Monstros sem Mito
Em 2026, não é uma conspiração que acelera a história, mas o colapso das ilusões que nos protegiam da contingência.

Há momentos históricos em que os acontecimentos parecem abandonar qualquer cadência reconhecível. Em 2026, a sensação dominante é de compressão temporal: eventos que noutra época se distribuiriam ao longo de anos agora se acumulam em semanas. Escândalos políticos reaparecem como traumas nunca resolvidos; tensões geopolíticas insinuam guerras iminentes; mercados financeiros sobem e caem com violência quase teatral; democracias revelam impulsos autoritários; regimes autoritários sofisticam seus instrumentos tecnológicos. A mente contemporânea reage a essa aceleração como reagiu em outras épocas de vertigem: procura um autor oculto. Contudo, o impulso conspiratório não é sinal de lucidez; é sintoma de exaustão cognitiva.
Quando termos como “Nova Ordem Mundial” reaparecem na retórica de banqueiros centrais ou populistas nacionalistas, muitos imaginam estar diante de um código partilhado por iniciados rivais. A leitura é tentadora, mas enganosa. O que está em jogo não é um pacto secreto, mas a necessidade humana de nomear o caos como se fosse projeto. Herdamos do Iluminismo a crença de que o mundo obedece a arquiteturas racionais. Se há desordem, alguém a desenhou; se há crise, alguém a planejou. Essa suposição é reconfortante, pois preserva a ideia de que a realidade é inteligível e que o poder é unitário. Uma conspiração global, por mais sinistra que fosse, ainda seria uma forma de ordem. A alternativa — a ausência de centro coordenador, a colisão de sistemas complexos — é mais perturbadora.
O que chamamos de aceleração resulta de transformações estruturais acumuladas. A financeirização extrema converteu ativos em recipientes de ansiedade global, fazendo com que oscilações em commodities ou criptomoedas pareçam convulsões civilizacionais. A desintermediação digital aboliu amortecedores temporais entre evento e reação; o ciclo informacional não apenas relata fatos, mas intensifica-os, criando a impressão de ruptura permanente. A tecnologização da governança ampliou a capacidade administrativa de Estados e corporações, enquanto empresas competem por atenção e dados num mercado onde engajamento é capital. Nada disso requer uma cabala coordenadora; exige apenas reconhecer incentivos institucionais operando em escala planetária.
O conspiracionismo contemporâneo é, nesse sentido, um erro metafísico antes de ser um erro factual. Ele pressupõe que o mundo é conduzido por vontade consciente unificada. Mas a modernidade tardia caracteriza-se por fragmentação de poder, competição entre elites e instabilidade sistêmica. Na corrida tecnológica em torno da inteligência artificial, por exemplo, não se observa harmonia conspirativa, mas rivalidade entre empresas, Estados e investidores, cada qual respondendo a incentivos próprios. A concentração de poder emerge porque todos reagem às mesmas pressões estruturais.
A imaginação continua sendo campo decisivo de disputa em sentido cognitivo. Percepções moldam comportamento coletivo; expectativas movem mercados; narrativas orientam eleitorados. Plataformas digitais capturam atenção porque a atenção é monetizável, não porque iniciados ocultos manipulem vibrações metafísicas. O poder contemporâneo opera menos por segredo do que por saturação. Somos inundados por estímulos que comprimem reflexão e ampliam reação. A sensação de que “tudo está acontecendo ao mesmo tempo” é, em parte, produto dessa arquitetura.
Antonio Gramsci escreveu que, quando o velho mundo morre e o novo ainda não nasceu, surgem monstros. O erro comum é imaginar esses monstros como figuras demoníacas singulares. Na verdade, eles são formas híbridas: democracias com traços iliberais, economias de mercado dependentes de intervenção estatal massiva, tecnologias emancipadoras que ampliam controle. Não são arquitetos ocultos que produzem tais híbridos, mas transições históricas que dissolvem certezas antes de oferecer substitutos estáveis.
Há também um temor mais íntimo, de que tecnologias digitais e sistemas algorítmicos substituam a interioridade humana, convertendo pensamento em procedimento mecânico. Essa inquietação merece análise séria, mas não mística. Tecnologias moldam hábitos cognitivos; isso é empiricamente observável. Contudo, atribuir-lhes um projeto espiritual coeso é repetir o erro conspiratório sob outra forma. A técnica intensifica tendências já existentes — busca por eficiência, externalização da memória, preferência por conveniência — e não cria do nada um novo tipo de ser humano. Se nos tornarmos versões previsíveis de nós mesmos, não será por feitiço digital, mas por escolhas reiteradas em favor do conforto sobre a incerteza.
O que realmente está morrendo não é a civilização, nem a humanidade, nem uma ordem secreta substituindo outra. O que se dissolve é a confiança num modelo específico de estabilidade — a crença de que globalização, mercados autorregulados e progresso tecnológico garantiriam continuidade previsível. O colapso dessa narrativa produz vertigem, e a vertigem produz mitos. Conspirações são mitologias seculares: restauram significado onde há contingência.
A aceleração que sentimos é real, mas não é dirigida por mãos invisíveis no sentido esotérico. Ela resulta da convergência entre tecnologia que comprime o tempo, economias que amplificam risco, políticas que exploram ansiedade e culturas que perderam narrativa comum. Talvez a maturidade política consista em abandonar a fantasia reconfortante de que alguém — herói ou vilão — está no comando absoluto, e reconhecer algo mais austero: vivemos numa ordem emergente, não planejada, onde o poder é fragmentado e a estabilidade sempre provisória. Não é revelação apocalíptica, mas condição humana sob alta voltagem histórica.
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Sobre o autor
José Fagner Alves Santos é jornalista (MTB 0074945/SP), formado em Letras. Mestre em Educação, Doutor em Literatura. Fã de Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese, Hunter Thompson, John Hersey e Eliane Brum. Faz um arremedo de jornalismo literário. Publica sempre às segundas aqui no Editoria Livre e apresenta o podcast que é publicado às quartas. Colabora com o Portal Café Brasil.








