O MAPA DA VIOLÊNCIA TEM CEP BAIANO — Thomas Leuri Souza

 

harge editorial sobre a violência na Bahia, com a bandeira do estado ao fundo e o mapa baiano destacando municípios entre os mais violentos do Brasil segundo o Atlas da Violência 2026.
Charge produzida para o site Editoria Livre, de Thomas Leuri Souza, a partir dos dados do Atlas da Violência 2026

Existe algo profundamente perturbador quando um estado passa a aparecer repetidamente nos mesmos rankings. Mais perturbador ainda quando esses rankings medem aquilo que uma sociedade deveria combater com urgência. O Atlas da Violência 2026 revelou que seis das dez cidades mais violentas do Brasil estão na Bahia. Jequié aparece na segunda posição nacional. Juazeiro ocupa a sexta. Feira de Santana surge em sétimo lugar. Porto Seguro, Simões Filho e Camaçari completam a lista. Salvador, por sua vez, figura como a capital mais violenta do país.

Os números impressionam, mas talvez o aspecto mais preocupante seja outro: eles já não produzem o espanto que deveriam. Ao longo dos últimos anos, a violência deixou de ser apenas um problema de segurança pública para se tornar uma presença constante na paisagem baiana. Ela atravessa cidades grandes e médias, alcança regiões metropolitanas e municípios do interior, modifica rotinas, altera comportamentos e influencia decisões cotidianas de milhares de pessoas. Em muitos lugares, a pergunta deixou de ser se a violência está presente. A questão passou a ser em que intensidade ela se manifesta.

Jequié oferece um retrato particularmente duro dessa realidade. Com taxa de 79,4 homicídios por 100 mil habitantes, o município registrou índice quase quatro vezes superior à média nacional, que ficou em 20,1. Não se trata de uma oscilação estatística nem de um dado isolado. Trata-se de um indicador que expõe a profundidade de um problema cuja compreensão exige muito mais do que a simples contagem de ocorrências policiais.

Homicídios raramente surgem sozinhos. Eles costumam representar a expressão mais visível de processos sociais, econômicos e criminais muito mais amplos. São o resultado de disputas territoriais, da expansão de organizações criminosas, da circulação de armas, das desigualdades persistentes e das dificuldades históricas de ocupação efetiva do espaço público pelo Estado. É justamente por isso que o Atlas da Violência deve ser lido para além do impacto dos números. O levantamento não revela apenas onde as pessoas morrem. Ele ajuda a identificar onde as políticas públicas não conseguem produzir os resultados esperados.

A Secretaria da Segurança Pública da Bahia destaca que houve redução das mortes violentas nos últimos três anos e informa queda de 8,7% nos crimes graves contra a vida em 2024. O governo também ressalta investimentos em efetivo, tecnologia, equipamentos, inteligência e ampliação das estruturas operacionais. Os dados merecem registro e fazem parte da realidade. Mas também revelam uma contradição que não pode ser ignorada: como explicar que um estado que amplia investimentos e registra reduções pontuais continue concentrando seis das dez cidades mais violentas do país?

A pergunta não diminui os esforços realizados. Ao contrário. Ela evidencia a dimensão do desafio. O problema parece ultrapassar a capacidade de respostas exclusivamente policiais. Há muito tempo a violência na Bahia deixou de ser um fenômeno restrito às grandes capitais. Ela se interiorizou. Avançou por corredores econômicos, acompanhou fluxos logísticos e alcançou cidades médias que passaram a ocupar posições estratégicas em disputas territoriais cada vez mais complexas. O mapa da violência brasileira mudou nas últimas décadas, e a Bahia ocupa hoje uma posição central nesse novo desenho.

Não por acaso, municípios com perfis econômicos, sociais e geográficos tão distintos aparecem lado a lado no mesmo ranking. Jequié, Juazeiro, Feira de Santana, Porto Seguro, Simões Filho e Camaçari possuem histórias diferentes, dinâmicas próprias e desafios específicos. Ainda assim, compartilham um elemento comum: a dificuldade de conter níveis de violência que já ultrapassam aquilo que deveria ser considerado tolerável em uma sociedade democrática.

Talvez seja justamente aí que esteja o aspecto mais inquietante de todo o levantamento. A normalização. Quando rankings são divulgados ano após ano e determinados nomes continuam se repetindo, corre-se o risco de transformar o excepcional em rotina. As cidades continuam funcionando. O comércio abre as portas. As escolas recebem estudantes. Os serviços públicos seguem operando. A vida continua. Mas continua acompanhada por uma sensação permanente de insegurança que, aos poucos, vai sendo incorporada ao cotidiano coletivo.

É assim que sociedades aprendem a conviver com o inaceitável. Não porque aceitem a violência, mas porque passam a considerá-la parte inevitável da realidade. O perigo dessa adaptação é que ela reduz a capacidade de indignação. E quando a indignação desaparece, os problemas deixam de ser enfrentados com a urgência necessária.

O Atlas da Violência, portanto, não fala apenas sobre criminalidade. Ele fala sobre qualidade de vida, liberdade, mobilidade urbana e cidadania. Fala sobre o direito básico de viver sem que cada deslocamento, cada trajeto ou cada rotina cotidiana precise ser acompanhado por cálculos permanentes de risco.

A Bahia continua sendo um dos estados mais importantes do país. Sua relevância econômica, histórica, cultural e política é incontestável. Mas os dados divulgados pelo Atlas impõem uma reflexão que não pode ser adiada. Nenhum projeto de desenvolvimento pode ser considerado plenamente bem-sucedido quando a violência continua ocupando espaço tão central na vida de sua população. Porque, no fim das contas, o desenvolvimento de uma sociedade não se mede apenas pelas obras que inaugura, pelos investimentos que anuncia ou pelos indicadores econômicos que apresenta. Mede-se também pela capacidade de proteger a vida de quem vive nela.

 


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