A Utopia Disfarçada de Racionalidade: Gramsci e a Redenção Política pela Cultura

Em sua tentativa de refundar o marxismo à luz de uma revolução cultural permanente, Antonio Gramsci constrói uma visão do mundo que, embora secular na linguagem, carrega consigo a mesma promessa de salvação que encontramos nas grandes religiões messiânicas. Como tantos pensadores modernos, Gramsci substitui o paraíso celestial por um horizonte histórico fabricado — neste caso, a conquista da hegemonia cultural pelas classes subalternas.

Na base de sua filosofia está a ideia de que todos são, de algum modo, filósofos — que todo indivíduo, ao participar de uma determinada linguagem ou prática social, já opera dentro de uma “cosmovisão”. A tarefa do filósofo, segundo Gramsci, seria tornar essa visão de mundo coerente, consciente e politicamente dirigida. Trata-se de uma filosofia que dissolve o indivíduo reflexivo na figura coletiva da classe, subordinando a consciência à função política.

O ponto central da crítica aqui não é simplesmente que Gramsci esteja errado quanto à formação ideológica dos sujeitos. De fato, não há razão para duvidar de que a maior parte do que pensamos ser “nossas” ideias é herdado de contextos históricos e instituições anteriores a nós. Mas a ilusão está em imaginar que este processo possa ser dirigido conscientemente por um grupo — partido, intelectual coletivo ou vanguarda cultural — com vistas a transformar a sociedade como um todo.

Essa é, em essência, uma esperança iluminista: que a razão, usada corretamente, possa reprogramar o tecido social e redimir a história. Em Gramsci, essa fé toma a forma do “intelectual orgânico”, uma figura quase sacerdotal encarregada de iluminar as massas, reorganizar o senso comum e implantar uma nova racionalidade coletiva. Não há grande diferença aqui entre o papel do filósofo gramsciano e o do pregador religioso — ambos têm como missão converter as consciências a um conjunto superior de crenças.

O problema não é apenas que esse projeto raramente funciona. O problema maior é que, mesmo quando aparentemente funciona — quando ideias se tornam dominantes — ele não gera a emancipação prometida. A hegemonia, uma vez alcançada, tende a reproduzir a lógica de poder que dizia combater. E nesse sentido, o gramscismo é menos uma crítica ao poder do que uma proposta para reconfigurá-lo em novas mãos.

Gramsci via a cultura como campo de batalha — e talvez tenha sido nisso um realista. Mas sua solução para esse conflito foi uma utopia disfarçada de análise estratégica: uma reengenharia das crenças populares a serviço de um projeto de emancipação histórica. Acreditava-se que, ao transformar o “senso comum” das massas, produzir-se-ia uma nova sociedade. É um raciocínio circular que parte da premissa de que a verdade social pode ser moldada por vontade racional. Mas a história, longe de ser guiada por vontades, é, em sua essência, contingente.

A ideia de que a razão humana pode superar os impulsos tribais, os ressentimentos e os ciclos de violência que estruturam as sociedades humanas é uma herança do cristianismo secularizado. Gramsci apenas a reencena em versão marxista. Como outros profetas seculares — Rousseau, Comte, Marx, Lenin — ele confia que a história tem um telos, um desfecho moral, e que a cultura pode ser instrumentalizada para alcançá-lo. Não há nada mais ocidental — nem mais fantasioso — do que isso.

Como escreveu Isaiah Berlin, “os problemas dos homens nunca serão resolvidos pela realização de uma harmonia final”, porque os valores humanos são frequentemente incompatíveis entre si. Gramsci, como outros racionalistas militantes, recusa essa tensão. Ele imagina um mundo no qual a política, a cultura e a moral possam ser fundidas em uma única matriz hegemônica — justa, coerente, universal. O resultado não é libertação, mas a substituição de um dogma por outro.

No fim das contas, a filosofia de Gramsci não se distingue dos projetos iluministas que ele implicitamente herda. É uma forma de política salvífica, com a revolução cultural como liturgia e o intelectual orgânico como apóstolo. Como todos os sonhos modernos de redenção coletiva, ele fracassa ao ignorar a tragédia inerente à condição humana: a impossibilidade de construir uma sociedade plenamente racional com criaturas que nunca o serão.


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