Resenha: L’obsolescenceProgrammée de Nos Sentiments (Obsolescência Programada de Nossos Sentimentos)

“Eu tinha quantos? 5 anos? Não, 6! Meu pai me levou ao cinema Riatto, onde eles passavam ’Branca de Neve e os sete anões’…. De todo o filme, eu só me lembro de uma coisa: A Bruxa Má. Ela me aterrorizava…

E agora, essa bruxa sou eu!”

 

Essa é uma publicação da editora francesa Dargaud, do ano de 2018. Tem roteiros do já conhecido belga Zidrou e arte da holandesa Aimée de Jongh.

A história começa apresentando seus dois protagonistas, a senhora Méditerranée Solenza de 61 anos, e Ulysse Varennes, de 59. Méditerranée está com a mãe muito doente no hospital e toda a família já espera pela sua morte. Enquanto isso, acompanhamos Ulysse no seu último dia de trabalho numa empresa de mudanças.

Juntamente com os dois personagens, são apresentados as frustrações e os medos que preenchem a cabeça dos dois.

Méditerranée, em sua juventude, foi uma mulher linda, modelo de grande sucesso. Com sua profissão, fez inúmeros desfiles, campanhas para grandes marcas e pousou para revistas masculinas. Com o passar dos anos, seu corpo foi se modificando conforme a idade foi chegando e a aparência jovial foi ficando para trás. Com isso, Méditerranée têm dificuldades para aceitar sua nova aparência. Com a morte da mãe, ela finalmente percebe que o tempo está passando e ela está velha. Chega a essa conclusão ao se olhar no espelho e lembrar de quando, aos 6 anos, fora ao cinema com seu pai e morrera de medo de uma bruxa. Ao ver sua imagem refletida, Méditerranée percebe que está com a mesma aparência da bruxa que tanto a amedrontou.

Momento em que Méditerranée lembra da Bruxa Má e percebe que está envelhecendo.

Ulysse é um homem duro, um tanto quanto rude, mas de muito bom humor. Ele se casou aos 18 anos com sua namoradinha da escola, mas ficou viúvo aos 45. Tiveram dois filhos. No entanto, a menina morreu aos 16 anos num acidente. Já o menino está vivo e se tornou médico. Ulysse acabou de perder seu emprego e sofre bastante com a solidão, preenchendo seu tempo assistindo a jogos de futebol, visitando seus antigos colegas de trabalho e, de vez em quando, visita uma prostituta. Apesar da solidão, não se sente tão velho. Percebendo que tem necessidade de um algo mais, Ulysse chega à conclusão de que precisa mudar de cidade para “fabricar novas lembranças”.

Momento em que Méditerranée e Ulysse se conhecem.

Os caminhos de Méditerranée e Ulysse se cruzam num consultório médico. Ela está lá para uma consulta com seu médico; ele está esperando o filho terminar de atender os pacientes. A diferença entre os dois fica nítida logo na primeira conversa quando ela, muito culta, oferece algo para ele ler. Ele, sem o menor pudor, responde que não se interessa por leitura. Graças à insistência e ao bom humor de Ulisse, eles se encontram mais algumas vezes e, para a surpresa dos dois e de seus familiares, se apaixonam e começam a namorar, mesmo com todo o contraste e preconceito. Preconceitos que vêm deles próprios, mas também das outras pessoas.

Esse trabalho trata de forma bastante sensível um tema raramente discutido: a perda paulatina da capacidade de se apaixonar conforme as pessoas envelhecem. É muito comum vermos pessoas na faixa etária de 18 a 30 anos começarem e terminarem relacionamentos, mas isso vai ficando cada vez mais raro conforme a idade vai passando. Qualquer bom observador provavelmente já percebeu o desinteresse de pessoas mais velhas por relacionamentos amorosos.

Ao ler esse quadrinho, lembrei-me de um fato que ocorreu no início dos anos 2000, na cidade de Ipiaú-BA. Uma professora da minha mãe, já com idade na casa dos 70 anos, começou um namoro com um antigo pretendente que, na sua juventude, lhe fora proibido pelos pais. Todo mundo achava muito bonito os dois passeando bem devagar e de mãos dadas. Certo dia, ao presenciar um destes passeios do casal, ouvi de uma tia: “Se apaixonar nessa idade é tão lindo quanto se apaixonar aos 15 anos”. Nunca me perguntei o porquê até ler L’obsolescence Programmée de Nos Sentiments.

Longe de tentar explicar ou achar os motivos para isso, esse quadrinho mostra algumas possíveis causas desse desinteresse. Preocupação com a família, preocupação com os negócios, medo de se desapontar nessa altura da vida, e o que parece ser o ponto chave para as mulheres: a insegurança com a aparência física. Todos sabem o quanto a mulher é cobrada para estar sempre magra, com o cabelo arrumado e pele lisa e sem rugas. Isso fica bastante claro quando Méditerranée vê sua imagem no espelho e quando surgem as inseguranças em se relacionar novamente. Como se ela achasse que não teria o direito de se permitir amar.

Outro ponto bastante interessante, mostrado no quadrinho, é a diferença de idade do casal. Frequentemente os homens são cobrados para se relacionarem com mulheres mais novas. Caso contrário, há grande estranhamento por parte da sociedade. Percebemos isso durante a festa de aniversário de Méditerranée, quando Ulisse dá uma boneca para ela, e uma mulher faz o infeliz comentário “Ainda se ela fosse mais nova que ele…”.

Festinha que Ulysse organizou para o aniversário de Méditerranée.

Com muitos temas delicados, o roteiro escrito por Zidrou é muito bom. Ele trabalha com bastante delicadeza as fraquezas e inseguranças dos personagens, bem como a (re)descoberta de suas emoções. Os personagens são muito bem construídos e a leitura é bastante prazerosa, graças à narrativa do autor. A história possui 144 páginas e, na minha opinião, poderia ser um pouco maior para que o desenvolvimento do casal fosse mais bem trabalhado. O final da história é um tanto quanto previsível devido à construção do roteiro.

A arte fica por conta da holandesa Aimée de Jongh e é belíssima. Seu traço simples e construções cuidadosas são perfeitos para o roteiro. A narrativa gráfica é ótima e, juntamente com a diagramação das páginas, torna a leitura fluida. Outro ponto positivo da artista é a escolha da paleta de cores. Tendendo para cores mais quentes, as cores causam certo conforto e empatia durante toda a leitura.

Gostei muito da leitura desse quadrinho, e indico a todos que gostam de sentar-se numa tarde chuvosa e ler uma boa história. Vamos torcer para que as editoras brasileiras voltem cada vez mais as atenções para os quadrinhos Franco-Belgas e tanto L’obsolescenceProgrammée de Nos Sentiments quanto outras obras tão boas quanto, sejam publicadas no Brasil.

A edição francesa da Dargaud possui 144 páginas coloridas, miolo off-White de alta gramatura, capa cartão e preço de capa de 19,99 euros, podendo ser adquirida em sites especializados.

Sobre o autor

Formado em Física, Mestre e Doutor em Engenharia Espacial / Ciência dos Materiais. Fã de J. R. R. Tolkien, José Saramago, Sebastião Salgado e Ansel Adams. Passou a infância e adolescência dividido entre Astronomia, quadrinhos, livros e D&D. Atualmente é professor do IFBA.


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