A xícara lascada: onde mora o que sentimos sem dizer

No canto da cozinha de um apartamento em Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro, há uma xícara de porcelana com a borda lascada. Ela fica em cima de um armário de madeira clara, ao lado de um bule esquecido e de uma coleção de tampas de vidro. Ninguém notaria sua presença, não fosse a insistência com que é usada — todas as manhãs, religiosamente, pela mulher que mora ali sozinha há quase nove anos.
Ela se chama Dona Alzira, tem 78 anos, foi professora de literatura por quatro décadas e detesta novela. Quando abro meu caderno e pergunto sobre a xícara, ela ri, mas demora a responder. Primeiro serve café, com açúcar, do jeito que aprendeu com o marido, morto há 12 anos. Depois de um gole, ela diz: “Era a preferida dele. E agora é minha, porque é a que mais me lembra ele, sem precisar lembrar demais.”
Fico em silêncio por alguns segundos. Meu gravador está ligado, mas sei que o que interessa nesta história não virá pela via direta da confissão. Isso não é novela — nem reportagem de escândalo. É sobre o que sobra quando os gestos falam mais do que as palavras, e quando uma simples xícara lascada carrega um país inteiro de lembranças.
A era do sentimentalismo de varejo
Percorrendo o Brasil para escrever sobre afeto — um tema que, confesso, sempre me deixou desconfortável —, comecei a reparar nas narrativas que se oferecem com facilidade demais. Estão por todo canto: nas livrarias, nas playlists, nas campanhas publicitárias. Histórias com trilha sonora, lágrimas no segundo parágrafo, e personagens que choram como se estivessem competindo por aplausos.
Fui a três lançamentos de livros em São Paulo num intervalo de cinco dias. Em todos, os autores choraram em público. Em dois, os leitores também. A certa altura, me vi perguntando: estamos emocionados ou estamos apenas reagindo ao que nos ensinaram a reagir?
“É como pornografia”, me disse, em Curitiba, o professor de semiótica Claudio Spadaro. “Não porque seja indecente, mas porque oferece uma emoção fácil, sem contexto, sem acúmulo. Como se a lágrima fosse o objetivo, e não a consequência.”
O oposto do espetáculo
De volta ao Rio, volto à casa de Dona Alzira. Desta vez, ela me espera com biscoitos amanteigados e três xícaras sobre a mesa — uma delas ainda com o nome “Gilberto” escrito à mão, já desbotado. É a segunda vez que ouço esse nome. Ele aparece pouco, quase como quem pede licença. Mas sua ausência está em todo lugar: nos livros empilhados, nas cartas guardadas, na pequena valsa que toca ao fundo.
“Tem gente que fala demais quando sofre. Eu aprendi que o luto gosta de silêncio”, ela diz, olhando pela janela.
Ali, penso eu, está tudo o que os grandes escritores sabem e o que a indústria cultural esqueceu. Que o amor, o luto, a saudade, não precisam de palco nem de roteiro. Eles se escondem em gestos pequenos. Como arrumar duas xícaras sabendo que só uma será usada. Como dobrar um pijama que ninguém mais vestirá.
Uma crônica nacional do afeto
Ao longo de três meses, entrevistei 23 pessoas que mantêm objetos que não servem mais. Um senhor em Fortaleza que guarda a escova de cabelo da esposa. Uma mulher em Porto Alegre que ainda lava a camisa preferida do pai. Um adolescente em Belém que guarda a pulseira da maternidade do irmão que morreu antes de completar dois anos.
Nenhum deles chorou. Nenhum fez discurso. Nenhum disse “isso me destruiu”. Mas todos, ao modo dos tímidos, permitiram que suas rotinas falassem por eles.
“Hoje as pessoas confundem intensidade com verdade”, diz a escritora Conceição Evaristo, com quem falei por telefone. “Mas as palavras mais verdadeiras, às vezes, são as que não chegam a ser ditas. O gesto cotidiano é que sustenta o afeto.”
A xícara, outra vez
Na última visita à casa de Dona Alzira, peço licença para fotografar a xícara. Ela hesita. Diz que não tem problema, mas que, se possível, eu não publique o nome do marido. “É que, se eu falar demais dele, parece que ele some um pouco.”
Na era das redes sociais, onde cada emoção vira post, esse pedido tem algo de subversivo. Como se a verdadeira intimidade não fosse feita de exposição, mas de cuidado. Como se, no fundo, a emoção mais profunda fosse a que permanece intacta mesmo quando não a mostramos a ninguém.
Enquanto saio do apartamento, escuto atrás de mim o tilintar de louça. Alzira está lavando a xícara, como sempre faz, com a delicadeza que se tem com o que é insubstituível. Não há lágrimas. Não há trilha sonora. Apenas o som da água e o cuidado de quem, mesmo sozinha, ainda arruma a mesa para dois.

Sensacional, Fagner! Meus parabéns!