Press "Enter" to skip to content

Itanhaém: o casario é arte

Regina Helena Vieira Santos

 

Alfredo Volpi, 1949, CASAS na Praia (Itanhaém). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020.
Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra2831/casas-na-praia-itanhaem>. Acesso em: 18 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7

…ocupando a parte mais enxuta, isto é, a restinga propriamente dita, a 4 metros de altitude, corresponde à parte central da cidade; é justamente o trecho representado pelo casario velho, parede contra parede, renteando a calçada, formando as duas ruas antigas e o largo da Matriz, e que, à maneira das restingas, nasceu no sopé do outeiro do Convento. Ainda hoje é o trecho que guarda os vestígios da Itanhaém do passado; o homem pouco o modificou, desde que o construiu” (ARAÚJO FILHO, 1950, p.4).

 

O Casario, situado no centro histórico constituído dos monumentos: Casa de Câmara e Cadeia, Igreja Matriz Sant´Anna, o Conjunto Arquitetônico das Ruínas do Convento e Igreja de Nossa Senhora da Conceição, possui nove casas térreas construídas no alinhamento das vias públicas e paredes laterais nos limites do terreno, características da arquitetura urbana do período colonial. No levantamento arquitetônico e métrico feito pela autora em 2005[1], foi encontrado em algumas casas paredes ainda de pau-a-pique. Técnica construtiva que utiliza madeira e barro, é feito uma espécie de treliça com preenchimento de barro. Era utilizada no litoral, principalmente em paredes internas e em alguns casos nas externas. Em algumas das casas foi visto paredes com fundação de pedra, material construtivo mais comum nessa região.

Quanto a tipologia todas as casas possuem terreno[2] com frente estreita e grande comprimento, estão implantadas no alinhamento da via. A unidade do conjunto decorre dos padrões estabelecidos nas Cartas Régias e posteriormente os Códigos de Posturas, eram exigências para as fachadas regulamentando as dimensões e número de aberturas, altura dos pavimentos e o alinhamento com as edificações vizinhas, observa-se que as plantas também possuem certa uniformidade. Para a rua está o ambiente de receber, ou loja; para os fundos estão ambientes de estar, cozinha, também denominada varanda; ligadas por um corredor lateral para onde se encontram as alcovas (espaço de dormir) que possuem sobre as portas as bandeiras (para ventilação) por onde é feita a circulação interna.

A maioria dessas casas possuem apenas uma porta e uma janela para a rua, segundo Rocha Filho chamadas de casas de “porta e janela”. As casas com duas janelas e corredor lateral são denominadas de casas de “meia morada”, quando o corredor é central são nominadas casas de “morada inteira”, expressões correntes na arquitetura colonial brasileira[3]. O telhado de todas as casas é com duas águas, sendo um caimento para a rua e outro para o fundo do lote. Outra característica é o chão batido, visto em algumas das casas que estavam sendo reformadas. Porém, deixaram de ser utilizadas como vitrines culturais mostrando informações sobre as técnicas construtivas do período colonial, para ser colocado piso frio. Outro acabamento usado para o piso é o assoalho, comum em sobrados, que neste casario não há.

O casario foi tema do artista plástico Alfredo Volpi[4] (LUCA-IT, 1896 – São Paulo-BR, 1988) quem no começo da carreira teve uma produção figurativa, destacando-se marinhas executadas em Itanhaém/SP. Foi integrante do Grupo Santa Helena na década de 1930. Na passagem da década de 1940 para os anos 1950, a têmpera confere à sua pintura uma textura rala, como em Casa na Praia – Itanhaém. Assim, o caráter construtivo de sua pintura se confirma entre os planos das fachadas, telhados e paisagem.

Marinha, Alfredo Volpi. Fonte: https://www.ebiografia.com/alfredo_volpi/
Marinha 2, Alfredo Volpi. Fonte: https://www.ebiografia.com/alfredo_volpi/
“Paisagem de Itanhaém”. Década de 1940. Artista Alfredo Volpi (1896-1988). FONTE: http://jornal.usp.br/cultura/os-modernos-voltam-a-se-encontrar/
“Itanhaém”. Década de 1940. Artista Alfredo Volpi (1896-1988).

Outra artista que frequentou a cidade de Itanhaém é Anita Malfatti  (1889-1964)[5] registrou em suas obras: cenas de praia, barcos de pescadores no Rio Itanhaém, além das duas igrejas na praça histórica, com um traço moderno e inovador. Após estudar em Berlim, fez uma mostra em 1914 na Casa Mappin em São Paulo, em 1915 vai para Nova Iorque, continuar os estudos de arte. Ao retornar em 1917 realiza uma mostra, com apoio de amigos como Di Cavalcanti, foi muito criticada pela imprensa, Monteiro Lobato que na época era crítico de arte no jornal O Estado de São Paulo, escreveu o artigo intitulado “Paranoia ou mistificação?“, foi um estopim para o Movimento Modernista no Brasil. Participa da Semana de Arte Moderna de 1922, integrou ao lado de Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti De Picchia, o Grupo dos Cinco. Em seus manuscritos feitos no papel timbrado do Hotel Pollastrini, sem data, ela esboçou o que falaria na conferência feita na Pinacoteca do Estado de São Paulo, no dia 25 de outubro de 1951, “A chegada da arte moderna no Brasil”, segue a transcrição de trechos:

