O riso como forma de inteligência

É um lugar-comum afirmar que o humor é apenas leveza, mas a obra de Luis Fernando Verissimo mostra o contrário: rir é uma forma de pensar. O gesto que o distingue não é a gargalhada, mas a observação rigorosa que a antecede. Cada crônica sua parte da mesma fonte — a percepção atenta das incongruências do cotidiano.

O humor de Verissimo é a refutação mais vigorosa de um equívoco recorrente: a ideia de que ser sério exige ser sisudo. A sisudez, afinal, não é profundidade; é apenas a pose da profundidade. Verissimo sabia que o riso pode ser mais devastador do que a denúncia explícita, porque ao expor a fragilidade de um poder ou a ridicularidade de uma conduta, ele força o leitor a um tipo de reconhecimento imediato, que nenhum argumento moralizante alcançaria.

Uma crônica como a do drible — que parece falar apenas de futebol — revela, no fundo, a cartografia de hierarquias sociais e do frágil equilíbrio entre a vaidade e a sobrevivência. O campo, o drible, o chefe: símbolos de uma mesma dinâmica de poder, narrada com ironia e leveza, mas onde ecoa algo muito mais grave. Não é apenas o amor-próprio que está em jogo, mas a posição de um homem em relação ao outro.

É esse o mérito do humor literário: ele abre fissuras. Uma piada não é somente um desvio engraçado da norma; é a percepção de que a norma é, em si mesma, absurda. O humorista, nesse sentido, cumpre uma função crítica semelhante à do filósofo ou do ensaísta. Apenas o faz com outro instrumento — não o conceito, mas a surpresa.

Verissimo, como outros grandes mestres do humor, não é menor do que um moralista francês ou um satirista inglês. Sua herança é a de Molière, Swift, Machado de Assis: escritores que souberam que a ironia não é um ornamento, mas um método. Que o riso é uma via de acesso privilegiada à verdade.

O Brasil, tantas vezes pesado em seus dramas, teve em Verissimo um intérprete singular. Ele nos lembrou que a leveza pode ser uma forma de resistência. Que rir, quando bem pensado, é também um ato político. E que a clareza — aquela simplicidade cristalina de seus textos — não é sinônimo de ingenuidade, mas de inteligência rara.


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