A VIGÍLIA DOS HOMENS SEM SAÍDA

Quando a política converte a liberdade em aparência, resta apenas o teatro trágico das ilusões humanas — e seus inevitáveis desfechos

Brasília (DF), 22112025 – Manifestação em frente a sede da Polícia Federal após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Foto Valter CampanatoAgência Brasil

A prisão preventiva de Jair Bolsonaro, decretada antes mesmo do cumprimento de sua sentença final, não inaugura um novo capítulo — apenas revela o movimento subterrâneo que já se desenhava havia anos. O episódio não é marco de justiça restaurada nem triunfo da racionalidade institucional. É mais um sintoma de algo mais antigo e mais profundo: a tendência humana de vestir sua própria ruína com os trajes da esperança.

Há quem imagine que a história progride, que a democracia depura seus inimigos, que os tribunais corrigem desvios. Sempre insisti no contrário: humanos não aprendem, apenas repetem, com novas máscaras e velhos impulsos. A trajetória de Bolsonaro desde 2021 — quando declarou que a hipótese da prisão “não existia” — é a narrativa clássica do homem que acredita moldar o mundo pela força da vontade, ignorando que o mundo não se curva a ninguém.

A cada tentativa de fuga, a cada sinal de busca por asilo, a cada afronta calculada às instituições, repetia-se um padrão ancestral: o indivíduo que tenta escapar das consequências de seus atos confiando na ideia ilusória de que sua excepcionalidade é um escudo moral. O ex-presidente nunca operou segundo o cálculo realista da sobrevivência política, mas segundo um misticismo voluntarista — a crença de que a fidelidade de seus seguidores seria suficiente para suspender a gravidade.

Alexandre de Moraes, por sua vez, não aparece aqui como o arquétipo iluminista do juiz racional que intervém para salvar a estabilidade republicana. Ele se aproxima mais das figuras trágicas que costumo descrever: agentes que, ao tentarem evitar o caos, inevitavelmente o aprofundam. Ao multiplicar medidas cautelares, ao tentar poupar Bolsonaro da cadeia por quase dois anos, Moraes encarnou a esperança moderna de que instituições podem controlar a natureza humana pela administração progressiva da punição.

A crença era vã. Nenhuma gradação de restrições poderia conter alguém cuja estratégia política dependia justamente de violá-las. Bolsonaro insistiu em se colocar à margem da Justiça não por cálculo jurídico, mas porque se alimenta do conflito como fonte de identidade. Ele não busca inocência — busca martírio. O choque com o Estado, para ele, não é aviltante; é consagração.

Essa é a armadilha central das democracias liberais: o inimigo das instituições não precisa destruí-las para vencer. Basta forçá-las a agir segundo a lógica dele.

A violação da tornozeleira, a vigília convocada por seu filho, a proximidade simbólica da Embaixada dos Estados Unidos — tudo isso compõe uma dramaturgia que se repete em sociedades que creem ser únicas. Não há novidade. O poder, uma vez perdido, converte-se em pânico, e o pânico gera gestos irracionais. Mas o mais revelador não é o comportamento do ex-presidente. É a expectativa coletiva, quase religiosa, de que um evento — prisão, denúncia, condenação — poderia encerrar um ciclo histórico.

Nada se encerra. A prisão preventiva não restaura a harmonia e não encerra a disputa. Apenas desloca o conflito para outro palco.

Ao fim, o episódio expõe a fragilidade da política moderna, que insiste em se apresentar como campo de decisões racionais quando é, na verdade, uma arena de crenças. Bolsonaro acreditou que poderia fugir; seus seguidores acreditam que sua prisão é um sinal de perseguição; o Supremo acredita que a contenção jurídica poderá produzir estabilidade.

Todas são versões da mesma ilusão — a crença humana de que o caos pode ser domado.

É preciso lembrar de que nenhuma sociedade escapa de seus demônios porque eles não residem nas instituições, mas nos indivíduos. E indivíduos não mudam. Apenas aguardam novas oportunidades de repetir o eterno retorno de seus erros.

O que ocorreu nesta manhã de sábado (dia 22) não é a solução de um problema, mas a revelação de que ele jamais será solucionado. Em política, como na vida, não há catarse. Há apenas a sucessão de episódios que nos lembram do que somos: criaturas que buscam segurança num mundo que se recusa a oferecê-la.

O resto — prisões, decisões, vigílias, discursos inflamados — é apenas a encenação pública de uma verdade simples: ninguém foge de si mesmo, e nenhum Estado, por mais poderoso, consegue impedir que a natureza humana cumpra seu curso.

Sobre o autor

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José Fagner Alves Santos é jornalista (MTB 0074945/SP), formado em Letras. Mestre em Educação, Doutor em Literatura. Fã de Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese, Hunter Thompson, John Hersey e Eliane Brum. Faz um arremedo de jornalismo literário. Publica sempre às segundas aqui no Editoria Livre e apresenta o podcast que é publicado às quartas. Colabora com o Portal Café Brasil.


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