Depois do vento

A destruição no Paraná e o retorno da natureza como força moral

A notícia chega invariavelmente como inventário de destroços: na tarde de sexta-feira, 7 de novembro de 2025, Rio Bonito do Iguaçu, no Centro-Sul do Paraná, foi varrida por ventos que destelharam casas, colapsaram estruturas e deixaram a cidade em emergência. No balanço inicial, quatro mortos e 432 feridos; dez mil pessoas impactadas; desabrigados encaminhados a abrigos no município vizinho. É o tipo de relato que tenta impor ordem ao caos por meio de números, ainda que provisórios. Além de ser uma tragédia meteorológica, é um lembrete ontológico. Cada vez que o vento arranca o telhado de uma casa ou o chão de uma cidade, ele também arranca a ilusão moderna de controle.

Vivemos persuadidos de que o progresso técnico e o planejamento racional podem amortecer a violência do acaso. Mas o que o Sul do Brasil testemunhou é a velha refutação da utopia. Nenhum aplicativo de previsão, nenhum protocolo de emergência, nenhum governo “de prontidão” pode converter o imprevisível em segurança. A natureza não é inimiga nem aliada; é simplesmente indiferente — e essa indiferença é insuportável para um animal que inventou deuses apenas para não se sentir só.

John Gray escreveria que os desastres naturais não são retrocessos na marcha do progresso, mas a exposição periódica de sua falsidade. O progresso é apenas a narrativa que o homem conta a si mesmo enquanto constrói cidades sobre o esquecimento do que o sustenta. A cada enchente, a cada tornado, a civilização se vê por um instante no espelho: frágil, dependente, mortal.

O ciclone do Paraná não é o prenúncio de um apocalipse climático, como querem os alarmistas, nem um incidente estatístico, como preferem os tecnocratas. É a demonstração de que o nosso tempo — o tempo das previsões, dos relatórios e dos alertas — ainda é o tempo da contingência. O humano se move entre a crença e a ruína. E quando o vento passa, tudo o que resta é o que sempre houve: a necessidade de reconstruir, sabendo que o próximo vendaval não respeitará a memória do anterior.

O sentido disso não é moral nem ambiental — é trágico. Somos a única espécie capaz de imaginar o futuro e, por isso mesmo, a única que sofre por não poder dominá-lo. O ciclone não tem intenção; quem a projeta somos nós. E é nesse abismo entre o que o mundo é e o que desejamos que ele fosse que se define o drama da modernidade.

Fagner Alves

Sobre o autor

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José Fagner Alves Santos é jornalista (MTB 0074945/SP), formado em Letras. Mestre em Educação, Doutor em Literatura. Fã de Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese, Hunter Thompson, John Hersey e Eliane Brum. Faz um arremedo de jornalismo literário. Publica sempre às segundas aqui no Editoria Livre e apresenta o podcast que é publicado às quartas. Colabora com o Portal Café Brasil.


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