Ao terminar os estudos no Mackenzie College, fiquei pensando em viajar para estudar pintura […] Minhas colegas, as mais chegadas, todas casando-se muito moças, não entendiam meu desejo – tinham pena de eu não pensar em casamento… Uma ideia martelava minha cabeça – ‘Você vai mais é para Europa estudar pintura…’” (…) Tio Jorge fez uma recomendação: ‘nunca aceite o mediocre’…”; após descrever a viagem, as suas experiências, fala do “grande professor” Ernst Bischoff-Culm (…): “Aí foi que procurei obter o máximo do efeito no mínimo da forma e da cor. (…) A pintura, como a escultura é o resultado de muita inspiração, que é sempre o fator mais importante”. Ao retornar para o Brasil, continua: “… minha família e os amigos estavam curiosos para ver os meus trabalhos. Mas, que efeito! Ficaram desapontados e tristes. Meu tio, Dr. George Krug, que tanto interesse teve na minha educação ficou aborrecido: isto não é pintura, dizia ele, são coisas dantescas[6].

“Rio Itanhaém”, vista do Hotel Pollastrini e a Igreja Nossa Senhora da Conceição no topo do morro, na paisagem, c. 1942. Assinado pela artista Anita Malfatti (1889-1964), aquarela, da Coleção Bety Malfatti. Em BATISTA, 2006, p.429.

“Itanhaém”, c.1948/49, vista do centro histórico, um franciscano descendo a ladeira em direção ao Cruzeiro, de Anita Malfatti (1889-1964). Fonte: Coleção Particular.
“As duas igrejas”, c.1940, no topo do morro em destaque na paisagem a Igreja e Convento Nossa Senhora da Conceição, na parte baixa a Igreja Matriz Santana de Itanhaém, no centro histórico, da artista Anita Malfatti (1889-1964). Fonte: Coleção Particular.
Vista do casario. Fonte: Acervo particular.
Vista da localização do casario, observar a volumetria dos telhados a sua direita. Fonte: Acervo da autora
Foto aérea do Centro Histórico de Itanhaém, assinalado o casario, 1997. Fonte: BASE Aerofotogrametria.
Vista de oito das casas que compõem o casario, 2006. Fonte: Acervo da autora.
Vista da nona casa que compõe o casario, ambas as fotos de Janeiro de 2006. Fonte: Acervo da autora.
Vista da implantação do casario, 2006. Fonte: Acervo da autora.

Vista atual do conjunto, 2006. Fonte: Acervo da autora.
Desenho elaborado em 2006 baseado nas fotos antigas encontradas. Fonte: Acervo da autora.
Vista CASA 10, 2006. Fonte: Acervo da autora.
Desenhos da planta da casa, elevação atual e proposta 2006. Fonte: Acervo da autora.
Vista CASA 1, 2006. Fonte: Acervo da autora.
Desenhos da planta da casa, elevação atual e proposta 2006. Fonte: Acervo da autora.
Vista CASA 11, 2006. Fonte: Acervo da autora.
Desenhos da planta da casa, elevação atual e proposta 2006. Fonte: Acervo da autora.
Vista CASA 17, 2006. Fonte: Acervo da autora.
Desenhos da planta da casa, elevação atual e proposta 2006. Fonte: Acervo da autora.
Vista CASA 21, 2006. Fonte: Acervo da autora.
Desenhos da planta da casa, elevação atual e proposta 2006. Fonte: Acervo da autora.
.
Vista CASA 27, 2006. Fonte: Acervo da autora.
Desenhos da planta da casa, elevação atual e proposta 2006. Fonte: Acervo da autora.
Fachada da CASA 27, alvenaria de pau-a-pique. 2006. Fonte: Acervo da autora.
Obra sendo realizada em 2006, possivelmente a parede foi substituída por alvenaria de tijolos, como se vê o material empilhado. Fonte: Acervo da autora.
Pormenor da técnica construtiva em pau-a-pique, 2006. Fonte: Acervo da autora.
Vista CASA 31, 2006. Fonte: Acervo da autora.
Desenhos da planta da casa, elevação atual e proposta 2006. Fonte: Acervo da autora.
Vista CASA 35, 2006. Fonte: Acervo da autora.
Desenhos da planta da casa, elevação atual e proposta 2006. Fonte: Acervo da autora..
Vista Atual CASA 45, 2006. Fonte: Acervo da autora.
Vista Atual CASA 45, 2006. Fonte: Acervo da autora.

 

[1] O levantamento foi feito pela autora para o trabalho da disciplina de pós-graduação AUH-5807, Técnicas Construtivas da Arquitetura Tradicional Paulista, lecionada pelo professor Dr. Carlos Alberto Cerqueira Lemos em 2005.

