JERÔNIMO X ACM NETO: O TABULEIRO DA BAHIA COMEÇA A SER MONTADO

Por: Thomas Leuri Souza
As eleições não começam quando a campanha oficialmente começa.
Na política, o jogo costuma ser construído muito antes dos grandes palanques, dos debates televisivos e das pesquisas eleitorais. Ele nasce nas articulações silenciosas, nas alianças municipais e nas redes de influência que se formam diariamente nos municípios.
Na Bahia, um dado pouco observado ajuda a compreender por que Jerônimo Rodrigues chega competitivo para a disputa pelo Governo do Estado em 2026: o resultado das eleições municipais de 2024.
As pesquisas mostram um retrato momentâneo.
As urnas municipais revelam uma estrutura.
E, na política, estrutura é poder.
A Bahia elegeu 4.593 vereadores distribuídos pelos municípios baianos. Espalhados pelos 27 territórios de identidade, esses representantes ocupam uma posição estratégica dentro da engrenagem política estadual.
São eles que conhecem a realidade mais próxima da população.
Conhecem as comunidades, as associações, os grupos religiosos, as lideranças locais e as principais demandas de cada região.
Antes de uma eleição para governador, existe uma rede municipal que conecta os candidatos estaduais ao cotidiano das pessoas.
Por isso, observar quem venceu a disputa pelas câmaras municipais ajuda a compreender quais forças chegam mais organizadas para a próxima batalha pelo Palácio de Ondina.
Uma eleição majoritária não depende apenas de popularidade.
Depende de presença.
Depende de articulação.
Depende da capacidade de transformar apoio político em mobilização territorial.
E é justamente nesse ponto que o cenário baiano apresenta um dado relevante.
O partido que mais chama atenção no mapa municipal é o PSDB.
Foram 925 vereadores eleitos, correspondendo a 20,1% do total da Bahia.
Mais do que o número absoluto, o que chama atenção é sua distribuição territorial.
O partido lidera em 18 dos 27 territórios de identidade, alcançando regiões estratégicas como Sudoeste Baiano, Chapada Diamantina, Sertão Produtivo, Recôncavo, Portal do Sertão, Sertão do São Francisco e outras áreas importantes do interior.
Em alguns territórios, sua presença se torna ainda mais expressiva, mostrando uma capilaridade que ultrapassa a concentração nos grandes centros.
Mas o mapa político não é formado por um único partido.
Ele é construído por alianças.
O núcleo principal da coalizão governista reúne siglas como PSDB, Avante, PT, MDB, PCdoB e PV.
Juntos, esses partidos somam 2.439 vereadores eleitos na Bahia.
Quando ampliamos a análise para um campo governista mais amplo, incluindo outras legendas aliadas, o número chega a 2.952 vereadores.
Isso representa 64,3% da representação municipal baiana.
Na prática, significa uma presença territorial espalhada por grande parte do estado.
E política, especialmente em eleições estaduais, também é uma disputa por território.
É nesse ponto que aparece o desafio de ACM Neto e do campo oposicionista.
A oposição mantém força relevante em Salvador e em alguns polos regionais, mas apresenta uma dificuldade maior na construção de uma presença municipal mais ampla.
O União Brasil lidera territórios importantes, especialmente ligados à Região Metropolitana de Salvador e algumas áreas específicas do interior.
O PP também preserva espaços estratégicos.
Já o PL, partido associado ao campo político de Jair Bolsonaro, elegeu 62 vereadores em toda a Bahia, aproximadamente 1,35% do total.
Os números não determinam sozinhos uma eleição para governador.
Seria uma simplificação afirmar isso.
A política não funciona apenas com matemática eleitoral.
Economia, avaliação dos governos, conjuntura nacional, comunicação política e comportamento do eleitor também pesam na decisão final.
Mas ignorar essa base seria igualmente equivocado.
Porque o poder político possui uma geografia.
E essa geografia começa nos municípios.
A disputa entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto em 2026 será também uma disputa pela capacidade de transformar presença territorial em força eleitoral.
O governo chega com uma rede municipal construída e distribuída por diferentes regiões.
A oposição chega competitiva, especialmente em grandes centros e polos estratégicos, mas terá o desafio de ampliar sua presença para reduzir uma vantagem construída ao longo dos últimos anos pelo grupo governista.
Antes dos grandes discursos, existe o trabalho silencioso das alianças.
Antes do voto, existe o território.
Antes da eleição estadual, existe a eleição municipal que ajudou a desenhar o mapa do poder.
O tabuleiro de 2026 ainda não terminou de ser montado.
Mas as peças já começaram a ocupar seus lugares.
E, na Bahia, a próxima disputa pelo Palácio de Ondina será travada não apenas nos palanques, mas principalmente na força política construída dentro de cada município.
