A política como repetição de mitos: o caso Bolsonaro

A prisão de Jair Bolsonaro, formalizada pela Polícia Federal após decisão do Supremo Tribunal Federal, não deveria surpreender ninguém que acompanhe o curso errático da política brasileira. O que surpreende, isto sim, é a persistência com que sociedades modernas insistem em tratar líderes políticos como figuras míticas — seres acima das consequências humanas. A prisão preventiva, os pedidos de clemência, as vigílias organizadas por apoiadores: tudo isso pertence menos ao domínio racional do constitucionalismo moderno do que ao imaginário religioso que, apesar de nossa pretensa secularidade, continua moldando nossas expectativas.
O caso brasileiro revela, de forma quase exemplar, aquilo que tantas vezes ignoramos: as democracias liberais não são motores de progresso, mas sistemas frágeis de contenção. Funcionam enquanto as paixões políticas podem ser administradas por instituições suficientemente robustas para impedir que a política se transforme em guerra civil ritualizada. Quando um ex-presidente, condenado a mais de duas décadas de prisão, mobiliza devotos para vigílias e campanhas espirituais às portas de sua residência, não estamos diante de mera disputa jurídica — estamos testemunhando o choque entre a burocracia moderna e os mitos primários da fidelidade tribal.
A defesa de Bolsonaro argumenta que suas doenças permanentes justificariam uma prisão domiciliar humanitária. O pedido não é incomum em termos formais; contudo, revela algo mais profundo: a expectativa, partilhada tanto por seguidores quanto por adversários, de que líderes políticos pertencem a uma categoria separada, cuja relação com a lei é sempre excepcional. A decisão sobre enviá-lo ou não à Papuda, nesse sentido, não envolve somente uma avaliação médica, mas a eterna tensão entre a igualdade legal abstrata e os impulsos sociais que demandam heróis e mártires.
Na trajetória recente do Brasil, Bolsonaro tornou-se um símbolo de um fenômeno global: a personalização quase religiosa da política em um mundo que perdeu seus horizontes metafísicos. Em sociedades desencantadas, líderes fortes ocupam o espaço que outrora pertencia aos deuses — e suas quedas, por isso mesmo, assumem ares de tragédia ritual. A vigilância eletrônica, as restrições de comunicação, a tentativa constante de driblar limites institucionais: tudo isso não apenas descreve um indivíduo, mas ilumina uma época na qual as regras são vistas menos como garantias de liberdade do que como obstáculos ao carisma.
Nada disso, porém, significa que a prisão de Bolsonaro inaugure uma nova era. Ao contrário: ela repete um padrão histórico que John Gray identificaria como circular. Nenhuma sociedade supera definitivamente seus próprios demônios; no máximo, os reorganiza. O Brasil, como outras democracias fatigadas, alterna entre o desejo de ordem e o fascínio pela ruptura. De tempos em tempos, um líder encarna a promessa de salvação; inevitavelmente, essa promessa se desfaz, e o ciclo recomeça.
A execução da pena nas próximas semanas, se de fato ocorrer, não encerrará o capítulo que Bolsonaro representa. Apenas mostrará, mais uma vez, que o progresso político é menos uma linha ascendente do que um movimento pendular — e que, na ausência de utopias coletivas convincentes, a política continuará a girar em torno de figuras carismáticas destinadas a cair sob o peso das próprias expectativas que despertam.
Em última análise, o caso Bolsonaro confirma uma intuição central da obra de Gray: os seres humanos não abandonam mitos; apenas os substituem. E enquanto a política continuar a desempenhar a função de religião secular, não faltará quem transforme cada prisão, cada absolvição, cada decisão judicial, em mais um episódio da interminável busca por redenção coletiva.
