Ter consciência da posição que ocupa no mundo pode ajudar a canalizar melhor suas energias. Quanto maior o número de experiências vividas ou conhecidas, melhor será seu repertório interpretativo, e essa é a função da literatura.

Lá pelo meu terceiro ano de faculdade me vi conversando com uma colega sobre o livro Fausto, do alemão Johann Wolfgang von Goethe. Essa colega sempre demonstrava enorme sede de conhecimento. Estava vendo todos os filmes do Woody Allen, Pedro Almodóvar, Martin Scorsese e tutti quanti.

Para ser justo, ela também estava sempre acompanhada de um bom livro. Gostava da Lygia Fagundes Telles, Madô Martins e mais uma dezena de outras boas autoras e autores. Qual não foi minha surpresa ao ouvi-la perguntar se existia alguma adaptação do Fausto para o cinema. “Não é que eu esteja fugindo da leitura”, se apressou em explicar, “mas acho que daria um bom filme”.

Por melhor que seja a adaptação audiovisual de uma obra literária, o resultado provocará uma experiência diferente da leitura em si. Não faço aqui nenhum juízo de valor. Os dois recursos são muito importantes e cada um tem sua respectiva utilidade. Digo apenas que a capacidade da literatura em condensar qualquer experiência num signo verbal difere em muito da encenação desta mesma experiência para fins estéticos.

Novamente sou obrigado a repetir: não considero nenhuma dessas formas de expressão superior ou inferior à outra. Digo apenas que são métodos diferentes de contar uma história, com resultados que também diferem. A pergunta da minha colega me fez perceber que, mesmo para leitores experientes, o exercício de interpretação “solitária” nem sempre é a melhor opção.

Na maioria das vezes essa habilidade não tem nenhuma aplicação prática imediata. Sendo assim, para quê investir tempo e energia no seu desenvolvimento? Ainda mais quando há tantas outras coisas para fazer. Não trato dessa questão com ironia, muito pelo contrário. Acredito piamente que devamos ser pragmáticos. Eu não o fui. Hoje me arrependo profundamente, mas é tarde demais para reclamar. Resta tentar fazer uma limonada com os limões que me sobraram.

No entanto, quando saímos do campo mais imediatista fica fácil perceber que a ficção – não importa a mídia que esteja sendo utilizada – tem a capacidade de nos fazer experienciar situações que não seriam possíveis de outra forma. É assim que parte da nossa cosmovisão vai sendo formada. No contato com o diferente – aquele mesmo tipo que é evitado em tempos de mídias digitais – colocamos à prova nossas convicções, somos obrigados a desenvolver conceitos sobre os nossos valores e reavaliamos nossos dogmas. A literatura – e incluo aqui o cinema, as séries de TV e as histórias em quadrinhos – quando bem-feita proporciona tudo isso.

Você até pode abandonar a leitura daquele livro incômodo, mas ele já terá plantado a sementinha da discórdia, aquele bichinho que corrói suas certezas. As mídias sociais, por sua vez, reforçam esse isolamento em bolhas de pensamentos alinhados. E é aqui que entra a importância da leitura em si. O livro que você leu nunca será o mesmo livro que eu li. Cada um constrói sua própria interpretação tendo como base sua bagagem cultural. Quando vemos um filme, a história se descortina na tela à nossa frente. Quando lemos um livro é dentro da nossa mente que se forma o cenário da ação. Ambas são experiências válidas e complementares, não devemos abrir mão de nenhuma delas. Ocorre que, procurar o mesmo resultado criado por uma obra literária numa produção audiovisual pode resultar em algo frustrante. E a recíproca é verdadeira.

Tenho consciência de que sou um jornalista que jamais conseguirá transcender a posição periférica que ocupo, mas é exatamente por ter essa consciência que posso exercer melhor minha função. Devo isso à literatura.

 

José Fagner Alves Santos

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