E o Vi FLUMINIS?

Há tempos venho observando o movimento curioso que o nome Ipiaú provoca nas pessoas. Multiplicam-se comentários, e-mails, debates em blogs e fóruns virtuais — todos buscando decifrar o mistério etimológico e simbólico que o termo encerra. Dentre essas vozes, uma em particular me instigou: a de meu amigo Adenivaldo Brito, espírito erudito que, ainda que em formação nas Letras — nisi fallor, “se não me engano” —, é já um notável autodidata no latim.

Adenivaldo argumenta que a expressão “Entre Rios”, tantas vezes repetida como tradução do lema da cidade, corresponderia ao termo latino Vi Fluminis, inscrito no brasão de Ipiaú. À primeira vista, parece plausível: há algo de poético na ideia de um lugar “entre rios”. Todavia, um exame mais atento — manibus omnibus dictionaria Latina tenentibus, “com todos de dicionário em mãos” — revela uma nuance que escapa à tradução livre.

O vocábulo fluminis provém do substantivo flumen, fluminis, neutro, pertencente à terceira declinação, e significa “rio”, “corrente de água”. Convém recordar que, no latim arcaico, a letra V desempenhava também o papel da semivogal U — daí formas como CORNVTA CALVIVS EST em vez de CORNUTA CALVIUS EST, frase espirituosa que se traduz por “era careca e chifrudo”.

Já o termo vi é o ablativo singular de vis, vis, substantivo feminino de terceira declinação irregular, cujo significado principal é “força”, “energia”, “potência”. O ablativo, em sua função instrumental (ablativus instrumenti), exprime o meio ou agente pelo qual algo se realiza. Assim, vi fluminis não se traduz por “entre rios”, mas sim, mais literalmente, por “pela força do rio” — vi (pela força) + fluminis (do rio).

O que o brasão nos propõe, portanto, não é uma imagem geográfica, mas simbólica. Vi fluminis fala de um poder natural, de uma energia vital que flui — fluit, sicut flumen — e dá sentido à própria existência da cidade. É o rio que move, que fecunda, que delimita e, paradoxalmente, une.

Não se trata, pois, de uma simples descrição topográfica, mas de uma metáfora identitária: Ipiaú, lugar fundado “pela força do rio”, carrega em seu nome e em seu lema a imagem do movimento incessante, da transformação contínua, do poder criador das águas.

Notas filológicas e gramaticais

  1. FLVMINISGenitivus singularis de flumen, fluminis, n. (“rio”). Indica posse ou origem: “do rio”.

  2. VIS — Substantivo feminino irregular da terceira declinação (vis, vis), significando “força”, “potência”, “energia”.

  3. VIAblativus singularis de vis, com valor instrumental (ablativus instrumenti), exprimindo o meio: “pela força”.

  4. Expressão completa: Vi fluminis = “pela força do rio” (instrumento + origem).

  5. Uso poético: A locução sugere movimento e energia vital, evocando o conceito de vis naturae, a “força da natureza”.

Sobre o autor

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José Fagner Alves Santos é jornalista (MTB 0074945/SP), formado em Letras. Mestre em Educação, Doutor em Literatura. Fã de Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese, Hunter Thompson, John Hersey e Eliane Brum. Faz um arremedo de jornalismo literário. Publica sempre às segundas aqui no Editoria Livre e apresenta o podcast que é publicado às quartas. Colabora com o Portal Café Brasil.


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