Exu abre os caminhos da literatura: lançamento do livro “Filho de Angorô” se transforma em ato político e devolve visibilidade às vozes do candomblé.

A noite de 2 de outubro não foi comum em Ipiaú. O relógio marcava 18 horas quando os primeiros atabaques começaram a soar na Praça Ruy Barbosa. O vento parecia carregar algo mais que som — trazia memória. Ali, no coração da cidade, o lançamento do livro “Filho de Angorô: A História de Pai Naldo”, de Thomas Leuri Barbosa Souza, publicado pela Editoria Livre, de São Paulo, sob edição do jornalista José Fagner, tornou-se um marco não apenas literário, mas histórico e espiritual.
O evento integrou o Festival Literário do Médio Rio das Contas (Fest Contas), mas rapidamente ultrapassou a fronteira de um lançamento comum. Pai Naldo chegou acompanhado de quarenta filhos de santo, vestidos de branco, firmes no gesto e na fé. O barracão se fez praça. A praça se fez terreiro.
Entre o sagrado e o documental

O livro, de gênero documental, reconstrói a trajetória de Pai Naldo, sua luta e suas conquistas, entrelaçando a biografia pessoal à luta coletiva das religiões de matriz africana. A obra também aborda o projeto de lei 010/2021, de autoria do então vereador Ivonilton do Bairro Novo, que buscava nomear o espaço público no bairro Euclides Neto como “Praça dos Orixás” — um gesto simbólico de reconhecimento que, em si, já carrega a luta pela visibilidade.
Em pouco mais de uma hora, todos os exemplares foram vendidos. A praça, tomada por aplausos e cânticos, testemunhou o nascimento de uma obra que mistura literatura e memória, fé e resistência.

A voz que narra o invisível
Thomas Leuri, que se define como “O escritor das Narrativas Invisíveis”, explica o sentido de seu trabalho com uma frase que se tornou sua marca:
“Eu não sou eu, eu sou nós.”
Essa é a essência que atravessa o livro. Thomas não escreve apenas sobre um pai de santo — escreve sobre um povo inteiro, sobre uma história que por séculos foi contada por outros. Sua escrita é jornalismo que se recusa à neutralidade do esquecimento; é literatura que carrega corpo, ritmo e voz.
A praça como altar

Quando o público se despediu, a noite parecia ainda pulsar. No ar, permanecia o cheiro do dendê, o som dos atabaques e a certeza de que algo havia mudado. O espaço público se reconfigurou: o livro transformou a praça em altar, a fé em palavra, e a palavra em resistência.
Filho de Angorô: A História de Pai Naldo não é apenas uma biografia — é um documento da memória afro-brasileira. É o gesto de um povo escrevendo sua própria história, com tinta, tambor e axé.
E, ao final, a sensação é de que Exu abriu não apenas os caminhos daquela noite, mas também os da literatura que escolhe dar voz ao que, por tanto tempo, foi invisível.
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Sobre o autor
Estudante de Letras pela Universidade Estadual da Bahia, Thomas Leuri Souza desenvolve sua paixão pela construção de narrativas transformadoras. Criador do podcast "Narrativas Invisíveis", oferece um espaço para histórias marginalizadas e promove diálogos sobre diversidade e inclusão. Também é artista, apaixonado por sua própria arte e pelo audiovisual, combinando sua sensibilidade criativa com um olhar crítico e apurado. Transforma suas dores e as dores alheias em arte, conectando sensibilidades e revelando a riqueza das vivências humanas.










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