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Resenha: Um Pedaço de Madeira e Aço

Um Pedaço de Madeira e Aço é uma publicação da editora Pipoca e Nanquim do ano de 2018, tendo seu o roteiro e arte do francês Christophe Chabouté.

Quero iniciar ressaltando que a obra em questão possui duas peculiaridades que a tornam distinta de tudo que estamos acostumados no mundo dos quadrinhos. A primeira é a quase ausência de textos nas suas 340 páginas; a segunda é que, quase toda a narrativa é contada do ponto de vista de um banco de praça. Isso mesmo, como se um banquinho de praça parasse para nos contar suas memórias e vivências. Tais características dão um charme muito especial para a história.

A narrativa começa mostrando um casal de adolescentes num banquinho de praça, enquanto o garoto entalha, com um canivete, um coração com as iniciais dos seus nomes. Por descuido, ele ganha um corte profundo no dedo, e os dois saem em disparada. A partir de então, nos é apresentado o dia a dia do tal banquinho. Um cachorro que todas as manhãs vai fazer xixi no mesmo pé do banco; um empresário que sempre passa com pressa; um músico que sempre senta no banco acompanhado dum instrumento e do seu chapéu para receber moedas; um rapaz apaixonado que sempre marca encontros no banquinho; a mulher que senta para conferir o resultado de gravidez e que, tempos depois, leva o seu filhinho para brincar neste mesmo banco; um pobre morador de rua idoso que sempre vai dormir no banquinho. Enfim, histórias comuns de pessoas comuns, que ocorrem em todas as praças do mundo em qualquer época.

A narrativa se desenvolve revelando como cada uma dessas pequenas relações entre personagens e banco evolui com o passar dos anos. É mostrado que, mesmo no inverno, o cachorrinho vai fazer xixi no mesmo ponto; que o empresário continua passando por lá mesmo estando muito frio e que um casal de idosos continua sempre sentado no banco para dividir um doce, mesmo com neve. As passagens mostrando esse casal de idosos é, talvez, a mais tocante de toda a obra, com desfecho de encher os olhos d’água. Narrando os desfechos das pessoas que passam pela praça e do próprio banco, o final transmite uma sensação de conforto que nos é acompanhada por muito tempo.

Esta obra não é para apenas ser lida, mas assim como um bom vinho, foi feita para ser degustada.

Quando ouvi falar pela primeira vez de “Um Pedaço de Madeira e Aço” e fiquei sabendo que se tratava de um quadrinho com a quase ausência de textos, achei que seria algo parecido com um “book art” e que muito dificilmente teria uma história bem trabalhada. Eu não poderia estar mais enganado. Como diz o velho ditado, “uma imagem vale mais que mil palavras”, e nessa obra, o autor consegue a proeza de tornar as imagens mais valiosas do que mil palavras: valem sentimentos.

Quadrinhos, de uma forma bastante simplória, podem ser resumidos como uma fusão de arte sequencial (na qual figuras são colocadas em determinadas sequências para que assim narrem uma história) e textos. Diferente dos livros ilustrados, os quadrinhos dependem fortemente da interação entre arte e texto para que ideias e mensagens do autor sejam transmitidas. Em “Um Pedaço de Madeira e Aço”, o francês Christophe Chabouté consegue quebrar um paradigma e transmitir uma quantidade incrível de sentimentos e mensagens sem a necessidade de usar palavras.

A arte utilizada possui uma simplicidade impressionante, e mais impressionante ainda é a capacidade de transmitir o que alguém está pensando somente com o desenho dos seus olhos, da contração dos lábios, do franzir da testa. A qualidade da narrativa gráfica do autor é de causar espanto.

O enredo conta, de forma muito sutil, situações comuns a qualquer pessoa que costuma frequentar praças e seus bancos: crianças brincando, idosos descansando, casais namorando, músicos tentando ganhar a vida etc. O tema escolhido é bastante simples, mas torna-se extraordinário devido ao ponto de vista escolhido. Ao colocar um banco de praça como o personagem principal e, de certa forma, como “narrador mudo” da história, Chabouté mostra todo o seu talento e sensibilidade.

Essa história em quadrinhos causou-me bastante comoção e trouxe muita nostalgia. Na minha adolescência, fui muito incentivado por quatro tios a ler jornais e, todo domingo pela manhã, eu ia para a praça Ruy Barbosa, em Ipiaú-BA, para ler um jornal. Chegava sempre às 9 horas da manhã, comprava a edição do jornal “A Tarde” e levava cerca de duas horas para terminar. Nesse meio tempo, a missa na Igreja de São Roque findava e algumas famílias permaneciam na praça, algumas com suas crianças. Quando fui morar em São José dos Campos – SP, mantive o hábito e sempre ia ler no parque da cidade, onde várias pessoas iam aproveitar o dia, fazer caminhadas, praticar esportes, ler.

Nesses lugares, entre uma matéria e outra, sempre observei as pessoas que estavam por perto. Vi muitas sorrirem, chorarem, crianças caírem e ralarem os joelhos, pessoas brincando com seus cachorros, lendo… e sempre refleti sobre estas situações que via e qual a história de cada uma dessas pessoas. Revivi todas estas experiências ao ler “Um Pedaço de Madeira e Aço”.

Essa obra é uma poesia sem palavras.

Para quem gosta de ler algo leve e que transmita boas sensações, recomendo muito essa publicação. De preferência para ler tomando um bom vinho.

A edição consta como capa dura soft touch, verniz localizado, lombada redonda, fitilho marcador, 340 páginas e miolo com papel offset de alta gramatura. O preço de capa é de R$ 69,90, podendo facilmente ser achado com promoção.

 

Por Maxson Vieira

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