Contra o Esquecimento e a Blindagem: uma missa negra da democracia brasileira

© Marcelo Camargo/Agência Brasil

Sob o céu pesado de Brasília, milhares marcharam em defesa daquilo que parece sempre estar em risco no Brasil: a própria democracia. O ato contra a anistia aos golpistas do 8 de janeiro e contra a chamada PEC da Blindagem é a encenação pública de um conflito antigo, onde a memória da ditadura militar insiste em retornar como fantasma e advertência. O que se tenta bloquear, com leis e decretos, não é apenas a responsabilização de indivíduos, mas o próprio exercício da justiça. Uma anistia, neste contexto, não é reconciliação: é amnésia compulsória. E a blindagem parlamentar, ao pretender submeter processos à autorização dos próprios pares, dissolve o princípio elementar de que ninguém está acima da lei.

As ruas, entretanto, lembram. Nas falas de quem marchou, há um fio contínuo que liga as torturas do passado aos crimes do presente. O grito contra o esquecimento é também grito contra a repetição. Ao rejeitar a anistia, rejeita-se a ideia de que a violência contra a ordem democrática pode ser absorvida como se nada fosse. Ao denunciar a PEC da Blindagem, denuncia-se a conversão do Congresso em corporação fechada, mais preocupada em proteger seus próprios membros do que em servir ao interesse público.

E ainda assim, como em toda política, há ambivalência. A multidão que protesta não é uniforme: estudantes, sindicalistas, artistas, movimentos sociais. Cada qual carrega sua própria agenda, mas por um instante todos se unem no mesmo refrão: sem anistia. Essa convergência é frágil, mas revela um ponto essencial: a democracia não se sustenta apenas em instituições, mas em atos de vigilância, em rituais de resistência. O protesto não garante vitória, mas impede que o silêncio se instale como consenso.

Há algo de religioso na cena: o Eixo Monumental convertido em templo, as palavras de ordem em hinos, as memórias em relíquias. Mas é uma missa sem promessa de salvação. O que se celebra aqui não é a certeza da vitória, mas a persistência do conflito. Porque toda democracia é isso: um campo aberto onde nada é definitivo, onde cada conquista é precária e cada retrocesso sempre possível. Os que marcham sabem disso, e por isso marcham. Sabem que o Congresso pode insistir em sua blindagem, que forças poderosas tentarão enterrar a responsabilidade. Mas sabem também que, enquanto houver quem recuse a anistia e quem recuse o esquecimento, a democracia, embora frágil, não estará morta.

Sobre o autor

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José Fagner Alves Santos é jornalista (MTB 0074945/SP), formado em Letras. Mestre em Educação, Doutor em Literatura. Fã de Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese, Hunter Thompson, John Hersey e Eliane Brum. Faz um arremedo de jornalismo literário. Publica sempre às segundas aqui no Editoria Livre e apresenta o podcast que é publicado às quartas. Colabora com o Portal Café Brasil.


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