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Martin Mystère e Robert Johnson

 

(Resenha de Martin Mystère n°16 – Os Homens do Blues & n°17 – A Canção da Paz)

 

“Aqueles cantos e aqueles ritmos eram a manifestação do sentimento e da dor de um povo inteiro…

De fato, naquele momento, a única liberdade concedida aos afro-americanos era aquela de cantar o desespero deles… justamente com o blues.”

 

Essa história foi publicada pela editora Mythos e tem roteiros de Michelangelo La Neve com arte de Stefano Santarelli e Lucio Leoni

A história começa na África há alguns milhares de anos, onde alguns sábios procuram uma linguagem universal que fale aos corações das pessoas e as acalme. Eles descobrem que esta linguagem é a música, e uma em particular, usada para acalmar e ninar crianças, é utilizada para parar guerras. Avançando um pouco mais no tempo e espaço, agora nos Estados Unidos, a narrativa mostra que, durante a escravidão no século 19, os negros utilizam músicas dos seus antepassados para expressar os seus sentimentos, e elas acabam dando origem ao Blues e ao seu representante máximo o Robert Johnson.

Cortando para os nossos dias, uma grande manifestação contra o racismo está para acontecer em Nova York, e há grande preocupação para que não haja conflitos causados por grupos supremacistas. Martin Mystère está apresentando um programa, falando exatamente sobre a história do blues quando a ku klux klan (KKK) mata um bluesman. Ao terminar o programa, Martin recebe a ligação de um senhor chamado Big Bill Flower, falando que era amigo do Robert Johnson e que pode achar a famosa 30° composição do cantor. Tal música teria o poder de acalmar os ânimos das pessoas e, em especial, daquelas que estarão nas manifestações. Enquanto a KKK mata mais alguns velhos bluesmen, Martin e Java, acompanhados por Big Bill Flower partem de carro para o Mississipi em busca desta música misteriosa e nos mostram um pouco da alma e origem do Blues.

O roteiro dessas HQs é simplesmente de tirar o fôlego. O autor consegue transmitir de forma bastante lúdica e clara toda a importância do Blues para a comunidade negra dos Estados Unidos. Toda a história é bastante fluida e num ritmo frenético, a leitura dos dois volumes pode ser feita em pouco mais de uma hora.

Os desenhos são muito bem trabalhados, com bastante detalhes e explorando muito bem as sombras e o cenário.

Essa história, apesar de ter sido publicada originalmente no fim de 2003, nos traz um tema muito discutido e que infelizmente ainda é perpetuado em nossa sociedade nos tempos de hoje: o racismo. Ao terminar de ler estas 200 páginas, fica muito fácil perceber como funciona o racismo estrutural e como ele está presente em todos os níveis da sociedade. Uma pessoa branca tem muito mais facilidade de obter sucesso em sua carreira do que um negro, e o mundo musical não está fora deste contexto. Sou baiano e por várias vezes vi um cantor negro ser perpassado por alguém de pele branca. Como exemplo, temos a fantástica cantora Margareth Menezes. Nunca consegui entender como ela não consegue o mesmo sucesso e visibilidade que Cláudia Leite ou Ivete. Também demorei muito para entender por que o cantor Jauperí não é conhecido no Sul e Sudeste do país. Comecei a entender o porquê de casos assim acontecerem após estudar sobre o racismo estrutural. Tanto Margareth quanto Jauperí não têm o devido reconhecimento por causa do racismo estrutural que há na sociedade, onde o padrão estético e de qualidade são de pessoas brancas. E SIM, ele existe.

Quando ligamos a TV pra assistir a algum programa, sempre esperamos ver uma pessoa branca. Quando vemos um negro apresentando um programa sempre há impressão de que “algo não está certo”, e infelizmente esse é o racismo estrutural. Alguém acha que se Carlinhos Brown fosse branco, ele tomaria uma chuva de latinhas no palco do Rock in Rio em 2001?

O blues sofreu muito com o racismo nos Estados Unidos, e só foi conhecido e aceito pela sociedade americana quando esta passou a ouvir pessoas brancas tocando esse estilo, num nítido caso de apropriação cultural. O próprio B. B. King só teve reconhecimento após vários anos de carreira, quando Eric Clapton passou a falar dele nos palcos. A sociedade não queria ouvir um negro gordo cantar os problemas de seus irmãos. Outro exemplo é a Nina Simone ser quase esquecida e ignorada pelo grande público, enquanto a Janis Joplin é cultuada até hoje.

Todos estes temas são discutidos nestes dois volumes de Martin Mystèry, numa história muito bem escrita e amarrada. O roteirista ainda encontra espaço para brincar muito com as lendas que envolvem o Robert Johnson, o que torna essas duas edições indispensáveis para todos que gostam de literatura, quadrinhos e música.

Eles possuem capa cartonada, miolo em papel off-set e 100 páginas cada uma. Possuem preço de capa de R$ 28,90, mas podem ser encontradas em promoção com facilidade no site da editora ou em sites especializados.

 

Por Maxson Vieira

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