Resenha: Júlia, Aventuras de Uma Criminóloga 11 – Repouso Eterno

Resenha: Júlia, Aventuras de Uma Criminóloga 11 – Repouso Eterno

07/15/2021 0 Por Maxson Vieira

“A verdadeira doença dos velhos é a indiferença… indiferença da sociedade!”

Essa é uma publicação lançada no ano de 2020 pela Editora Mythos, que republica em formato original italiano, e periodicidade especial, as histórias da personagem italiana Júlia Kendall.

Esse volume possui roteiro do Giancarlo Berardi e a arte fica por conta do mestre Sergio Toppi, um dos maiores artistas do universo das histórias em quadrinhos.

A história começa de forma bem tranquila, mostrando o dia a dia num lar para idosos e a relação entre eles, mas logo surge um trágico e misterioso crime. Um dos velhinhos, Donald Ericson, foi morto, esquartejado e teve partes do seu corpo espalhado pelo terreno da casa de repouso. O crime, bastante chocante, chama a atenção da polícia e da imprensa. Sendo que, logo em seguida começam as investigações do assassinato. Em meio à grande movimentação no estabelecimento, por parte da imprensa e da equipe de investigação, os idosos aparentam tranquilidade e continuam as suas rotinas.

Durante as investigações ocorre a morte de uma enfermeira que trabalhava no local, e Júlia desconfia que os dois crimes possam estar interligados. Conforme o caso avança, é verificado que Donald não possuía inimigo nem envolvimento com o tráfico local, mas que possuía câncer em estado terminal e só viveria apenas mais alguns meses. Júlia descobre que o diretor do estabelecimento é casado, mas possuía um relacionamento com a enfermeira assassinada, e que esta ameaçava contar toda a história para a esposa dele. Mesmo com muito pouco indícios, Júlia consegue desvendar o assassinato do idoso e o final é surpreendente.

Essa é uma história muito comovente, principalmente para quem convive ou possui parentes e amigos idosos. Ao ter contato com pessoas com idade avançada não é difícil perceber que um dos seus maiores problemas é a solidão. Filhos criados já saíram de casa, o trabalho ficou para trás depois da aposentadoria, velhos amigos já se foram, e passeios são cada vez mais raros. Ao se verem sozinhos, há o sentimento de abandono e grande necessidade de atenção e contato humano.

No final dessa história, após elucidar o caso, uma personagem idosa, moradora da casa de repouso, faz uma pergunta à Júlia: “Mas, os jornais… vão continuar falando ou vão esquecer da gente?”. Isso reflete muito bem o sentimento de solidão vivido por idosos, e pode explicar alguns fatos da relação com nossos avós. Quem nunca conversou com um idoso que parecia nunca parar de falar? Seria isso uma forma de desabafar ao ganhar atenção de alguém? Depois de ler essa história, repensei a minha relação com meus avós e cheguei à conclusão que deveria ter lhes dado mais atenção. Mas o tempo não volta…

O roteiro é muito bem escrito pelo Giancarlo Berardi, e ele consegue transmitir de forma muito sutil a questão do abandono social dos idosos. É muito difícil, ao terminar a leitura, não refletir sobre nossas próprias ações em relação aos avós e pais.

Os desenhos são do gigantesco artista italiano Sergio Toppi que, mesmo um pouco desconhecido do público brasileiro, é um dos maiores ilustradores que os quadrinhos já conheceram. A narrativa gráfica é excelente e as expressões faciais descrevem muito bem o sentimento dos personagens, mas ficam abaixo do que o artista pode oferecer. O “padrão Bonelli”, de traços simples e bastantes sombras claramente exerceu grande influência nessa obra.

Para quem gosta de histórias de investigação policial ou uma trama com temática sensível, esta é um prato cheio.

Este volume contém 132 páginas em preto e branco, miolo em papel off-set e capa cartão, por preço de R$ 30,90, podendo facilmente ser encontrada em promoção em lojas especializadas ou no site da própria editora.

Por Maxson Vieira