NO DIA DO MEIO AMBIENTE, O ESPELHO DA BAHIA CHEGA A IPIAÚ — Thomas Leuri Souza

Charge sobre desmatamento em Ipiaú e na Bahia no Dia Mundial do Meio Ambiente.
Entre áreas preservadas e espaços degradados, a charge ilustra os dilemas ambientais que conectam Ipiaú ao debate sobre o desmatamento na Bahia.

RELATÓRIO DO MAPBIOMAS COLOCA A BAHIA ENTRE OS ESTADOS QUE MAIS DESMATARAM EM 2025. EM IPIAÚ, A DISCUSSÃO AMBIENTAL PASSA PELOS RIOS, PELAS ÁREAS VERDES URBANAS E PELAS ESCOLHAS QUE TRANSFORMAM SILENCIOSAMENTE A PAISAGEM DA CIDADE.

Todos os anos, o Dia Mundial do Meio Ambiente produz uma espécie de ritual coletivo. Autoridades divulgam mensagens, instituições promovem campanhas, escolas realizam atividades educativas e as redes sociais se enchem de discursos sobre preservação. É importante que seja assim. Mas talvez a principal utilidade da data seja outra: interromper, ainda que por um instante, a capacidade que a sociedade desenvolveu de normalizar a degradação ambiental.

Neste ano, a reflexão chega acompanhada de um dado que merece atenção. O Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD 2025), produzido pela MapBiomas, apontou a Bahia como o terceiro estado brasileiro com a maior área de vegetação nativa desmatada do país. Foram mais de 110 mil hectares perdidos em apenas um ano. Embora o estado tenha registrado redução de 17% em relação ao período anterior, o volume permanece suficientemente elevado para mantê-lo entre os líderes nacionais da devastação ambiental.

O dado ganha ainda mais relevância porque revela uma contradição. Pela primeira vez, a área total desmatada no Brasil ficou abaixo da marca de um milhão de hectares em um único ano. O país avançou. A Bahia também apresentou redução. Ainda assim, o estado subiu posições no ranking nacional e passou a ocupar o terceiro lugar entre as unidades da federação com maior área desmatada.

À primeira vista, a informação parece distante da realidade de Ipiaú.

Quando se fala em desmatamento, a imagem que normalmente surge é a de grandes áreas rurais, tratores avançando sobre o Cerrado ou extensões de vegetação nativa sendo substituídas pela expansão agrícola. E, de fato, boa parte do problema está concentrada no Matopiba, região formada por áreas da Bahia, Maranhão, Piauí e Tocantins, que hoje concentra alguns dos maiores índices de supressão vegetal do país.

O próprio relatório mostra que municípios localizados no oeste baiano, como Jaborandi e São Desidério, figuram entre os que mais perderam vegetação nativa em todo o território nacional. A expansão agrícola transformou a região em uma potência econômica. Mas também a colocou no centro de um dos maiores debates ambientais do país.

Mas o erro começa justamente quando imaginamos que a discussão termina ali.

Porque o desmatamento não é apenas a derrubada de árvores em regiões distantes. Ele também se manifesta nas cidades. Às vezes de forma menos visível. Menos espetacular. Menos noticiada. Mas nem por isso menos preocupante.

Ipiaú não aparece entre os municípios mais desmatados do Brasil. Não figura nos mapas que ilustram a expansão da fronteira agrícola. Ainda assim, basta observar a cidade com atenção para perceber que a relação entre crescimento urbano e preservação ambiental também merece ser discutida.

Em bairros como Santa Rita, ACM e Aparecida, a expansão urbana modificou paisagens que durante décadas fizeram parte da memória ambiental do município. Novas construções surgiram. Áreas verdes desapareceram. Espaços que antes cumpriam funções ambientais importantes foram gradualmente incorporados ao avanço do concreto. Não se trata de condenar o crescimento. Cidades crescem. Moradias são necessárias. A economia precisa se movimentar. O desafio está em definir como esse crescimento ocorre e quais custos ambientais a sociedade está disposta a aceitar em nome dele.

A discussão se torna ainda mais sensível quando chega aos rios.

O Rio das Contas não é apenas um curso d’água que atravessa a região. Ele faz parte da identidade de Ipiaú. O mesmo pode ser dito sobre o Água Branca, cuja presença ajudou a moldar o território e a própria ocupação urbana ao longo das décadas. Ainda assim, a convivência da cidade com esses patrimônios naturais nem sempre reflete a importância que eles possuem.

Quem percorre determinadas margens percebe sinais que já se tornaram familiares: descarte irregular de resíduos, retirada da vegetação ciliar, ocupações inadequadas, processos de assoreamento e diferentes formas de pressão sobre os recursos naturais. São problemas que raramente aparecem nos grandes relatórios nacionais, mas que produzem impactos concretos na qualidade ambiental do município.

Nos últimos anos, operações policiais e ações de fiscalização relacionadas à retirada irregular de areia em rios da região trouxeram novamente o tema para o debate público. O episódio revelou uma contradição frequentemente ignorada. Muitas vezes, a degradação ambiental não nasce apenas de grandes projetos ou de decisões tomadas em centros distantes. Ela também se constrói localmente, por meio de práticas que se tornam tão comuns que deixam de causar estranhamento.

Essa é uma realidade que não envolve apenas governos. Não envolve apenas empresas. Não envolve apenas proprietários de terras.

Ela envolve a cidade.

Quando uma área verde desaparece sem questionamento. Quando margens de rios são degradadas. Quando o lixo encontra o caminho mais fácil até os cursos d’água. Quando a ocupação de espaços ambientalmente frágeis passa a ser vista como algo normal. Quando o desenvolvimento é tratado como incompatível com a preservação.

A degradação deixa de ser um problema isolado e se transforma em comportamento coletivo.

Talvez seja justamente aí que resida o maior desafio ambiental de cidades como Ipiaú.

Não na falta de leis.

Não na ausência de campanhas.

Não na inexistência de discursos.

Mas na normalização.

As pessoas se acostumam.

Acostumam-se a ver árvores desaparecerem. Acostumam-se a ver margens degradadas. Acostumam-se a conviver com rios cada vez mais pressionados. Acostumam-se a enxergar a paisagem mudar sem necessariamente refletir sobre aquilo que está sendo perdido.

E quando a degradação se torna rotina, ela deixa de provocar indignação.

O relatório do MapBiomas fala sobre hectares, biomas e estatísticas. Mas talvez sua principal mensagem seja outra. Cada árvore removida, cada nascente pressionada, cada margem degradada e cada área verde substituída por ocupações sem planejamento representam perdas que raramente aparecem nos grandes debates públicos. Até o dia em que começam a surgir na qualidade da água, na temperatura das cidades, nos processos erosivos, nas enchentes e na redução da qualidade de vida.

Por isso, neste Dia Mundial do Meio Ambiente, talvez a pergunta mais importante não seja por que a Bahia aparece entre os estados que mais desmatam no Brasil.

Talvez a pergunta esteja mais perto.

Talvez ela esteja nas margens do Rio das Contas.

Talvez ela esteja no Água Branca.

Talvez ela esteja nos bairros que crescem sem planejamento ambiental compatível.

Talvez ela esteja nas escolhas que são feitas diariamente sem que ninguém perceba suas consequências.

Que tipo de paisagem Ipiaú pretende deixar para as próximas gerações?

Porque o desmatamento não começa apenas onde a floresta termina.

Muitas vezes, ele começa quando uma sociedade deixa de perceber o valor daquilo que ainda resta.


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