“Clarice, Jon e eu, em Clandestina Felicidade”, por Lesley Dominiscki Luz

De: Lesley Dominiscki Luz

Silêncio…silêncio… silêncio. Sexta-feira, noite.

É azulado o preto em sua escuridão de noite. Os astros, alinhados em ângulos exatos, em uma geometria que deve explicar a beleza em cores nos dias que nascem agora, e a suavidade que se impõe o mês de junho.

Silêncio…silêncio…silêncio.

Clarice, novamente me faz companhia. Leio um conto. Percebo já ter provado dessa Clandestina Felicidade. Releio um pouco mais.

Clarice escreve como quem não faz rascunho. Uma certeza e confiança que até parece exibição, quase uma arrogância. Uma espécie de performance de gata, em sua exuberância pertinente aos felinos, se espreguiçando, como quem não tem culpa de ser bela. Com convicção e sem medo, desnuda os sentimentos ancorados nas palavras. Como se escrever fosse um simples fazer natural. Como alguém bebendo água quando tem sede.

Silêncio…silêncio…silêncio.

Continuo. Me recordo da sensação do encontro, em um texto encantado, com a Clandestina Felicidade. Minha criança também se deliciou com Reinações de Narizinho, em seu vestido de festa. Um flerte tem sempre um ponto de prazer em comum entre as partes. No caso aqui, as partes: eu leitora, Clarisse autora: intimidade. Intimidade é uma das magias do prazer.

Silêncio…silêncio…silêncio…E depois… Um coro um pouco distante, mas audível, diz: Golllllllllllllllll… Fogos de artifícios explodem no silêncio. É tempo de um evento mundial, que acontece de quatro em quatro anos. O espaçoso intervalo tem um gosto doce, da marca do tempo, de que só ele tem razão.

Há minutos, um desconhecido, lá da sua casa, que não sei onde fica, com um carinho que só pode ser entre amigos, se dispõe a me auxiliar, sobretudo, a fazer com que eu não decline da participação como escritora independente do maior acontecimento literário no Brasil: Flip 2026. Somos conterrâneos escritores, marginais no mercado editorial, nascidos na editora Toma Aí Um Poema.

Acende minha vontade, que já estava resignada à frustração por não levar meus Poemas do Bicho Mulher, recém-publicado, pra se fazer presente neste carnaval de célebres e anônimos escritores.

Decido: Amanhã pela manhã, vou contratar o serviço de alojamento em Paraty.

Na penúltima frase do conto, uma vertigem me toca. Me sinto como a personagem em ação: sentada na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Eis me, novamente, minha Felicidade Clandestina.

Escolho me distrair das angústias cotidianas e me render à loucura do Baile Verde. Junto as lantejoulas para confeccionar a minha fantasia de escritora.

Entre devaneios, chego a última frase do conto: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.” Bem, lembro-me de me intrigar essa última frase (e de novo) da primeira vez que li este conto. O que a inteligência artificial, e desprovida de amor e sentimento, diria sobre esta declaração? Clarice traz o encontro amoroso adulto, diz ela, para transmitir a dimensão desse prazer intenso. Eu, da minha insignificância literária, simplória leitora, ouso discordar da majestosa autora. Dispensável este último parágrafo, digo eu pra mim mesma, com ar de revisora do texto de Clarice. Poderia ficar na concretude da pureza daquele amor infantil.

Quem eu penso que sou para questionar Clarice em sua exatidão.

Nossos amores da vida adulta, pretendem devolver o amor que encontramos, inocentemente quando no estado de ser criança, mas, me atrevo a dizer, jamais o encontraremos na vida adulta. Mas a busca, sim, tem a utilidade de nos ajudar caminhar.

Foi assim, que assisti ao jogo do Brasil na Copa do Mundo de 2026, no dia 19 de junho. De longe. Um assistir vestido de palavras, e acompanhado da decisão: Poemas do Bicho Mulher, presente no varal de exposição literária e internacional no Rio de janeiro.

Grata Clarice, pela sua companhia iluminada de sempre!

Grata Jon, por ser um incentivo, desses incentivos reais, humanos, em me incluir nessa festa feita para nós, amantes da literatura, e de certa forma, também nossa, autores independentes.

Jon é autor de Garotos da Selva, que eu, com meu olhar que quer ver só o que já sabe, imaginou ser uma história de aventura de meninos, tipo “A Ilha Perdida” da coleção Vaga-lume. Ao que Jon me corrigiu: Garotos de “Seiva”. Trata-se de uma história erótica. Rimos nós, como fazem os amigos.

Texto e Autoria: Lesley Dominiscki Luz

Imagem: Pexels, por Pixabay

Data: 20/06/2026

Citação: “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector e “Antes do Baile Verde”, de Lygia Fagundes Telles.

Contato: [email protected]

Todos os direitos reservados ao autor


6 Replies to ““Clarice, Jon e eu, em Clandestina Felicidade”, por Lesley Dominiscki Luz”

  1. Márcia Chaves

    Que bom ter mais este canal pra te ler Lesley! Seus poemas e textos sempre me atraem à leitura. Me faz parar, nessa nossa vida corrida! Sucesso!

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