O retorno do inevitável

Entre a nostalgia da autonomia perdida e a aceitação resignada da tutela externa, a crise venezuelana expõe os limites das narrativas latino-americanas sobre soberania em um mundo que não oferece saídas finais.

A sucessão de episódios envolvendo a Venezuela no início de 2026 — decisões judiciais nos Estados Unidos contra dirigentes do regime, a captura espetacular de aeronaves associadas a Nicolás Maduro, reações diplomáticas de Israel e o silêncio calculado de boa parte da América Latina — não constitui propriamente uma ruptura histórica. Trata-se, antes, de mais um capítulo de uma história marcada menos por viradas decisivas do que por retornos recorrentes. A ideia de que o continente teria superado o tempo das intervenções externas, consagrada simbolicamente após a derrota da Alca em 2005, revelou-se menos uma constatação empírica do que uma necessidade psicológica das elites políticas regionais.

O que os acontecimentos recentes sugerem não é o ressurgimento de um imperialismo clássico, tampouco a simples continuação de uma política de segurança norte-americana agora reembalada. Eles expõem algo mais desconfortável: a fragilidade das narrativas latino-americanas sobre autonomia, soberania e integração, construídas em um momento específico da ordem internacional e mantidas em funcionamento muito depois de suas condições de possibilidade terem se dissipado.

Durante os anos posteriores ao Não à Alca, consolidou-se a crença de que a retirada relativa dos Estados Unidos do continente era estrutural. A ascensão da China, a proliferação de fóruns regionais e a retórica da multipolaridade pareciam confirmar que a América Latina havia deixado de ser central para Washington. Essa leitura ignorava, no entanto, um traço persistente da política internacional: o interesse das grandes potências raramente desaparece; ele apenas se desloca, muda de intensidade e assume novas formas.

A Venezuela tornou-se o ponto de condensação dessas transformações. O fechamento progressivo do regime, o colapso econômico e o êxodo em massa não produziram apenas uma crise humanitária. Produziram também um vazio interpretativo. A esquerda latino-americana, que durante anos tratou o chavismo como símbolo de resistência, mostrou-se incapaz de elaborar uma explicação convincente para sua deriva autoritária. Ao mesmo tempo, a direita regional reduziu o problema a um expediente retórico útil para legitimar soluções de força, internas ou externas.

Nesse contexto, a intervenção norte-americana — direta ou indireta, jurídica ou militar, espetacular ou burocrática — encontra terreno fértil. Porque se insere em sociedades marcadas pela exaustão. A popularidade de discursos centrados na segurança, mesmo quando associados a custos humanos elevados, revela menos uma adesão ideológica do que uma renúncia gradual à expectativa de soluções políticas complexas. Quando a promessa de ordem se apresenta como o único horizonte inteligível, ela tende a ser aceita, ainda que venha de fora.

Há, nesse processo, uma ironia histórica difícil de ignorar. A derrota da Alca foi celebrada como o fim de uma forma de dominação econômica. Vinte anos depois, a reaproximação dos Estados Unidos ocorre sob outros pretextos: combate ao narcotráfico, controle migratório, acesso a minerais estratégicos, contenção de rivais globais. O conteúdo mudou, mas a assimetria persiste. A diferença é que agora ela se apoia menos em consensos ideológicos e mais em acordos fragmentários, negociados caso a caso, muitas vezes à revelia de qualquer projeto regional.

A reação tímida — quando não inexistente — das instâncias multilaterais latino-americanas reforça essa impressão. Fóruns criados para afirmar autonomia coletiva tornaram-se espaços de linguagem neutra, incapazes de nomear conflitos centrais. O silêncio não decorre apenas de prudência diplomática. Ele reflete a ausência de um diagnóstico compartilhado sobre o que a região é e o que pretende ser em um mundo no qual as antigas hierarquias não desapareceram, mas tampouco se organizam segundo os mesmos padrões do passado.

Há também um equívoco persistente na suposição de que a presença chinesa funcionaria como contrapeso automático à influência norte-americana. Essa expectativa projeta sobre a China um papel redentor que ela jamais reivindicou. Relações comerciais intensas não se traduzem necessariamente em garantias políticas, muito menos em proteção contra intervenções externas. A crença em um salvador externo, ainda que de sinal invertido, repete o mesmo erro intelectual: a recusa em reconhecer os limites estruturais da autonomia latino-americana em um sistema internacional competitivo.

O retorno dos Estados Unidos ao centro do tabuleiro regional não deve, portanto, ser interpretado como uma anomalia trumpista destinada a desaparecer com a próxima alternância de poder em Washington. Ele aponta para uma reavaliação estratégica mais ampla, na qual o continente volta a ser relevante por razões que combinam política doméstica norte-americana, disputas globais por recursos e a instabilidade crônica de seus próprios Estados.

Nada disso implica que a intervenção externa seja inevitável ou desejável. Mas sugere que a América Latina perdeu a capacidade de enquadrar os acontecimentos a partir de categorias próprias. O debate oscila entre a nostalgia de um anti-imperialismo já esvaziado e a aceitação pragmática de uma tutela que se apresenta como solução técnica para problemas sociais profundos.

Talvez a questão central não seja como resistir ou como aderir, mas como abandonar a ilusão de que a história oferece saídas finais. A política internacional, como a política doméstica, raramente progride por superações definitivas. Ela se move por rearranjos contingentes, quase sempre acompanhados de custos imprevistos. Reconhecer isso não produz conforto moral nem slogans mobilizadores. Produz, no máximo, uma forma mais sóbria de lucidez.

E, nas circunstâncias atuais da América Latina, a lucidez pode ser o recurso mais escasso.

Sobre o autor

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José Fagner Alves Santos é jornalista (MTB 0074945/SP), formado em Letras. Mestre em Educação, Doutor em Literatura. Fã de Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese, Hunter Thompson, John Hersey e Eliane Brum. Faz um arremedo de jornalismo literário. Publica sempre às segundas aqui no Editoria Livre e apresenta o podcast que é publicado às quartas. Colabora com o Portal Café Brasil.


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