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O Homem Que Passeia

“A pessoa que está presente, ali, na caminhada, é o mais próximo do que ela é de verdade.”

Essa HQ é uma publicação da editora Devir, que apresenta para os leitores brasileiros o autor japonês Jiro Taniguchi.

Esse mangá possui algumas características diferentes daquelas que estamos habituados a ver na maioria das obras japonesas encontradas aqui no Brasil. Em vez de ação e aventura, seu foco está na contemplação de pequenas coisas que cercam o dia a dia e sua consequente reflexão pessoal.

O Homem Que Passeia” retrata um homem (sem nome) de meia idade que tem como hábito caminhar pela cidade onde mora. Todos os dias ele percorre a pé o trajeto entre a sua casa e o trabalho de forma compassada, sem pressa e com bastante atenção para as situações que o cercam. Sem receio de se perder ou se atrasar, ele sempre muda a sua rota e percorre todos os tipos de ruas, travessas e caminhos alternativos por mais estranhos que pareçam. As situações que presencia durante esses pequenos passeios são as mais diversas possíveis e mostram quantas experiências e histórias pode haver em um pequeno bairro.

Um local à beira de árvores que se revela perfeito para a observação de pássaros, uma praça onde crianças saindo da escola sempre passam tocando flauta e um pequeno bosque perfeito para o descanso são exemplos do que o personagem encontra em seu caminho. Barzinhos, padarias e pequenos restaurantes se revelam como bons lugares para passar alguns momentos antes de um passeio noturno pelas ruas iluminadas ou para tomar um banho de chuva. Tudo isso é contado de forma muito leve e serena nas páginas desse mangá, que acaba de forma tão sucinta quanto começa.

Apesar de ser composto de várias pequenas histórias, uma em específico chama bastante a atenção e talvez sintetize todo o sentimento que o autor queria passar ao escrever e desenhar esta obra. O homem Que Passeia chega num rio que corta o seu bairro e percebe que não sabe nada sobre ele. De onde vem esse rio? Por que ele é tão limpo? São perguntas que o protagonista se faz enquanto anda pelas suas margens até encontrar um homem pescando. Ao perguntar qual tipo de peixe consegue pegar ali, recebe a resposta: “Sei lá… Não sei. Eu apenas gosto deste lugar. Num dia de sol lindo como hoje, finjo que estou pescando. Prefiro até não fisgar nada.”. Depois desta resposta, o Homem Que Passeia chega à conclusão que não tem qualquer motivo para se apressar.

Esse momento nos leva a refletir sobre o nosso atual ritmo de vida. Como se nos perguntasse: Qual foi a última vez que você deixou de olhar para o relógio? Qual foi a última vez que você deixou de se preocupar com o celular? Qual foi a última vez que você prestou atenção em si mesmo? E este é o sentimento que fica após ler essa obra, de não estar prestando a devida atenção às coisas que realmente são importantes.

Há muito tempo assisti a um episódio da série “Os Simpsons” que me chamou bastante atenção e que lembro sempre por causa de uma frase. Nesse episódio, o personagem Homer Simpson fala “As coisas pequenas e idiotas é que fazem a vida valer a pena”. Esta frase me acompanha deste então e é por isso que valorizo tanto atividades como a de me sentar à beira da praia, mergulhar no mar, tomar uma cerveja enquanto observo o por do sol, observar as estrelas, brincar com minha cachorrinha e dirigir sem pressa numa rodovia. Pequenas coisas que me fazem contemplar a existência e me conectar comigo mesmo.

Assim como o protagonista da edição aqui resenhada, eu também tinha o hábito de andar a esmo, descobrindo a cidade, principalmente pelo centro de São Paulo, e nesses momentos tinha a sensação de completa liberdade. O autor de “O Homem que Passeia” conta, numa entrevista disponível no final da edição, que gosta muito de caminhar e que, na sua opinião, “a pessoa que está presente, ali, na caminhada, é o mais próximo do que ela é de verdade”. Revela também que não vê nenhum cunho filosófico na prática da caminhada, mas dá a entender que enxerga nela um simbolismo que está relacionado aos caminhos que se escolhe na vida. Finaliza contando que busca sempre como corrigir as direções erradas que tomou na vida.

O roteiro é bem trabalhado e focado nas experiências subjetivas da leitura de cada pessoa. As histórias se assemelham a pequenos contos que retratam o quotidiano de um bairro e necessitam de uma “paz de espírito” e tranquilidade para serem lidas. A escolha de não revelar o nome do personagem é de uma sensibilidade muito grande, porque induz o leitor a se colocar no lugar do “Homem que Passeia”. Esse elemento narrativo interage muito bem com a arte.

A narrativa gráfica é muito bem feita, principalmente por usar de planos com a visão do personagem, e dar ao leitor a sensação de ele estar passeando e vendo as paisagens. O autor utiliza várias técnicas de desenho, como nanquim, retículas e fotografias, o que mostra sua versatilidade e torna a obra dinâmica com leitura bastante agradável. Em especial, destaco a composição dos cenários urbanos, sempre muito detalhados e usando muito bem as tonalidades de cinza.

Meu primeiro contato com os mangás que trabalham temáticas adultas foi através da autora Kan Takahama em “O Último Vôo das Borboletas”. Até agora, li obras como “Boa Noite PunPun”, “Marcha Para a Morte”, “Ayako” e agora “O Homem que Passeia”. É impressionante como os sentimentos e a contemplação da vida são bem trabalhados pelos autores japoneses. Sempre com bastante sutileza e frequentemente de maneira indireta, conseguem exprimir sentimentos comuns às pessoas de épocas e lugares totalmente distintos. Vou me atentar a mais obras como essas.

O Homem Que Passeia” é uma leitura perfeita para quem busca uma leitura reflexiva, num momento intimista com, talvez, um bom vinho e uma boa música. Mas não é para quem gosta de ler tudo de uma vez, sendo necessário um tempo para respirar e absorver as reflexões.

Com 244 páginas e capa cartão, tem preço de capa de R$ 65,00, mas sempre pode ser encontrada com desconto em lojas on-line.

Por Maxson Vieira

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