Ansiosa, afoita e atrapalhada. Ela estava na fila da justificativa aguardando a sua vez de votar pela primeira vez na vida.

Não creio.

Era uma aluna que abandonou os estudos na escola onde trabalho e como eu estava prestando serviços para o TRE, fui perguntar se precisava de ajuda.

Ela disse: –  “Oi, tio. Não sei como faço para votar. Você me ajuda?”

Pedi o título de eleitor a ela, olhei e a encaminhei para a sua seção. Durante o caminho ela disse que não tinha escolhido ainda os candidatos e perguntou se eu não poderia ajudá-la indicando os nomes.

Não creio.

Expliquei a ela que não poderia fazer isso e mesmo que eu pudesse não o faria, pois, para mim, o voto é uma coisa séria e cada um é responsável pelo que faz com os seus direitos. Fazer alguém votar em um candidato é um fardo muito grande e eu prefiro arcar só com o meu.

Para não deixá-la na mão, fui até um dos mesários e pedi o caderno com o nome de todos os candidatos aptos para o primeiro turno. Expliquei onde estavam os presidentes, governadores, senadores e os deputados e que um daqueles deveria ser o escolhido.  Afastei-me um pouco para deixá-la à vontade, mas a vi nervosa e perdida frente ao caderno e letras.

Chegou uma amiga e a cumprimentou:

-“E aí, sua doida? Já votou?”

-“Eu não, ainda estou escolhendo os nomes, me ajuda amiga?”

-“Ah, eu votei em qualquer um, só não queria votar no Bolsonaro, mas pedi para o meu primo me ajudar numa cola”.

-“Ah, amiga. Eu não tô entendendo nada desta lista que o tio me deu, kkkk. Se eu quisesse ler livro eu não tinha largado a escola.”

-“Ah, sua doida. Pega a minha cola e copia então”.

-“E como eu faço lá dentro?”

-“Larga de ser idiota, eles explicam (apontando para os mesários).”

Passou por mim, entregou o caderno com os nomes dos candidatos, agradeceu e lá se foi uma brasileira votar pela primeira vez.

Voltou toda contente e com um sorriso do tamanho do país, dizendo:

-“Tio, eu não ia votar no Bolsonaro, mas apareceu a foto dele lá na cabina, kkkkk”

A “amiga” disse:

– “Como assim votou no Bolsonaro? Tá doida? Se você pegou a minha cola, não poderia ter votado nele”.

As duas compararam as colas e correram para o caderno com os nomes dos candidatos e viram que votaram no “17” sem querer, mas saíram gargalhando apressadas. De certo teriam alguma coisa mais importante para fazer naquele domingo chuvoso.

Desceram as escadas, mas alguns minutos depois a ex-aluna volta correndo para me falar:

– “Tio, você nem sabe. Na hora de votar pra deputado, coloquei o número e adivinha quem apareceu? O Tiririca.”

Criação e Autoria: Márcio Ribeiro

Imagem: Pixabay

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