O Leviatã Desarmado: o Estado, o crime e a ilusão da ordem no Rio de Janeiro

Rio de Janeiro (RJ), 01112025 – Parente das vitimas da operação contenção chegando ao Instituto médico legal (IML) pra fazerem reconhecimento dos corpos. Foto Joédson AlvesAgência Brasil

Há muito abandonei a crença, tão cara aos liberais e aos modernos, de que a história caminha em direção à razão, à ordem e à paz. A experiência humana me ensinou o contrário: a violência, o crime e o poder são formas recorrentes de organização social, e não acidentes que o progresso eliminará. Quando observo o que se passa no Rio de Janeiro — as operações policiais letais, a expansão do Comando Vermelho, o colapso moral das instituições — vejo não um desvio da civilização, mas uma de suas expressões mais nítidas.

O Comando Vermelho nasceu, paradoxalmente, de um projeto estatal. Foi nas prisões da Ilha do Governador, nas décadas de 1970 e 1980, que criminosos comuns foram colocados lado a lado com presos políticos. O resultado não foi a regeneração moral de uns, nem a conversão ideológica de outros, mas uma fusão perversa: o cálculo racional do crime fundido à disciplina política da guerrilha. Essa junção criou algo que o Estado, em sua cegueira, jamais entendeu — uma forma autônoma de poder. Enquanto os governos acreditavam que aprisionavam homens, esses homens aprendiam a criar um Estado paralelo.

Ao longo do tempo, o Comando Vermelho se expandiu como uma teia — uma rede horizontal, descentralizada, que sobrevive à morte de seus líderes e à destruição de seus redutos. O grupo opera segundo uma lógica que o próprio capitalismo ensinou: diversificação, fluxo, lucro e controle territorial. A droga é apenas o eixo de um sistema mais vasto de extração de riqueza: venda de internet, aluguel de imóveis, comércio de armas, cigarro pirata, grilagem. O crime aprendeu a ser empresa — e, como toda empresa, aprendeu a substituir o Estado onde ele se ausenta.

É irônico que as autoridades do Rio de Janeiro, ao declararem guerra a esse poder, imitem precisamente seus métodos. O Estado, que deveria ser o detentor legítimo da força, age como uma facção rival — improvisa, reage, mata. As operações no Jacarezinho, na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão, que deixaram dezenas de mortos, não produziram ordem; produziram espetáculo. Foram tentativas de exibir força num momento em que o Estado se tornara fraco. A política transformou-se em teatro sangrento: uma demonstração de poder destinada não a restaurar a lei, mas a assegurar votos e aplausos.

Não há nada mais perigoso do que um governo que acredita poder vencer o mal com tiros. O mal, já escrevi, não é algo a ser eliminado; é uma parte constante da condição humana. O crime não é um vírus externo à sociedade, mas um de seus produtos internos. Ao tratar as facções como forças exógenas, os governantes do Rio recusam-se a ver que a própria estrutura do Estado — desigual, ausente, corrupta — é o solo fértil onde o crime brota e floresce. A violência que eles combatem é, na verdade, a sombra do seu próprio fracasso.

O Comando Vermelho prospera porque entende o que o Estado esqueceu: que o poder nasce da presença. Nas favelas e nos bairros pobres, o Estado é uma ausência armada. Aparece apenas com helicópteros, caveirões e rifles. O crime, ao contrário, oferece o cotidiano — regula, pune, concede crédito, distribui justiça. É por isso que a repressão falha: porque o Estado intervém onde não habita. Cada incursão policial destrói algumas casas, mata alguns jovens, mas não destrói a rede, pois a rede é social, não apenas criminosa.

O governo de Cláudio Castro encarna essa tragédia em sua forma mais pura. Movido por cálculos eleitorais, transformou a política de segurança em uma coreografia de brutalidade. Cada operação mortífera é uma mensagem: “estamos agindo”. Mas agir, quando não se entende o inimigo, é apenas se expor ao ridículo. O Estado que mata para provar que existe demonstra apenas sua impotência. O poder público que precisa de cadáveres para afirmar autoridade é um poder que já perdeu qualquer legitimidade.

O resultado dessa política é previsível: o crime reage com métodos idênticos aos do Estado. Incendeia ônibus, bloqueia vias, paralisa a cidade. O Rio vive o absurdo de uma simetria moral: de um lado, o governo age como quadrilha; de outro, a quadrilha age como governo. É o que chamo de Leviatã desarmado — um Estado que mantém a aparência de soberania, mas que perdeu o monopólio da violência e, com ele, o respeito dos cidadãos. O crime e o Estado tornaram-se versões concorrentes do mesmo projeto: controlar pela força e sobreviver pela propaganda.

Muitos ainda acreditam que a saída está na repressão ampliada, no endurecimento penal, na promessa de “limpar as ruas”. É uma ilusão tipicamente moderna — a crença de que o mal pode ser extirpado pela técnica. O encarceramento em massa apenas fortaleceu as facções: as prisões transformaram-se em escolas de poder, e a punição em mecanismo de recrutamento. O que o Estado chama de controle é, na verdade, incubação. Assim nasceu o Comando Vermelho — e assim o governo continua a alimentá-lo, sem saber.

Não proponho utopias. Não creio que a violência possa ser eliminada, nem que uma sociedade sem crime seja possível. O máximo a que um Estado pode aspirar é administrá-la com prudência — conter o caos sem imitá-lo. Isso exige presença cotidiana, instituições reais, uma justiça que não apareça apenas quando há sangue nas ruas. Exige também reconhecer os limites da ação humana: governar não é purificar o mundo, mas evitar que ele desabe.

O Rio de Janeiro é hoje o espelho de uma verdade incômoda: onde o Estado se comporta como facção, a facção se comporta como Estado. A linha que os separa é moral, não militar. E quando essa linha é rompida — quando a barbárie é aceita em nome da ordem — já não há diferença entre o crime e o governo. A história do Comando Vermelho, nascida nas prisões, ampliada pelas favelas e consolidada pela incompetência estatal, não é um capítulo à parte da política brasileira. É a política brasileira em sua forma mais nua: poder sem legitimidade, violência sem fim.

O verdadeiro horror não está nos tiros disparados nas vielas, mas na convicção serena dos que acreditam que isso é governar.


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