Uma geração que insiste em se comportar como criança não pode exigir os benefícios de uma vida adulta

Imagem de Alexas_Fotos por Pixabay

Algum tempo atrás, nossos pais costumavam usar o termo “rebeldes sem causa” para se referirem à nossa natural rebeldia adolescente. Essa era a forma de dizer que não viam o menor sentido nas nossas reclamações. Ao nos chamar de rebeldes sem causa, insinuavam nossa incapacidade de decidir e deixar claro o que nos estava incomodando.

Em outras palavras, estavam a nos chamar de infantis. Os infantis têm, entre outras características, a ingenuidade e a imprecisão da fala. Mas nada disso é grande problema. Afinal, sem maiores preocupações com que lidar, os infantes passam seu tempo entre a diversão e a satisfação de suas necessidades básicas.

Nos dias atuais os jovens dispõem de uma gama significativa de objetos de diversão que vão desde os Smartfones e a enxurrada de redes sociais e toda sorte de aplicativos que os acompanha, aos shows de bandas coreanas de K-pop e a rentabilíssima avalanche de filmes de heróis.

Que adolescentes percam valiosas horas do seu dia atualizando status em redes sociais e compartilhando coisas supostamente engraçadas, mesmo que burras, dá para entender, afinal são indivíduos inexperientes, quase que irresponsáveis ainda, e possuem todo a vida pela frente.

Que meninos e principalmente meninas gritem e chorem em shows nos quais não conseguem compreender nada do que é dito nas músicas, geralmente cantadas por garotinhos com cabelos coloridos, com cara de meninas e gestos infantilizados, é algo aceitável. Afinal de contas, a minha geração e a sua também gostavam de bandas como Five, Backstreet Boys e Hanson, que à época nos pareciam incríveis, mas hoje sabemos que eram coisas bem tolas.

Que uma garotada que não tem paciência de ler nem legenda em filmes, e que, portanto, provavelmente nunca leu as revistas dos universos DC e Marvel fique encantada com as argumentações vagabundas presentes nos filmes feitos um após outro apenas com objetivo de alcançar bilheterias bilionárias, tudo bem.

Estranho é que pessoas que leram as revistas em quadrinhos e sabem das particularidades dos heróis e dos vilões, parecerem mergulhar num processo de idiotização, ao se deixar encantar por colchas de retalhos previsíveis e enredos “água com açúcar”.

Idiotização. Talvez essa seja a palavra.

Nos últimos anos popularizaram-se aqui no Brasil os eventos retrôs que vieram a ficar conhecidas como “Festas PLOC”. Trata-se de um bando de adultos que se reúnem em clubes ou estádios de futebol para assistir a apresentações de músicas de criança dos anos 80 e 90 regados de muita azaração e open bar.

Recentemente também surgiu pelas capitais do País a moda dos homens usarem shorts bem curtos, como aqueles que usávamos para jogar bola por volta dos anos 1970 e 1980. A diferença é que os shorts atuais contam com a decoração de personagens de desenhos animados como o Pateta, Mickey, Pato Donald e até o Bob Esponja, conhecido por falar que nem um imbecil.

Mais recentemente ainda a dupla Sandy e Junior decidiu comemorar os trinta anos do seu surgimento. Foi o início de uma histeria coletiva. Os ingressos vendidos, com preços variando entre R$ 200 e R$ 3.200, travaram sites de vendas, foram alvo de cambistas e esgotaram em questão de dias.

Sim. Estamos cada vez mais idiotas. Não porque gostamos de coisas de criança, mas por estamos fugindo das responsabilidades de adulto.

Não estamos nos tornando rebeldes sem causa. Nós simplesmente não estamos nem aí para as causas que poderiam fazer com que nos rebelássemos.

Não queremos confrontos reias. No máximo uma “tweetada” ou resposta mais ácida e reativa nos comentários do Youtube ou do Facebook, mas fora isso o que queremos é algo que nos anestesie o raciocínio.

Nosso comportamento sugere que estamos em fuga constante. Sabemos que existem questões complexas nos cercando por todos os lados e das quais não deveríamos fugir. Mas preferimos agir como criancinhas nos voltando para a diversão e a satisfação das necessidades básicas – comer, beber, trepar e celebrar.

Mas não somos crianças inocentes e por isso não deveríamos ser inconsequentes. Não deveríamos nos permitir ignorar as sequelas que nossas negligencias de hoje causarão amanhã.

Já passou da hora de deixarmos de lado a postura de menino birrento, que potencializa discussões tolas, e agirmos como adultos responsáveis pensando nos interesses da coletividade em vez de continuar vendo o mundo dividido entre direita e esquerda.

Afinal de contas, todos vivem no mesmo Brasil, e a miséria que multiplicarmos aqui, em algum momento, impactará de uma forma ou de outra a vida de cada um de nós.

Não dá para fingir que o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel está jogando Counter Strike ou GTA enquanto fala em “atirar nas cabecinhas”. Quando representantes do Poder Público insinuam que assassinar pessoas – independentemente de quem elas sejam – é a solução para alguma coisa, talvez seja indício de que estejamos caminhando para um destino perigoso.

Quando, sob argumentos medíocres, o Ministério da Educação corta orçamentos de Universidades e Escolas Técnicas Federais e nós não reclamamos, pode parecer que além de infantis, somos e estamos também predispostos à ignorância.

Se estamos nos deixando enganar com mais facilidade do que se estivessem a enganar uma criança, talvez já tenha passado da hora de comerçarmos a agir como adultos.

Se algo eminentemente prejudicará o futuro de nossos filhos, então temos de reclamar. Se nosso presidente nos envergonha publicamente, temos de incomodá-lo quanto a esse comportamento. Se estiverem prometendo e nos enganando, não podemos ficar chupando dedo.

Precisamos definir as causas de nossa indignação e nos rebelar.

Um rebelde com conhecimento de causa não se deixa manipular pela mídia oportunista. Ele sabe separar quais são as suas demandas das que são de interesse daqueles que estão acostumados a usar o grande público como massa de manobra.

Um rebelde com causa, não sairá pelas ruas simplesmente pedindo mudança. Ele dirá desde o primeiro momento que mudanças ele deseja. Ele não dirá apenas que quer fulano ou beltrano fora do poder, ele dirá claramente quem ele quer que venha substituir essa pessoa indesejável.

Se não agirmos como adultos, continuaremos a ser tratados como meras criancinhas, cujos desejos são manipulados pela vontade dos adultos. E nesse caso, os adultos são as poucas pessoas que possuem o poder de moldar nosso destino por meio de leis, emendas constitucionais e reformas mais diversas.

Saberemos que estamos nos rebelando da forma certa quando eles nos acusarem de balbúrdia, nos chamar de vagabundos ou nos rotularem como terroristas. Enquanto não os incomodamos eles nos tosquiam e nos matam quais ovelhinhas pacíficas. Só elas sofrem caladas.

Precisamos agir e logo. Mas primeiro, tracemos um plano, tenhamos uma meta, para não sermos enganados mais uma vez. Afinal, podem até nos chamar de rebeldes, mas jamais dizer que nos rebelamos sem causa.

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