[2] A largura desses terrenos é, em geral, múltiplo de 2,20m variando comumente entre 4,40m e 11,00m, pois, sendo edificados em taipa de pilão, a medida do próprio taipal – uma braça de comprimento – serviu de módulo. A largura correspondente a três taipais foi chamada de lanço, aparecendo vez por outra a expressão “lancinho” para designar meio lanço ou a largura de apenas uma braça ou duas braças. (ROCHA FILHO, 2005)

[3] ROCHA FILHO, 2005, p.5.

[4] https://www.ebiografia.com/alfredo_volpi/

[5] https://www.ebiografia.com/anita_malfatti/

[6] Acervo do IEB – Instituto de Estudos Brasileiros: Manuscrito da coleção Anita Malfatti, AM-02.02.0011, como um diário, sobre a semana de Arte Moderna de 1922 por Anita Malfatti é no papel timbrado do hotel Hugo Pollastrini na cidade de Itanhaém, sem data.

BIBILOGRAFIA

ALFREDO Volpi. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em:

<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1610/alfredo-volpi>. Acesso em: 20 de Mar. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7

 

ANITA Malfatti. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em:

<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa8938/anita-malfatti>. Acesso em: 20 de Mar. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7

 

ARAÚJO FILHO, José Ribeiro de. A “Vila” de Itanhaém. Geografia Urbana.  São Paulo: Boletim Paulista de Geografia, n.6, 1950.

http://www.agb.org.br/publicacoes/index.php/boletim-paulista/article/view/1385, acessado 18/11/2020.

BATISTA, Marta Rosseti. Anita Malfatti no tempo e no espaço: Biografia e estudo da obra./Catálogo da obra e documentação. São Paulo: Editora 34/EDUSP, 2006.

CALIXTO, Benedito. Capitania de Itanhaém. Revistado Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, São Paulo, vol. 20,1915.

CORONA, Eduardo e LEMOS, Carlos. Dicionário da arquitetura brasileira. EDART, São Paulo, 1972.

ETZEL, Eduardo. Arte Sacra Berço da Arte Brasileira. Melhoramentos, São Paulo, 1983.

FEIFFER, Cesare. La conservazione dele superici intonacate. Il método e lê tecniche. SKIRA, Milão, 2000.

FURRER, Bruno; ADONIAS, Isa (orgs); Mapa – Imagens da Formação Territorial Brasileira; Rio de Janeiro: Fundação Emilio Odebrecht, 1993.

GERODETTI, João Emílio e CORNEJO, Carlos. Lembranças de São Paulo – O litoral paulista nos cartões postais e álbuns de lembranças. Solaris Edições Culturais, São Paulo, 2001, págs.160-162.

, José Carlos. Itanhaém, Histórias & Estórias. Edições Loyola, São Paulo, 1995.

KANAN, Maria Isabel Corrêa. CAL. Coletânea de Textos e Artigos. São Paulo.

KOCH, Wilfried. Dicionário dos estilos arquitetônicos. Martins Fontes, São Paulo, 1998.

LELIS, Antonio Tadeu de. Biodeterioração de madeiras em edificações.  Instituto de Pesquisas Tecnológicas, São Paulo, 2001.

LEMOS, Carlos A. C., Casa Paulista, Edusp, São Paulo, 1999.

LEMOS, Carlos. Desenhos preciosos do litoral paulista. Folha de São Paulo, “Caderno de Domingo”, 27 de março de 1977.

OLIVEIRA, Mario Mendonça de; Tecnologia da conservação e da restauração – materiais e estruturas; EDUFBA, Salvador, 2002.

POPP, José Henrique. Geologia Geral.

SOUZA, Marli Nunes de, ALVES, Caleb Faria e CHIARELLI, Tadeu. Benedito Calixto: um pintor a beira mar. Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto, Santos, 2002.

TEXEIRA, Gabriela de Barbosa e Belém, Margarida da Cunha. Técnicas tradicionais de construção. Diálogos de edificação. CRAT – Centro Regional de Artes Tradicionais, Porto, 1997.

TEIXEIRA, Wilson; TOLEDO, M. Cristina Motta de; FAIRCHILD, Thomas Rich; TAIOLI, Fabio (organizadores); “Decifrando a Terra”; Oficina de Textos, USP, São Paulo, 2000

TOLEDO, Benedito Lima de. O real corpo de engenheiros na capitania de São Paulo. João Fortes Engenharia, São Paulo, 1981

Fontes Primárias:

Acervo do IEB – Instituto de Estudos Brasileiros: Manuscrito da coleção Anita Malfatti, AM-02.02.0011, como um diário, sobre a semana de Arte Moderna de 1922 por Anita Malfatti é no papel timbrado do hotel Hugo Pollastrini na cidade de Itanhaém, sem data.

Acervo do IPHAN, 4o Distrito.

Acervo do CONDEPHAAT, São Paulo.

  • CASAS na Praia (Itanhaém). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra2831/casas-na-praia-itanhaem>. Acesso em: 18 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia, ISBN: 978-85-7979-060-7. Obra do Acervo do MAC-Museu de Arte Contemporânea.

Be First to Comment

Deixe uma resposta