O Presidente da República, Jair Bolsonaro, defendeu a revogação da criação da Estação Ecológica da Juréia Itatins para estimular o turismo e disse:

Isso não tem problema nenhum. Na hora certa, tendo o sinal verde dos ministérios do Meio Ambiente e do Turismo, vamos fazer isso aí”,

A fala dele aconteceu neste domingo (12), durante entrevista no programa do jornalista Milton Neves, da Rádio Bandeirantes, quando falava de uma outra Estação Ecológica, do Rio de Janeiro, veja um trecho:

 “As pessoas falam em Cancún  que é uma maravilha. Aqui no Brasil, temos a baía de Angra, uma região maravilhosa. No meu entender, a única diferença é que a água não é tão cristalina quanto Cancún. Mas é cristalina também, com temperatura amena, não tem onda e tem centenas de ilhas, muitas delas com praias maravilhosas. Mas você não pode desenvolver turismo lá. Os xiitas ambientalistas demarcaram aquela área como Estação Ecológica de Tamoios, e não pode fazer mais nada lá.”

Bolsonaro afirmou que pretende revogar o decreto do governo José Sarney que criou a área de proteção.

“Nós queremos abrir aquela região para que a iniciativa privada desenvolva o turismo lá. O que precisaria fazer? A primeira é revogar o decreto que demarcou a Estação Ecológica. Isso não tem problema nenhum. Na hora certa, tendo o sinal verde dos ministérios do Meio Ambiente e do Turismo, vamos fazer isso aí.”

Ele disse ainda que o mesmo pode ser feito com a Estação Ecológica da Jureia, no litoral de São Paulo.

De acordo com o presidente, a ampliação dessa área de proteção prejudicou a pesca na região.

“Queremos preservar o meio ambiente, mas se qualquer país do mundo tivesse as maravilhas que nós temos, esse pessoal estaria faturando bilhões de reais com turismo. Mas nós não podemos”

Bolsonaro afirmou ainda que está removendo entulhos de uma política xiita ambiental e defendeu:

“Botar brasileiros, patriotas e competentes na frente da superintendência do Ibama e do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).”

Foi na Estação Ecológica de Tamoios que Bolsonaro sofreu uma multa por pesca, posteriormente anulada.

Ele foi multado em R$ 10 mil pelo Ibama em janeiro de 2012 por pesca ilegal na Estação Ecológica protegida por lei. O processo administrativo resultou em uma investigação preliminar na PGR (Procuradoria-Geral da República), em Brasília. Em outubro de 2013, o então procurador-geral, Roberto Gurgel, apresentou denúncia contra o parlamentar –o caso depois foi arquivado pelo STF.

A multa foi anulada pela Superintendência do Ibama no Rio de Janeiro em 20 de dezembro de 2018, ainda no governo Michel Temer (MDB), após parecer da AGU, segundo o qual Bolsonaro não teve amplo direito de defesa nem teve resguardada a garantia de contraditório.

O Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro abriu um inquérito civil para apurar a anulação da multa ambiental.

O servidor responsável pela multa, José Olímpio Augusto Morelli, foi exonerado em abril do cargo comissionado de chefe do Centro de Operações Aéreas do Ibama, subordinado à Diretoria de Proteção Ambiental.

Sobre o episódio, Bolsonaro disse neste domingo, durante a entrevista, que a multa foi “inventada”.

Veja a entrevista na íntegra 

Bolsonaro e  a Juréia

Não é a primeira vez que Bolsonaro se mostra contrário à preservação de uma das áreas mais importantes do mundo, na questão de preservação. Quando em campanha, o atual presidente disse que a Juréia atrapalhou o desenvolvimento do Vale do Ribeira, a região mais pobre do Estado de São Paulo

Bolsonaro e a preservação em Eldorado Paulista

Eldorado Paulista, cidade com cerca de 15 mil habitantes onde ele morou até os 18 anos de idade, é o quarto maior município em extensão territorial de São Paulo. No começo do século passado, foi apelidado de “Amazônia Paulista” e, em 1993, reconhecido pela Unesco como “Reserva da Biosfera do Patrimônio Mundial”. Cerca de 70% do território é coberto por Mata Atlântica protegida por reservas e parques, estações ecológicas e áreas de proteção ambiental naturais tombadas, além de 26 quilombos e cerca de 50 comunidades remanescentes de quilombos. Mas Bolsonaro diz que não quer saber de nada disso. É obcecado por minérios como nióbio (usado em siderurgia) e tório, um elemento químico radiativo.

Bolsonaro e o império no Vale do Ribeira, região onde fica a maior parte da Juréia

De acordo com um levantamento feito por jornalistas livres, a família do presidente – que chama ocupantes de terras e fazendas improdutivas de “terroristas” e pretende não “dar nenhum centímetro” de terra para reservas indígenas e quilombolas – está espalhada por todo o Vale do Ribeira. Lá, construíram um império. Em municípios como Barra do Turvo (o mais pobre do Estado), Jacupiranga, Pariquera-Açu, Miracatu e outros, o clã dos Bolsonaro contabiliza mais de 60 imóveis.  Mas não só de casas, fazendas e terrenos vive a próspera família. Além das propriedades, eles são donos de empresas. Muitas.

Um levantamento na Junta Comercial de São Paulo aponta, pelo menos, 19 foram registradas em oito municípios. Se forem contabilizadas as filiais das lojas “Campos Mais” (Magazine Campos Mais, Campos Móveis e Campos Materiais de Construção), e da “Art’s Móveis”, de móveis e produtos eletrônicos, em 13 cidades, são cerca de 30 empreendimentos, de acordo com uma reportagem da revista Época de setembro de 2017.

