupar um espaço importante no calendário regional.
Mas o cenário atual é outro.
Maria das Graças não está mais à frente da prefeitura.
Caio Braga também não está mais conduzindo a Secretaria de Cultura.
E agora o desafio passa para Erlandia Souza.
Mais do que realizar um evento, ela terá que administrar uma expectativa.
Porque assumir uma secretaria depois que uma marca cultural já foi construída significa enfrentar inevitavelmente uma comparação.
A pergunta que surge no debate público não é apenas se haverá São Pedro.
É se haverá um São Pedro capaz de manter a força construída anteriormente e, principalmente, qual será a identidade dessa nova fase.
A gestão da prefeita Larissa Dias apresenta um argumento central: investimento.
Segundo a prefeitura, o São Pedro deste ano possui a maior captação de recursos da história do evento, chegando a aproximadamente R$ 3,5 milhões em recursos captados.
A administração destaca investimentos de diferentes fontes, incluindo recursos públicos, emendas parlamentares e parcerias privadas.
Também afirma que todo o processo foi conduzido dentro da legalidade, sem ressalvas ou recomendações do Ministério Público.
Esse dado precisa ser considerado.
Porque grandes eventos precisam de planejamento financeiro.
Sem recursos, dificilmente existe estrutura, contratação, organização e capacidade operacional.
Mas existe uma pergunta que vai além do orçamento:
Um grande evento cultural é construído apenas pelo tamanho do investimento?
Ou existe algo que o dinheiro sozinho não consegue comprar?
Porque uma festa pode ter grandes atrações.
Pode ter uma grande estrutura.
Pode ter um orçamento milionário.
Mas aquilo que transforma um evento em referência depende de outros elementos:
Curadoria.
Criatividade.
Conhecimento artístico.
Leitura cultural.
Capacidade de compreender o que uma cidade quer representar.
Cultura não é apenas colocar uma programação em um palco.
Cultura é construir uma experiência.
É criar pertencimento.
É fazer com que uma festa seja lembrada não apenas pelo nome dos artistas, mas pelo sentimento que deixou na população.
E esse talvez seja o maior desafio da nova secretária.
Não apenas administrar recursos, mas transformar recursos em uma proposta cultural.
Porque dinheiro viabiliza.
Mas visão define o resultado.
A formação e a experiência de quem conduz uma política cultural também entram nesse debate.
Caio Braga, por exemplo, tinha uma trajetória ligada à área artística, com formação em Artes Cênicas, elemento que dialoga diretamente com a construção de eventos culturais.
Isso não significa que formação, sozinha, determine uma boa gestão.
Mas mostra que cultura possui especificidades.
E que administrar cultura exige compreender que arte, público e identidade caminham juntos.
O São Pedro de Ipiaú está diante de um novo capítulo.
A questão não é apenas saber se a festa terá recursos suficientes.
A questão é saber qual será a visão por trás desses recursos.
Porque eventos passam.
Palcos são desmontados.
Estruturas são retiradas.
Mas marcas culturais permanecem quando conseguem criar significado.
Erlandia Souza terá diante de si o desafio de provar que o São Pedro pode continuar sendo uma referência não apenas pela dimensão financeira, mas pela capacidade de representar aquilo que Ipiaú tem de mais forte: sua identidade cultural.
No fim, o verdadeiro teste não estará apenas no tamanho da festa.
Estará na resposta para uma pergunta maior:
Ipiaú continuará apenas realizando um São Pedro ou continuará construindo uma história cultural?
