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Castigo vem a balão

O castigo vem a cavalo, já cantava Tião Carreiro. No meu caso, viria a balão. Como sempre, era um domingo de sol. Estava saindo de casa para brincar quando meu pai me abordou, perguntando se eu iria soltar balão. “Lógico que não!”, respondi prontamente, com cara de desaprovação.

Não me levando a sério, ameaçou dar-me uma surra histórica caso descobrisse que eu o havia desobedecido. Para fazer mais pressão, falou que a surra seria maior que aquela que o “Branca de Neve” havia levado do seu pai, por ter colocado um gato dentro do porta-malas do carro. Até hoje, Chico Fumaça – pai do “Branca de Neve” – carrega uma cicatriz no rosto, deixada pelo gato quando, três dias depois de ter sido trancafiado, o felino viu o porta-malas abrir. Chico Fumaça estava procurando umas ferramentas no carro. O bichano voou em sua cara deixando um belo estrago.

Pois bem. Voltemos à minha história.

Depois de ter prometido que não soltaria balão, corri para a casa do Zuza, meu amigo. A gangue já estava reunida e com tudo esquematizado. Iríamos soltar um balão de dar inveja a qualquer Santos Dumont da vida. O primeiro passo foi fazer aquela vaquinha para comprar material. Depois do dinheiro arrecadado, designamos tarefas para os cinco integrantes da gangue, desde as tarefas mais burocráticas – comprar papel de seda e cola – às mais heroicas – como monitorar a rua, para o caso dos nossos pais aparecessem no pedaço.

Em menos de 30 minutos, tínhamos já todo material necessário para começar o nosso projeto. Devido à nossa vasta experiência em trabalhar com papel de seda e cola, fazendo pipas, não demorou muito para o balão ficar pronto. Ficou grande e bonito. A primeira etapa estava pronta. Agora precisava fazer a tocha do balão. Já tínhamos a cera de assoalho misturada com querosene. Barnabé jurava de pé junto que aquela mistura era a mesma que havia sido utilizada como combustível no Zepelim.

Faltava agora um pedaço de pano para ser usado como tocha. Numa rápida disputa de zero ou um, e em seguida par ou ímpar, conseguimos o par de meias do Reverendo Moon. A disputa era apenas uma formalidade, pois sabíamos que ele sempre perdia.

Barnabé enlambuzou bem aquele par de meia furada do Moon no combustível e encaixou na boca do balão. Coube a mim a tarefa de acender a tocha. Aquela era uma grande responsabilidade, pois qualquer coisa que desse errada, a culpa seria minha.

Por ser grande, o balão levou uns 40 minutos para ficar cheio. Meu coração não aguentava mais de tanta ansiedade. Fiquei imaginando meu pai aparecer justamente no momento do lançamento. Visto que era domingo, eu tinha certeza de que ele estaria tirando o cochilo da tarde.

Aos poucos, o balão começou a subir. Como estávamos usando o mesmo combustível do dirigível Zepelim, nosso balão subiu rápido. Chegou a uma altura impressionante, suficiente para que seu Patrício não desconfiasse do filho. Passados uns 10 minutos, o balão já tinha sumido de vista. Começamos a nos preparar para jogar bolinha de gude enquanto nos vangloriávamos de nossa proeza. Foi quando o Buscapé gritou: “Ele está voltando!”

Ma che cazzo?”, pensei. “Como ele poderia voltar?” Isaque Newton – um dos moleques da turma – fez um breve cálculo, levando em conta a velocidade do vento e a umidade do ar, e deu um famoso chute dizendo que o balão iria cair em nossa rua. O que era um chute começou a se concretizar. A molecada de outros bairros começou a chegar em nossa área para tentar recuperar o balão. Seria uma bofetada nos nossos rostos se alguém de outra turma recuperasse o balão no nosso lugar.

A rua ficou lotada. A última vez que tinha visto tanta gente ali foi na decisão do campeonato paulista de 1977. Subitamente, o vento parou e o balão ficou imóvel por alguns minutos em cima de nossa rua. Era possível ver que a tocha ainda estava cheia. Lembro de ter elogiado o Barnabé pelo preparo que ele havia feito. Todo mundo estava na expectativa de ver o Zepelim tupiniquim cair. Perguntei para o Isaque Newton se, por acaso, haveria probabilidade de o balão cair perto da minha casa. A resposta me deixou mais tenso. As chances eram de 68%, um valor assustador. O balão começou a se movimentar, talvez por causa do vento norte. Olhei imediatamente para o Isaque, queria saber se havia algum update nos cálculos. Ele respondeu negativamente, movimentando a cabeça.

O balão deu duas voltas na nossa quadra e, num movimento de punição, desceu velozmente, caindo no telhado da minha casa. Só poderia ser castigo de Deus. Um balão que prometi não soltar, que sumiu da vista humana, voltou e caiu na minha casa? Era coisa feita. Bom, feita ou não, a minha casa estava em chamas. O pessoal da rua gritando desesperadamente acabou acordando meu pai.

Junto com os vizinhos, ele conseguiu controlar as chamas e apagou o incêndio sem maiores consequências. Depois do susto passar junto com a fumaça, veio a pergunta que não queria calar: “Quem soltou o balão?”, perguntou meu pai, já sabendo que o culpado era eu. Naquele momento houve silêncio absoluto. A única coisa que se ouvia eram as batidas do meu coração.

Comecei a lançar um olhar ameaçador para todo e qualquer suplicante que pudesse acabar dando com a língua nos dentes. Fiquei orgulhoso da gangue, pois ninguém me alcaguetou, apesar das ameaças do meu pai.

Resolvi entrar em casa mais cedo para não abusar da sorte. Prometi a mim mesmo que nunca mais faria balão. A lição havia sido muito severa. Acabei dormindo cedo, meditando sobre o castigo que veio a balão.

No dia seguinte acordei cedo, antes do meu pai sair para trabalhar.  Como era período de férias, eu poderia passar o dia inteiro na rua.

– Paiêê, estou indo brincar.

– Não vá soltar nenhum balão, ok?

– Ok, só estou indo na casa do Zuza…

– …

– E aí, Zuza, sobrou papel de ontem?

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