A crise econômica parece que não abalou a família: 14 lojas foram abertas nos últimos oito anos. À boca miúda, diz-se que o shopping em construção em Eldorado também é do grupo, assim como um empreendimento em hotelaria no centro de Cajati.

Em Eldorado, a casa lotérica “Trilha da Sorte”, registrada como “Casa Lotérica Bolsonaro ME ,está no nome do irmão do presidente, enquanto a mãe possui uma loja de sapatos. Todo esse patrimônio, no entanto, não inclui aquele formado pelo próprio núcleo familiar do presidente e seus três filhos políticos.

Uma série de reportagens publicada no começo do ano (2018) pelo jornal Folha de S. Paulo apontou que os quatro acumulariam mais de R$ 15 milhões em 13 imóveis. Entre eles, os de Brasília – apesar do presidente e seu filho Eduardo receberem R$ 6,1 mil por mês de auxílio-moradia pela Câmara dos Deputados, benefício a que teriam direito apenas os parlamentares sem casa em Brasília.

A conta feita pra estimar o patrimônio, porém, não contabiliza bens como carros que vão de R$ 45 mil a R$ 105 mil, um jet-ski, além de aplicações financeiras, em um total de R$ 1,7 milhão, como consta na Justiça Eleitoral e em cartórios. As dúvidas sobre transações suspeitas de lavagem de dinheiro e de enriquecimento após começar a atuar na política não foram esclarecidas pelo Bolsonaro-pai nem pelos Bolsonaros-filhos.

Na cidade de Barra do Turvo, a mais pobre do Vale do Ribeira, houve regularização  fundiária urbana realizada pela Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) em 2015. A irmã do presidente, que já declarou a intenção de criminalizar movimentos sem-terra, foi beneficiada pelo programa “Minha Terra”. Ela recebeu a concessão de um lote de 869,28 m2 na cidade. A propriedade do terreno era do município.

Toda a família e seus tentáculos, por sinal, estão proibidos por Jair Bolsonaro de dar entrevistas. Apesar disso, a reportagem de “Jornalistas Livres” foram atrás dos personagens, empreendimentos e atividades do clã no Vale do Ribeira. A partir de documentos, relatos, dados fornecidos por cartórios de registros de imóveis, pela Junta Comercial de São Paulo e no Tribunal de Justiça de São Paulo, traçaram, ao menos em parte, pistas do império dos Bolsonaros.

Praia do Rio Verde e morro do Grajaúna, E.E. Juréia Itatins, foto de Márcio Ribeiro

Pesquisa e Postagem: Márcio Ribeiro

Foto: Márcio Ribeiro

Contato: [email protected]

Fonte: Folhapress / Jornal do Brasil / Jornalistas Livres

https://jornalistaslivres.org/

https://www.folha.uol.com.br/

https://www.jb.com.br/

  • Denis

    Esse é o perigo do pensamento progressista.
    Às custas do Meio Ambiente, este Presidente quer desenvolver negócios e melhorar o Turismo.
    Isto é um falso pretexto e servirá para acabar com diversas Áreas de Proteção Ambiental, o que seria uma catástrofe.
    Não sou nenhum radical ambiental, mas tenho consequência das consequências que este pensamento equivocado pode ter.
    Precisamos nos unir e promover discussões a respeito, abaixo-assinados e resistir contra isso, ou será o fim de muitos lugares de grande importância ambiental.
    Já perdemos áreas demais ao longo do tempo. Invistam e melhorem locais existentes, inclusive o Rio de Janeiro, que está totalmente sucateado pela violência e má gestão.
    Lá e em outras capitais dá para se fazer muita coisa sem impactar o Meio Ambiente. Sou bem formado na área e nunca fui manipulado por professores. Também trabalho na iniciativa privada, antes de eventuais críticas.
    Bom o seu post. Agora é agir!

  • Jason

    Em minha humilde opinião, toda e qualquer reserva ecológica precisa ser preservada e deve ser mantido assim!

    Porem, isso não exclui ser visitada e explorada, desde que seja feita da maneira correta e com fiscalização.

    Não tem nada de errada nisso, o mundo inteiro faz turismo ecológico e não é isso que degrada o local, é a falta de fiscalização e monitoramento dos parques!

    Poderia citar aqui inúmeros parques ao redor do mundo que são abertos a visitação mas trazer um exemplo do qual todos conhecem, será mais emblemático, FOZ DO IGUAÇU.

    Eles recebem centenas de turistas todos os dias para visita a algumas décadas, e sua preservação continua lá, intacta.

    Não tenho conhecimento aprofundado de quanto que o parque de FOZ movimenta para a cidade, mas podemos imaginar que não é pouca coisa.

    Fica ai a reflexão, pois temos as cidades mais pobres do vale do ribeira, bem como você descreve em seu texto, em contra partida, uma riqueza natural inexplorada querendo ser visitada.

  • Meire Lazaro

    Concordo plenamente , a ilha de Fernando de Noronha , também comprova que pessoas e natureza conseguem coexistir pacificamente .
    Na Austrália, indo para a região de Margaret River , pude percorrer Parques Ecológicos em estradas com pavimentação permeável . Haviam varias áreas para paradas , com estacionamento e mirantes para apreciarmos a natureza , pudemos conhecer : cavernas, rios e praias . Tudo muito bem preservado e gratuito . E as pessoas das pequenas cidades do entorno vivem de comércio e turismo . Uma prova de que o turismo ecológico pode trazer recursos necessários para que as pessoas do campo tenham uma vida digna.

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